Stock Pickers
O episódio descreve uma inversão completa das teses de mercado desde o início da guerra. Em janeiro, esperava-se enfraquecimento do dólar, cortes de juros globais e fluxo para emergentes. Após o conflito, o dólar se fortaleceu, os juros subiram e a tecnologia passou a sugar todo o fluxo global, deixando ativos como o Ibovespa para trás.
O basket de inteligência artificial subiu 111% no ano, mas as revisões de lucro foram ainda maiores (160%), fazendo com que as ações fiquem mais baratas. O episódio argumenta que não há bolha, pois o crescimento de lucros sustenta a alta, diferentemente da bolha dos anos 2000. A restrição de oferta de insumos (semicondutores, energia) é o principal motor de valorização.
O Federal Reserve surpreendeu ao adotar postura mais agressiva, com metade do comitê projetando ao menos um aumento de juros este ano. Os juros reais de 2 anos nos EUA saltaram de 0,5% para 2% em dois meses, mudando o cenário global. Isso pressiona ativos sensíveis a juros, como small caps e mercados emergentes, enquanto a economia americana segue forte, impulsionada por consumo e capex de IA.
O investimento em inteligência artificial está acelerando, com big techs como Google comprometendo recursos massivos. A corrida pelo modelo líder gera um dilema do prisioneiro: ninguém pode parar de gastar. Isso beneficia toda a cadeia, desde infraestrutura (refrigeração, óptica) até memória e semicondutores, com empresas como Hynix e Samsung vendo lucros dispararem. A tese de 'pás e picaretas' se fortalece, com ações de AI ficando mais baratas conforme os lucros sobem mais que os preços.
Marcelo Urbano, gestor de crédito com 32 anos de experiência, afirma que o mercado de crédito no Brasil está repleto de oportunidades, apesar do aumento da inadimplência e dos juros altos. Ele compara o momento a uma trilha em condições difíceis, onde a experiência e a diligência são cruciais para navegar com segurança. A chave é errar o mínimo na entrada dos ativos e diversificar o portfólio.
Urbano alerta que o mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) cresceu rapidamente, ultrapassando R$ 80 bilhões, e que muitos gestores não sabem analisar corretamente esses ativos. Ele critica o uso de métricas como PDD e valorização da cota subordinada, que podem dar uma falsa sensação de segurança. A verdadeira qualidade de um FIDC só é avaliada pelo fluxo de caixa e pela taxa interna de retorno (TIR) das safras.
O Fed, sob Powell, sinalizou postura mais dura, com metade do comitê prevendo alta de juros ainda este ano. O juro real de 2 anos nos EUA saltou de 0,5% para 2% em dois meses, mudando o cenário global. Isso pressiona emergentes como o Brasil, encarece o custo de capital e fortalece o dólar.
O mercado brasileiro está barato em valuation, com empresas a 4-5 vezes lucro e dividendos de 20%, mas o risco fiscal e a incerteza eleitoral afastam investidores. O equity risk premium ainda é baixo frente à NTNB, e a renda fixa parece mais atraente. Estrangeiros podem entrar pelo cupom cambial, mas sem proteção cambial o risco é alto.
A inteligência artificial está gerando inflação no curto prazo, ao contrário da tese deflacionária. A demanda por semicondutores, energia e data centers é tão alta que os preços sobem, forçando empresas como a Apple a reajustar preços. Essa inflação de oferta, diferente do petróleo, não é transitória e complica a política monetária dos bancos centrais.
O Ibovespa começou o ano forte, mas perdeu fôlego e agora rende menos que o CDI. O Brasil perdeu representatividade nos índices de mercados emergentes (de 8% para 5%) e globais (0,3-0,4%), enquanto Taiwan e Coreia cresceram com tecnologia. O fluxo estrangeiro para o Brasil caiu, e gestores estão zerados ou vendidos em bolsa brasileira.
As taxas de juros de longo prazo nos EUA, Europa e Japão subiram devido ao aumento do endividamento fiscal e à discussão sobre o juro neutro mais alto. O mercado não tolera mais taxas baixas como no passado. No Brasil, a curva de juros também subiu, com surpresas inflacionárias e pressão fiscal, tornando o ambiente mais volátil para gestores.
O índice KOSPI subiu 100% no ano, puxado por Hynix e Samsung, que representam 50% do índice. Metade da população coreana investe em bolsa, e estrangeiros já venderam US$ 70 bilhões no ano. A formação de preço é especulativa, com 70% do volume de Hynix vindo de opções e ETFs alavancados. Grandes prime brokers reduziram exposição na Coreia para liberar capital para IPOs como o da SpaceX, aumentando o risco de correção.
A SpaceX atingiu valuation de US$ 165 bilhões em um dia, superando o valor de mercado da Berkshire Hathaway. O valuation é considerado 'maluco' por alguns, negociando a múltiplos elevados de receita, com promessas de receitas futuras de foguetes e Starlink. A entrada nos índices e o float limitado (7% do capital) distorcem o preço. A verdadeira valuation será testada a partir de setembro, com a liberação de mais ações.
Com os spreads de crédito comprimidos no Brasil, Urbano defende que é essencial montar um portfólio high grade de verdade, sem margem para erros. Ele observa que, em momentos de alta liquidez, a diferenciação entre empresas saudáveis e arriscadas diminui, aumentando o risco de defaults. A recomendação é focar em empresas com histórico sólido e gestão confiável.
Urbano explica que o mercado de special situations no Brasil oferece oportunidades de comprar dívidas descontadas, como no caso da Ligga Telecom, comprada a 40% do par e hoje a 50%, com potencial de 85%. No entanto, ele alerta para os riscos de execução, como no caso da Cora, onde a empresa não conseguiu monetizar ativos conforme esperado. A estratégia exige paciência e análise profunda.
Urbano destaca que a participação dos grandes bancos no crédito caiu de 80% para 65% nos últimos anos, impulsionada por medidas do Banco Central como a desmutualização das maquininhas, o open banking e as duplicatas escriturais. Ele vê o FIDC como veículo perfeito para essa desintermediação, com regulação em evolução, mas ainda com governança a melhorar.
A SpaceX, com valuation de US$ 165 bilhões após um dia, levanta questionamentos sobre preços justos em meio ao boom de AI. Enquanto isso, empresas de infraestrutura de AI (memória, óptica, refrigeração) tiveram revisões de lucro maiores que a alta das ações, indicando que podem estar mais baratas. O Capex em AI deve continuar crescendo, mas a monetização ainda é incerta.
O Capex maciço em AI está aquecendo a economia americana, com consumo forte e geração de empregos. No entanto, setores sensíveis a juros (small caps, consumo, financeiro) sofrem com a alta das taxas. A bifurcação do mercado se acentua: empresas ligadas a AI se beneficiam, enquanto as demais são prejudicadas pelo custo do capital.
Os gestores de multimercado reduziram o tamanho das posições compradas em juros (apostando em queda) e venderam real, devido ao dólar forte e ao cenário eleitoral brasileiro. Em contrapartida, mantêm posições compradas em ações de tecnologia globais, que mesmo com exposição pequena (até 10%) podem gerar retornos significativos.
O episódio discute como valuations aparentemente insustentáveis podem se concretizar quando há inovação disruptiva, como ocorreu com a Tesla, que superou a soma de todas as montadoras. No caso da SpaceX, o prêmio pode embutir expectativas de que, em 10 anos, viagens de foguete se tornarão comuns. A dificuldade de pensar exponencialmente leva investidores a subestimar o potencial de empresas como SpaceX e Google.
Urbano afirma que comprar bonds brasileiros no exterior é quase um 'play de cupom cambial', pois o retorno depende mais do câmbio e dos juros americanos do que da análise de crédito. Ele admite que, apesar de ter experiência, não se sente confortável para fazer gestão ativa nesse mercado, preferindo atuar de forma oportunística, como em 2016 e na pandemia.
O Banco Central brasileiro reduziu a Selic no mesmo dia em que o Fed sinalizou aperto. A decisão contrasta com o movimento global de juros mais altos e pode pressionar o câmbio e a inflação. O mercado questiona a sustentabilidade do corte diante do risco fiscal e da dominância fiscal.