FIM DA GUERRA, TECH DISPARA E IBOVESPA FICA PARA TRÁS: O MERCADO DESISTIU? | Carteiros do Condado
Priscila Araújo (XP Advisory) e o host analisam a inversão radical do cenário macro em 2025: guerra, alta do dólar, juros globais subindo e tecnologia sugando fluxo. Discutem o posicionamento de gestores multimercado, o pessimismo extremo com bolsa brasileira (Ibovespa) e as teses da Verde Asset (Stuhlberger) sobre ouro, prata e tech global.
Priscila Araújo – Relacionamento e Produto na XP AdvisoryHost (não nomeado) – Apresentador do Stock Pickers
O cenário de 2025 inverteu: saiu da tese de dólar fraco e juros caindo para dólar forte, juros subindo e tecnologia dominando fluxo global.
A bolsa brasileira (Ibovespa) perdeu 40 bilhões de fluxo estrangeiro desde meados de abril, revertendo a entrada recorde de 70 bi, e o sentimento está no nível mais pessimista da história (índice contrarian em zero).
A concentração em tecnologia nos índices globais e emergentes (TSMC, Samsung, Hynix) tornou emergentes um 'proxy' de AI, andando junto com o Nasdaq e dificultando a diversificação.
A alta das ações de AI (basket subiu 111% no ano) foi acompanhada por revisão de lucros de 160%, tornando-as mais baratas em múltiplo – não há evidência de bolha, mas sim restrição de oferta na cadeia de insumos (semicondutores, energia).
Gestores multimercado reduziram posições em juros (aposta na queda) e em real (antes comprados, agora neutros/vendidos), e estão neutros ou vendidos em bolsa brasileira, com risco alocado em tech global.
A Verde Asset (Stuhlberger) mantém posição reduzida em bolsa brasileira (5-6% do fundo), comprada em tech global (S&P 500), ouro e prata, e sem posição em juros ou real – visão cética com o cenário fiscal e eleitoral brasileiro.
A inflação de curto prazo gerada pela demanda infinita por insumos de AI (semicondutores, energia, terras raras) é persistente e não transitória, complicando a política monetária global.
O mercado de juros longos subiu globalmente por conta de juro neutro mais alto e deterioração fiscal, com destaque para a perda de credibilidade do Banco Central brasileiro após o Copom cortar juros apesar de discurso duro na ata.
Mudança radical de cenário macro (janeiro vs. junho 2025)
Em janeiro, a tese era de dólar fraco, rotação para emergentes, afrouxamento monetário global e cortes de juros no Brasil e EUA.
Após a guerra (março), o dólar se fortaleceu, os fluxos reverteram e a tecnologia passou a sugar todo o fluxo global, especialmente após resultados fortes de tech em abril.
A curva de juros brasileira foi reprificada para cima: CDI acumula 6,34% no ano (até 17/jun), superando a maioria das classes (Ibovespa 4,55%, IMA-B 4%, IHFA 2,43%).
O índice de crédito IDA-IMA subiu 6,50%, ligeiramente acima do CDI, refletindo recuperação parcial após eventos de crédito em março.
O S&P 500 em dólares subiu 8,39% no ano, beneficiado pelo fluxo de tech, mas ainda abaixo do CDI em reais.
Tecnologia e AI: bolha ou fundamento?
O basket de AI (WHG) subiu 111% no ano, mas a revisão de lucros foi de 160% – as ações ficaram mais baratas em múltiplo (P/L caiu).
Diferente da bolha de 2000, a alta atual é sustentada por crescimento de lucros, não apenas por expansão de múltiplo.
A cadeia de AI tem restrição de oferta na parte de insumos (semicondutores, energia, data centers): a demanda é infinita, mas a oferta não cresce no curto prazo, gerando inflação persistente nesses insumos.
Empresas como Apple já sinalizaram reajuste de preços devido ao aumento do custo de componentes (memória, etc.).
A alavancagem ainda não é um sinal de alerta: as big techs estão financiando CAPEX com dívida e equity, mas há demanda abundante (IPOs da SpaceX, Antropic, etc.).
O consumo de tokens (unidade de uso de AI) é a nova commodity; a adoção ainda é baixa entre trabalhadores, mas deve crescer exponencialmente com a liberação em grandes empresas.
Concentração dos índices e impacto em gestão ativa
O índice de mercados emergentes hoje tem 20-25% em Taiwan e Coreia (TSMC, Samsung, Hynix), tornando-se um 'proxy' de tecnologia, similar ao Nasdaq.
A concentração temática dificulta a diversificação: emergentes e tech americana andam juntos (correlação alta nos últimos 12-24 meses).
Índices concentrados (como Ibovespa em Petrobras, Vale, Itaú) tornam mais difícil para gestores ativos superarem o benchmark quando os pesos pesados sobem.
ETFs alavancados (2x, 3x Nasdaq) amplificam fluxos de entrada e saída, aumentando o risco de movimentos bruscos.
O Brasil perdeu representatividade no índice de emergentes (de ~8% para ~5%) e no global (de ~0,5% para ~0,3%), reduzindo o fluxo marginal estrangeiro.
Juros globais e o novo normal
As curvas de juros longos (10 e 30 anos) subiram globalmente, impulsionadas por juro neutro mais alto e deterioração fiscal (EUA, Europa, Japão).
A KN faz analogia com o filme 'Era uma Vez em Hollywood': o mercado não tolera mais a 'nostalgia' de juros longos a 2-3%.
A guerra e a inflação de AI geraram choque inflacionário que afetou as curvas de curto prazo (correlação com petróleo).
Há grande dispersão de opiniões sobre a trajetória de juros: curva americana precifica duas altas de 25 bps, mas Goldman Sachs aposta em cortes.
No Brasil, o Copom cortou 25 bps mas a ata foi dura, gerando 'torto de barriga': vértices curtos caíram (mais cortes precificados), mas a ponta longa subiu (perda de credibilidade).
Posicionamento dos gestores multimercado
Em juros, a maioria dos gestores aposta na queda (posição comprada em taxa), mas reduziu o tamanho da posição nos últimos meses.
Em moedas, a posição vendida em dólar foi reduzida; quase ninguém está comprado em real, apesar do diferencial de juros e da balança comercial favorável.
Em bolsa global, os gestores estão comprados em tech (S&P 500, Nasdaq), com exposição de até 10% do fundo – suficiente para impactar o resultado anual.
Em bolsa brasileira, os gestores estão neutros ou ligeiramente vendidos; muitos migraram o risco para tech global.
O 'kit Brasil' (compra de juros, real e bolsa) caiu de máximas históricas para abaixo da média, indicando desalavancagem do país.
O índice de sentimento da XP (contrarian) está em zero – o nível mais pessimista já registrado para a bolsa brasileira.
Fluxo estrangeiro e bolsa brasileira
Em 2025, entraram 70 bilhões na bolsa brasileira até meados de abril, impulsionados pela tese de rotação e guerra (Brasil como exportador de petróleo).
A partir de meados de abril, com resultados fortes de tech nos EUA, o fluxo reverteu: já saíram 40 bilhões (até meados de junho).
O Ibovespa caiu de 200.000 para abaixo de 170.000 pontos, perdendo todo o ganho do ano contra o CDI.
O investidor local não tem apetite por bolsa com juros altos e perspectiva de cortes menores (Selic deve ficar em ~14% + dois cortes).
Apesar dos valuations descontados (P/L ~10x), falta catalisador de curto prazo – eleições e incerteza fiscal travam o fluxo.
Visão da Verde Asset (Stuhlberger) no evento anual
Stuhlberger mantém posição reduzida em bolsa brasileira (5-6% do fundo), focada em stock picking de empresas fora do top 10 do Ibovespa (utilities, domésticas defensivas).
Não tem posição em juros brasileiros nem em real, devido ao ceticismo com a política fiscal e eleitoral (mesmo com eventual vitória de Flávio Bolsonaro).
No global, está comprado em S&P 500 (tech) e em ouro e prata, como hedge contra inflação e desancoragem fiscal.
Acredita que a inflação implícita nos EUA está controlada, mas o juro neutro subiu; vê barato comprar proteção contra inflação (posição em juros reais).
Destaca que a China mais que dobrou a compra de ouro, prata e paládio, sustentando a tese de metais preciosos.
O fundo preservou capital nos últimos 5 anos, rendendo próximo ao CDI, enquanto muitos multimercados tiveram perdas.
Dicas culturais
Host recomenda o livro 'More Money Than God' (não traduzido), que conta histórias de hedge funds americanos, desde a bolha .com até a crise de 2008.
Priscila recomenda 'Transitions', de William Bridges, sobre transições de vida e carreira, em linha com as transformações tecnológicas atuais.
Cita evento de banco que previu 100 milhões de humanoides trabalhando nos EUA em 2031, ilustrando a velocidade da mudança.
Passos práticos
Revise a alocação em renda variável global: considere exposição a tech (S&P 500, Nasdaq) via fundos ativos ou passivos, mas esteja ciente da concentração e do risco de ETFs alavancados.
Para bolsa brasileira, avalie se o pessimismo extremo (índice contrarian em zero) pode ser oportunidade de entrada gradual, mas com horizonte de longo prazo e cautela com o período eleitoral.
Em renda fixa, prefira títulos pós-fixados (CDI) ou crédito privado de curto prazo, dado o ambiente de juros altos e incerteza na curva longa.
Considere alocar em ouro e prata como hedge contra inflação e riscos fiscais globais, seguindo a tese de Stuhlberger e de bancos centrais.
Acompanhe os resultados trimestrais das big techs e as revisões de lucro para avaliar se a tese de AI continua se sustentando; evite decisões baseadas apenas em múltiplos.
Para gestores multimercado, prefira aqueles com histórico de preservação de capital em cenários adversos (como Verde) e que tenham flexibilidade para alocar globalmente.
Mantenha disciplina de alocação: a volatilidade de curto prazo não deve mudar a estratégia de longo prazo; ajuste o tamanho da posição ao seu perfil de risco.
Frases marcantes
"A gente nunca teve um índice tão pessimista como a gente tem hoje pra bolsa brasileira."
"Apesar de subir mais de 100% em dólar, essas ações ficaram mais baratas. Hoje elas estão mais baratas do que estavam no começo do ano."
"O que aconteceu com a curva foi que os vértices mais curtos caíram, mas a ponta intermediária longa subiu. Deu um certo torto de barriga no mercado."
"Se você não aguenta esse tipo de volatilidade, você tá com a posição de tamanho errado no seu portfólio."
"A nova commodity, o novo ouro da era da inteligência artificial é o tal do token."
"O mercado não tolera mais a nostalgia de quando os juros longos eram comportados a 2-3%."
Mencionados no episódio
XP Advisory – Corretora e assessoria de investimentos
WHG (WHG Gestão de Recursos) – Gestora que produz live mensal e gráficos de AI basket
Verde Asset – Gestora de Luiz Stuhlberger, multimercado renomado
Luiz Stuhlberger – Gestor-chefe da Verde Asset
Bruno Coutinho – Gestor da Mar Asset (citado sobre identificação de bolhas)
KN (Kinea) – Gestora que fez analogia com filme 'Era uma Vez em Hollywood'
Ferreira – Estrategista da XP Research (criador do índice contrarian e X-Price)
Goldman Sachs – Banco de investimento citado sobre projeção de juros nos EUA
Apple – Citada sobre reajuste de preços devido a insumos de AI
SpaceX – Empresa que fez IPO e captação de dívida recentemente
OpenAI – Provedora de serviços de AI (ChatGPT)
Antropic – Provedora de serviços de AI (Claude)
TSMC, Samsung, Hynix – Empresas de semicondutores que dominam o índice de emergentes
Brasil Journal – Veículo que publicou matéria sobre a Verde
Livro 'More Money Than God' – Hedge fund stories (não traduzido)
Livro 'Transitions' – William Bridges, sobre transições de vida
Índice X-Price – Indicador de surpresas macroeconômicas da XP
Índice contrarian XP – Mede sentimento do mercado em relação à bolsa brasileira