Dwarkesh Patel
Ada Palmer explica que Maquiavel escreveu 'O Príncipe' em meio a uma crise de legitimidade política na Itália, onde a maioria dos governos havia sido derrubada recentemente. O papado, com sua sucessão eletiva e crescente militarização, agravava a instabilidade ao derrubar governos para beneficiar parentes. Maquiavel via a única saída na unificação sob um líder forte, como os Médici, para estabilizar a região.
Palmer destaca a fascinação de Maquiavel por César Bórgia, que ele via como um governante que fez tudo certo, mas caiu devido à má sorte (doença simultânea com o pai). Maquiavel argumenta que devemos julgar as ações pelo resultado provável, não pelo resultado real, e que a fortuna controla metade dos eventos. A experiência de Maquiavel ao lado de Bórgia, testemunhando sua crueldade calculada e carisma, moldou sua filosofia política.
Ao contrário da visão simplista de que 'os fins justificam os meios', Palmer mostra que Maquiavel se preocupava profundamente com os meios, pois eles afetam a estabilidade do poder. Por exemplo, conquistar com ajuda de mercenários ou grandes potências torna o governante vulnerável. Já quebrar promessas pode ser aceitável, desde que o governante seja temido o suficiente para que a traição não gere rebelião, como no caso de Bórgia.
Palmer aponta que Maquiavel foi o primeiro pensador europeu a sugerir que múltiplos partidos políticos poderiam coexistir e competir, canalizando tensões sociais de forma produtiva. Na época, a norma era eliminar o partido adversário fisicamente. Maquiavel observou o exemplo de Siena, onde partidos rivais competiam eleitoralmente sem violência, e propôs que isso poderia trazer estabilidade, antecipando ideias modernas de democracia representativa.
Palmer explica que o patronato era o 'cimento' da sociedade, não apenas uma prática comum. Desde a justiça até a hospedagem, tudo dependia de redes de patronato. Por exemplo, julgamentos criminais raramente terminavam em execução porque um patrono intercedia; a justiça era vista como um processo de correção espiritual, não de punição proporcional. O nepotismo era esperado pela população, que via nele uma garantia de lealdade.
Palmer descreve como o acúmulo de riqueza e poder tornou o papado cada vez mais corrupto ao longo dos séculos, com cada geração percebendo os papas como piores que os anteriores. Maquiavel acreditava que todas as instituições se corrompem e precisam ser 'retornadas às suas fundações' para sobreviver. Ele via a Reforma Protestante como inevitável, e citava São Francisco e São Domingos como exemplos de reformadores que salvaram a Igreja temporariamente.