Germany: The Most Controversial Anthem | National Anthems EP 3
Tom Holland e Dominic Sandbrook exploram a história controversa do hino alemão 'Das Lied der Deutschen', desde sua origem liberal em 1841 até sua apropriação nazista e o debate pós-guerra sobre identidade nacional. O episódio revela como a terceira estrofe ('Einigkeit und Recht und Freiheit') tornou-se o hino oficial, enquanto a primeira ('Deutschland, Deutschland über alles') permanece tabu, e discute alternativas como o hino da Alemanha Oriental e a proposta de Bertolt Brecht.
Tom Holland - historiador e co-apresentadorDominic Sandbrook - historiador e co-apresentador
O hino alemão não se chama 'Deutschland über alles'; o título é 'Das Lied der Deutschen' e a versão oficial é apenas a terceira estrofe.
A melodia foi composta por Joseph Haydn em 1797 como hino imperial austríaco, inspirado no 'God Save the King' britânico.
A letra foi escrita em 1841 pelo poeta liberal August Heinrich Hoffmann von Fallersleben, defendendo a unificação alemã, não expansionismo.
A primeira estrofe ('Deutschland, Deutschland über alles') foi reinterpretada pelos nazistas como propaganda, mas originalmente era um apelo à unidade entre os estados germânicos.
Após a Segunda Guerra, a Alemanha Ocidental adotou apenas a terceira estrofe em 1952, após anos de debate e até um hino cômico de carnaval ('Trizonesien-Lied').
A Alemanha Oriental teve seu próprio hino, 'Auferstanden aus Ruinen', composto por Hanns Eisler com letra de Johannes R. Becher, que evitava referências comunistas explícitas.
Na reunificação, rejeitou-se a proposta de usar a melodia de Haydn com a letra da Alemanha Oriental; manteve-se a terceira estrofe do hino ocidental.
A Copa do Mundo de 2006 na Alemanha marcou a aceitação popular do hino, com a torcida cantando a terceira estrofe sem controvérsias.
Origens do hino: melodia de Haydn e contexto austríaco
A melodia foi composta por Joseph Haydn em 1797, inspirado pelo 'God Save the King' que ouviu em Londres.
Haydn queria elevar o moral austríaco durante as guerras napoleônicas; a letra original ('Gott erhalte Franz den Kaiser') era uma cópia do hino britânico.
A música é lenta e solene, baseada em uma canção folclórica austríaca, não em uma marcha militar.
Tornou-se popular em todo o Império Habsburgo e foi adaptada por Beethoven, Rossini, Bruckner e Tchaikovsky.
Haydn tocou a melodia repetidamente em seu leito de morte em 1809, segundo seu servo.
Letra de Hoffmann von Fallersleben: idealismo liberal de 1841
August Heinrich Hoffmann von Fallersleben, professor de literatura em Breslau, escreveu 'Das Lied der Deutschen' em 1841 durante férias na ilha britânica de Heligolândia.
A letra reflete o ideal liberal de unificação alemã após as Guerras Napoleônicas, não expansionismo.
A primeira estrofe ('Deutschland, Deutschland über alles') significa 'Alemanha acima de tudo' no sentido de priorizar a nação unificada sobre lealdades regionais.
As referências geográficas (Maas, Memel, Etsch, Belt) delimitam áreas de língua alemã, não reivindicações territoriais agressivas.
A segunda estrofe ('Deutsche Frauen, deutsche Treue') é considerada sexista por objetificar mulheres ao lado de vinho e canção.
A terceira estrofe ('Einigkeit und Recht und Freiheit') é a única cantada hoje, defendendo unidade, justiça e liberdade.
A canção não foi um sucesso imediato; Hoffmann perdeu seu cargo por 'subversão' e morreu em 1874 como bibliotecário obscuro.
Ascensão sob o Império Alemão e a Primeira Guerra Mundial
Após a unificação de 1871 por Bismarck, o hino não foi adotado oficialmente; a Prússia usava 'Heil dir im Siegerkranz' (melodia de 'God Save the King').
Canções militares como 'Die Wacht am Rhein' eram mais populares, especialmente após a Guerra Franco-Prussiana.
O hino de Hoffmann ressurgiu em 1890, quando a Grã-Bretanha cedeu Heligolândia à Alemanha; foi tocado na cerimônia de incorporação.
Na Primeira Guerra, soldados alemães cantavam 'Die Wacht am Rhein' e, em alguns relatos, 'Das Lied der Deutschen' – incluindo Adolf Hitler, que descreveu em 'Mein Kampf' ouvir a canção ao avançar.
A lenda do 'Kindermord von Langemarck' (1914) afirma que jovens voluntários alemães cantavam o hino ao serem mortos pelos britânicos, reforçando seu apelo emocional.
República de Weimar: adoção oficial e ambiguidade
Em 1922, o presidente Friedrich Ebert adotou 'Das Lied der Deutschen' como hino nacional, enfatizando a terceira estrofe como símbolo de unidade.
Ebert esperava que a canção unisse liberais e conservadores, mas a República de Weimar era frágil.
A primeira estrofe ('Deutschland über alles') já era associada a nacionalistas de direita, enquanto a esquerda preferia a terceira.
Era Nazista: apropriação e o 'Horst-Wessel-Lied'
Hitler manteve 'Das Lied der Deutschen' como hino, mas priorizou a primeira estrofe, reinterpretando-a como propaganda expansionista.
O 'Horst-Wessel-Lied' (canção do mártir nazista Horst Wessel) tornou-se segundo hino oficial, tocado após o primeiro.
A canção de Wessel, composta em 1929, era uma marcha paramilitar; após 1933, era obrigatório fazer a saudação nazista ao ouvi-la.
Após a guerra, o 'Horst-Wessel-Lied' foi banido; ainda hoje é ilegal exibir suas primeiras palavras ('Die Fahne hoch') em camisetas ou outros meios.
Alemanha Ocidental: disputa pós-guerra e adoção da terceira estrofe
Entre 1949 e 1952, a Alemanha Ocidental não tinha hino oficial; usava-se a 'Ode à Alegria' de Beethoven ou o cômico 'Trizonesien-Lied' (canção de carnaval).
O chanceler Konrad Adenauer pressionou pelo retorno de 'Das Lied der Deutschen', enquanto o presidente Theodor Heuss preferia um novo hino.
Em 1952, Heuss cedeu: a terceira estrofe ('Einigkeit und Recht und Freiheit') tornou-se o hino oficial, com a primeira e segunda estrofes desencorajadas, mas não proibidas.
Na Copa do Mundo de 1954, torcedores alemães cantaram a primeira estrofe, causando controvérsia internacional; o presidente Heuss os repreendeu publicamente.
Alemanha Oriental: 'Auferstanden aus Ruinen'
Em 1949, a RDA adotou 'Auferstanden aus Ruinen' (Ressurgido das Ruínas), com letra de Johannes R. Becher e música de Hanns Eisler.
A letra evitava referências comunistas explícitas, mencionando 'Deutschland, einig Vaterland' (Alemanha, pátria unida).
A melodia de Eisler era compatível com a de Haydn, permitindo que fosse cantada na mesma melodia.
Nos anos 1970, após o reconhecimento internacional das duas Alemanhas, o governo da RDA desencorajou o canto do hino por causa da referência à unidade alemã.
O hino era popular entre os cidadãos, mas a proibição tácita de cantá-lo criou uma situação paradoxal.
Reunificação: debate e manutenção do hino ocidental
Em 1990, o último primeiro-ministro da RDA, Lothar de Maizière, propôs usar a melodia de Haydn com a letra da RDA como compromisso.
O chanceler Helmut Kohl rejeitou a ideia, chamando a letra da RDA de 'produto de uma ditadura cruel'.
Intelectuais sugeriram o 'Kinderhymne' (Hino das Crianças) de Bertolt Brecht, que incluía versos autocríticos como 'que outros países não mais se afastem de nós horrorizados'.
Prevaleceu a terceira estrofe do hino ocidental, que se tornou o hino da Alemanha unificada.
Controvérsias recentes e aceitação popular
Em 2023, políticos do partido de extrema-direita AfD foram filmados cantando a primeira estrofe em Nova York, gerando críticas.
O vice-presidente do partido de esquerda Die Linke, Bodo Ramelow, defendeu um referendo para adotar o 'Kinderhymne' de Brecht.
Na Copa do Mundo de 2006, sediada na Alemanha, a torcida cantou amplamente a terceira estrofe sem controvérsias, marcando a normalização do hino.
A frase 'Einigkeit und Recht und Freiheit' está gravada em fivelas de cintos de soldados alemães e na borda das moedas de 2 euros.
Passos práticos
Ao ouvir o hino alemão em eventos esportivos, preste atenção se a torcida canta a terceira estrofe ('Einigkeit und Recht und Freiheit') e não a primeira.
Para entender a história alemã, compare as letras das três estrofes e note como a primeira foi reinterpretada ao longo do tempo.
Se visitar a Alemanha, observe a presença da frase 'Einigkeit und Recht und Freiheit' em moedas e símbolos oficiais.
Ao estudar nacionalismos, use o caso alemão como exemplo de como um hino pode ter significados opostos em diferentes contextos históricos.
Frases marcantes
"O hino alemão não se chama 'Deutschland über alles'; o título é 'Das Lied der Deutschen' e a versão oficial é apenas a terceira estrofe."
"A primeira estrofe ('Deutschland, Deutschland über alles') foi mal interpretada como expansionista, mas originalmente era um apelo à unidade entre os estados germânicos."
"Após a guerra, o 'Horst-Wessel-Lied' foi banido; ainda hoje é ilegal exibir suas primeiras palavras em camisetas."
"O hino da Alemanha Oriental, 'Auferstanden aus Ruinen', era tão querido que o governo depois desencorajou seu canto por mencionar a unidade alemã."
"Na Copa do Mundo de 2006, o futebol conseguiu o que a política não conseguiu: dar voz a uma geração para quem patriotismo não é palavra suja."
Mencionados no episódio
Joseph Haydn - compositor austríaco, autor da melodia do hino
August Heinrich Hoffmann von Fallersleben - poeta liberal, autor da letra
Das Lied der Deutschen - nome oficial do hino alemão
Horst-Wessel-Lied - hino nazista, banido após 1945
Auferstanden aus Ruinen - hino da Alemanha Oriental (1949-1990)
Kinderhymne - hino infantil de Bertolt Brecht, proposto como alternativa
Heligolândia - ilha do Mar do Norte onde Hoffmann escreveu a letra em 1841
Friedrich Ebert - presidente da República de Weimar que adotou o hino em 1922
Konrad Adenauer - chanceler da Alemanha Ocidental que defendeu o retorno do hino
Theodor Heuss - presidente da Alemanha Ocidental que inicialmente resistiu ao hino
Copa do Mundo de 1954 - vitória da Alemanha Ocidental, com torcida cantando primeira estrofe
Copa do Mundo de 2006 - torcida alemã canta terceira estrofe sem controvérsia
Bertolt Brecht - dramaturgo alemão, autor do Kinderhymne
Hanns Eisler - compositor do hino da Alemanha Oriental
Johannes R. Becher - poeta, letrista do hino da Alemanha Oriental
Lothar de Maizière - último primeiro-ministro da RDA, propôs hino de compromisso
Helmut Kohl - chanceler da Alemanha Ocidental na reunificação
Bodo Ramelow - político da Die Linke, defendeu novo hino
AfD - partido de extrema-direita alemão, envolvido em controvérsia com primeira estrofe
Die Wacht am Rhein - canção militar popular no Império Alemão
Trizonesien-Lied - canção cômica de carnaval usada como hino provisório na Alemanha Ocidental