O episódio analisa a campanha de Gallipoli (1915) como um dos maiores desastres militares da história, destacando o papel central de Winston Churchill na concepção do plano, a bravura das tropas ANZAC e a ascensão de Mustafa Kemal Atatürk. Tom Holland e Dominic Sandbrook desconstroem a narrativa de 'leões liderados por burros' e mostram como a operação, baseada em subestimação do inimigo e planejamento amador, consolidou identidades nacionais na Austrália, Nova Zelândia e Turquia.
Tom Holland - historiador e co-apresentadorDominic Sandbrook - historiador e co-apresentador
Churchill concebeu Gallipoli como um ataque naval puro para quebrar o impasse na Frente Ocidental, mas ignorou alertas de especialistas e a necessidade de tropas terrestres.
A operação foi aprovada por um Conselho de Guerra distraído – o primeiro-ministro Asquith escrevia cartas de amor durante a reunião – e baseada na suposição racista de que os turcos fugiriam.
O desastre naval de 18 de março de 1915 (perda de três navios) deveria ter encerrado o plano, mas o medo de perder prestígio imperial e a pressão de Churchill levaram a uma invasão anfíbia improvisada.
Os desembarques em 25 de abril de 1915 foram um massacre: tropas ANZAC desembarcaram na praia errada (Anzac Cove) e foram contidas por Mustafa Kemal, que ordenou 'não atacar, morrer'.
Na praia V, o 'Cavalo de Troia' (navio River Clyde) fracassou: soldados foram abatidos em massa ao tentar desembarcar por pontes improvisadas, e os corpos serviram de passarela.
A campanha consolidou a identidade nacional australiana e neozelandesa (mito ANZAC) e lançou a carreira de Atatürk, que se tornaria o fundador da Turquia moderna.
Gallipoli foi pior que a Frente Ocidental: calor, mosquitos, disenteria e terreno íngreme tornaram as condições infernais, com soldados cavando trincheiras em solo rochoso.
O fracasso deveu-se à subestimação sistemática do inimigo, à falta de planejamento logístico e à recusa em abandonar a operação após os primeiros reveses (viés de sunk cost).
Contexto Estratégico e a Gênese do Plano
No início de 1915, a guerra na Frente Ocidental estava em impasse; Churchill, Primeiro Lorde do Almirantado, buscava uma 'jogada de gênio' para evitar o desgaste em trincheiras.
O Império Otomano ('doente da Europa') entrou na guerra ao lado dos Alemães em outubro de 1914, após um ataque naval a portos russos no Mar Negro.
O plano original de Churchill era exclusivamente naval: forçar os Dardanelos com navios obsoletos, bombardear Constantinopla e forçar a rendição otomana – sem uso de tropas terrestres.
Churchill ignorou pareceres técnicos do Almirantado que consideravam a operação impossível; ele próprio dissera em 1911 que 'nenhuma frota moderna deveria ser exposta a tal perigo'.
O Conselho de Guerra aprovou o plano em 13 de janeiro de 1915, influenciado pelo entusiasmo de Churchill e pela distração do primeiro-ministro Asquith, que escrevia cartas para sua amante durante a reunião.
A justificativa era abrir uma rota de suprimentos para a Rússia e atrair países balcânicos neutros (Grécia, Bulgária, Romênia) para o lado Aliado.
O Desastre Naval de 18 de Março de 1915
A frota combinada britânico-francesa (16 navios) atacou os fortes internos dos Dardanelos em 18 de março de 1915.
O encouraçado francês Bouvet atingiu uma mina e afundou em minutos, matando 625 dos 700 tripulantes; os navios britânicos Irresistible e Ocean também foram perdidos.
Ao final do dia, 3 navios afundados e 3 gravemente danificados; apenas 4 dos 176 canhões turcos foram neutralizados; apenas 1 de 9 linhas de minas foi limpa.
Churchill minimizou as perdas no Conselho de Guerra, chamando os navios de 'inúteis' e ignorando as baixas francesas; o Almirante Fisher o acusou de loucura.
Apesar do fracasso, o Conselho decidiu não recuar, temendo perda de prestígio imperial (argumento de Kitchener sobre o 'efeito de uma derrota no Oriente') e o viés de custo irrecuperável.
A decisão foi de 'dobrar a aposta': enviar tropas terrestres para tomar a Península de Gallipoli e permitir a passagem da frota.
Preparativos e a Força de Invasão
O general Sir Ian Hamilton foi nomeado comandante da força terrestre, com apenas um mês para planejar o primeiro desembarque anfíbio da história contra defesas modernas.
As tropas eram heterogêneas: a 29ª Divisão britânica (veteranos coloniais), a Divisão Naval Real de Churchill (reservistas navais sem treino terrestre), o Corpo Expedicionário Francês (com tropas argelinas e senegalesas) e os ANZACs (australianos e neozelandeses).
Os ANZACs, voluntários que treinavam no Egito, eram vistos como 'filhos viris do interior', mas 25% haviam nascido na Grã-Bretanha e muitos eram urbanos; no Cairo, envolveram-se em tumultos, embriaguez e doenças venéreas (2 em cada 10).
O comandante otomano, general alemão Otto Liman von Sanders, posicionou 200.000 homens na península, ordenando que esperassem os desembarques para aniquilar os invasores nas praias.
Os otomanos estavam motivados por defender seu território natal, ao contrário da suposição Aliada de que fugiriam.
Os Desembarques de 25 de Abril de 1915: Anzac Cove
16.000 ANZACs desembarcariam na costa oeste da península, em uma baía arenosa (futura Anzac Cove), entre 3h e 4h da madrugada, sob lua minguante.
Por erro de navegação, desembarcaram 2 km ao norte do previsto, em um terreno de falésias íngremes e ravinas, sob fogo cerrado de metralhadoras turcas.
O soldado Walter Styles descreveu: 'um tiro rompeu o silêncio, uma luz amarelada subiu ao céu, e os turcos abriram fogo'; um cirurgião viu a água 'rosada e espumosa com os caídos'.
Os ANZACs avançaram terra adentro, mas foram detidos pelo tenente-coronel Mustafa Kemal, que ordenou: 'Não ordeno que ataquem, ordeno que morram. No tempo em que morrermos, outros comandantes e tropas poderão ocupar nossos lugares.'
Ao anoitecer, os ANZACs mantinham um perímetro de 2 km de comprimento e apenas 800 m de profundidade, com 2.000 baixas (mortos, feridos ou desaparecidos).
O comandante ANZAC, William Birdwood, pediu evacuação imediata, mas Hamilton recusou: 'Cavem, cavem, cavem até estarem seguros' – origem do apelido 'diggers' para os soldados australianos.
Os Desembarques de 25 de Abril: Cape Helles (Praias V e W)
21.000 homens da 29ª Divisão desembarcariam no extremo sul da península, em cinco praias (S, V, W, X, Y); o grosso do combate ocorreu em V e W.
Na praia W, os Lancashire Fusiliers encontraram arame farpado e metralhadoras turcas; dos 27 oficiais e 1.002 homens, restaram 16 oficiais e 304 soldados ao final do dia.
Na praia V, o plano era usar o navio River Clyde como 'Cavalo de Troia': encalhá-lo com 2.000 homens e usar uma barcaça como ponte; a barcaça encalhou no lado errado e os homens ficaram presos.
O comandante naval Edward Unwin e o marinheiro William Williams improvisaram uma ponte de barcaças sob fogo; Williams foi morto e Unwin colapsou de exaustão.
Dos primeiros 200 homens a saltar do River Clyde, apenas 21 chegaram à praia vivos; os corpos serviram de passarela para os sobreviventes ao cair da noite.
O general de brigada Napier tentou liderar uma carga, foi baleado na cabeça e seu corpo nunca recuperado; seu major, ao substituí-lo, também foi morto.
O Papel de Mustafa Kemal e a Ascensão Turca
Mustafa Kemal (futuro Atatürk) era um oficial nacionalista nascido em Salônica (perdida para a Grécia em 1913), beberrão e intenso, até então obscuro.
Em 25 de abril, ao ver tropas turcas recuando, assumiu o comando da linha de frente e proferiu a ordem de morrer, que se tornou mito fundador da Turquia moderna.
Kemal conteve o avanço ANZAC na Colina do Encouraçado (Battleship Hill), a 3 km da praia, e os empurrou de volta para a costa.
Gallipoli foi o trampolim para Kemal se tornar o herói nacional que lideraria a Guerra de Independência Turca e aboliria o sultanato em 1922.
A campanha também consolidou a identidade nacional australiana e neozelandesa, com o 'espírito ANZAC' de camaradagem e bravura diante da adversidade.
Condições e Consequências Imediatas
Ao final do primeiro dia, os Aliados mantinham cabeças de praia precárias, sem atingir nenhum objetivo estratégico; as baixas totais foram de cerca de 4.000 homens (2.000 ANZACs, 2.000 britânicos).
A operação, concebida para evitar trincheiras, resultou em guerra de trincheiras em terreno rochoso, com calor escaldante, mosquitos, disenteria e falta de água.
Veteranos que serviram tanto na Frente Ocidental quanto em Gallipoli consideraram esta última pior, devido ao clima, ao terreno e à proximidade do inimigo.
O poeta Rupert Brooke, que idealizava morrer como Aquiles em Troia, morreu de sepse por picada de mosquito em 23 de abril, antes mesmo de desembarcar.
Churchill, que chamara a guerra de 'gloriosa e deliciosa', começou a ser responsabilizado pelo desastre, mas o Conselho de Guerra optou por continuar a campanha.
Análise Crítica: Lições e Erros
O plano violava o princípio militar de concentração de forças: dispersou os desembarques em múltiplas praias sem superioridade numérica ou surpresa tática.
A subestimação do inimigo foi total: os otomanos eram veteranos das Guerras Balcânicas, motivados e bem equipados pelos alemães.
A falta de um plano de contingência para evacuação (como demonstrado pela recusa de Hamilton em retirar os ANZACs) revelou amadorismo estratégico.
O viés de confirmação de Churchill – ignorar relatórios negativos e minimizar perdas – foi decisivo para a continuação da campanha.
Gallipoli tornou-se um estudo de caso em como o prestígio imperial e o medo de humilhação podem levar a decisões militares irracionais (analogia com Vietnã).
A campanha também mostrou a importância do planejamento logístico: a falta de mapas precisos, equipamento de desembarque adequado e comunicações eficientes condenou a operação.
Passos práticos
Ao estudar história militar, evite o viés de sunk cost: saiba quando abandonar um plano fracassado, mesmo após investimento significativo.
Desconfie de planos baseados em suposições não testadas sobre o inimigo (ex.: 'os turcos fugirão') – sempre considere o pior cenário.
Em qualquer projeto complexo, garanta que haja um plano de contingência para retirada ou abortamento antes de iniciar a execução.
Não minimize relatórios negativos de especialistas técnicos para favorecer uma visão otimista – Churchill ignorou o Almirantado e pagou o preço.
Líderes devem evitar decisões tomadas sob distração ou entusiasmo pessoal – Asquith aprovou o plano enquanto escrevia cartas de amor.
A preparação inadequada de tropas (ANZACs sem treino anfíbio, equipamento pesado) é receita para desastre; invista em treinamento realista.
Frases marcantes
"Churchill: 'Meu Deus, isto é história viva. Será lido por mil gerações. Pense nisso. Por que eu não estaria fora desta guerra gloriosa e deliciosa por qualquer coisa que o mundo pudesse me dar?'"
"Mustafa Kemal: 'Não ordeno que ataquem, ordeno que morram. No tempo em que morrermos, outros comandantes e tropas poderão ocupar nossos lugares.'"
"Soldado australiano Eric Moorhead: 'Estávamos em uma planície coberta de arbustos, totalmente a céu aberto. Nenhum turco à vista, mas o ar estava literalmente cheio de balas.'"
"Capitão Harold Clayton (praia W): 'A frente do arame farpado era agora uma massa espessa de homens, a maioria dos quais nunca mais se moveu.'"
"Hamilton aos ANZACs: 'Cavem, cavem, cavem até estarem seguros.' – origem do termo 'diggers'."
"Churchill após o desastre naval: 'Perdemos menos de 30 vidas britânicas e dois ou três navios inúteis.' – ignorando as centenas de franceses mortos."
Mencionados no episódio
Ellis Ashmead-Bartlett - correspondente de guerra do Daily Telegraph que noticiou os desembarques
Winston Churchill - Primeiro Lorde do Almirantado, idealizador da campanha
Mustafa Kemal Atatürk - oficial otomano, futuro fundador da Turquia
Sir Ian Hamilton - comandante da força terrestre Aliada em Gallipoli
Lord Kitchener - Secretário de Estado da Guerra britânico
Herbert Henry Asquith - Primeiro-Ministro britânico
Almirante Lord Jackie Fisher - Primeiro Lorde do Mar, opositor do plano
Clement Attlee - futuro Primeiro-Ministro, serviu como capitão em Gallipoli
Rupert Brooke - poeta inglês, morreu antes de desembarcar
John Monash - herói militar australiano que se destacou em Gallipoli
Otto Liman von Sanders - general alemão que comandou a defesa otomana
Enver Pasha - Ministro da Guerra otomano, pró-alemão
Peter Hart - historiador, autor de 'Gallipoli'
Andrew Roberts - historiador, hagiógrafo de Churchill
Jan Morris - historiadora e escritora, fã de Jackie Fisher
John Buchan - autor de 'Greenmantle' (1916), thriller sobre jihad
HMS Dreadnought - encouraçado revolucionário lançado por Fisher
SS River Clyde - navio usado como 'Cavalo de Troia' no desembarque
Anzac Cove - praia onde desembarcaram os australianos e neozelandeses
Cape Helles - extremo sul da península, local do desembarque britânico
Dardanelos - estreito que liga o Mar Egeu ao Mar de Mármara
Constantinopla (Istambul) - capital otomana, objetivo final da campanha
Salônica (Tessalônica) - cidade natal de Mustafa Kemal, perdida em 1913
Batalha de Sarikamish - desastre otomano no Cáucaso (dez. 1914-jan. 1915)
Genocídio Armênio - iniciado em 1915, contexto da campanha
Lloyds Bank - patrocinador do episódio (anúncio)
Disclosure Day - filme de Steven Spielberg (anúncio)