Widespread asset decline; AI tests market limits; interest rates on the rise in Brazil
Fernando Ulrich analisa o tombo generalizado dos mercados (ações, ouro, Bitcoin) após payroll americano muito forte, que reacendeu temores de alta de juros pelo Fed. O episódio cobre o tarifaço de 25% proposto pelos EUA ao Brasil (com menção ao Pix como prática desleal), o plano de Milei de atrair IA para a Argentina com regulação zero e corporações não humanas, o mega IPO da SpaceX (US$ 75 bi) e o levantamento recorde de US$ 85 bi pelo Google para capex em IA. Ulrich também responde perguntas sobre a eficácia da Selic, o impacto de Michael Saylor no Bitcoin e a perda de hegemonia do dólar.
Fernando Ulrich — host, analista de mercados e economia
Payroll de maio nos EUA veio 172 mil (mais que o dobro do esperado), com revisões positivas de 93 mil nos meses anteriores, forçando o mercado a precificar alta de juros pelo Fed em dezembro.
EUA propuseram tarifa de 25% sobre exportações brasileiras, citando o Pix como prática desleal de concorrência, além de 12,5% para 60 países por uso de trabalho forçado.
Milei publicou artigo no Financial Times propondo regulação zero para IA na Argentina e a criação de 'corporações não humanas' (sociedades por ações com agentes de IA como sócios).
SpaceX planeja IPO de US$ 75 bi (US$ 135/ação), mas S&P 500 manteve regras rígidas: 12 meses de carência, float mínimo de 10% e lucro nos últimos quatro trimestres.
Google/Alphabet levantou US$ 85 bi (US$ 40 bi em ATM, US$ 35 bi em preferenciais conversíveis, US$ 10 bi da Berkshire Hathaway) para financiar capex de IA, que deve superar US$ 190 bi em 2026.
Bitcoin caiu para ~US$ 60.500, com ETFs de cripto registrando saídas de US$ 4,4 bi em 13 sessões; Ulrich vê a bolha de IA sugando capital e atenção, podendo levar o Bitcoin junto em um crash.
Selic a 14,5% não controla a inflação sozinha devido ao crédito subsidiado de bancos públicos, déficit fiscal e expansão do M2 (~10% a.a.); é preciso atacar o fiscal.
CLT é anacrônica e restringe a criação de empregos; o mercado de trabalho flexível dos EUA (desemprego de 4,3%) é mais dinâmico e atrai talentos globais.
Payroll forte nos EUA e impacto nos mercados
Economia americana adicionou 172 mil empregos em maio, mais que o dobro da expectativa, com revisão positiva de 93 mil em março e abril.
Setores que mais contrataram: lazer/hospitalidade (70 mil), governos locais, saúde, assistência social, construção não residencial e manufatura — este último refletindo o boom de IA.
Dados contrariam o pessimismo de que IA destruiria empregos em massa; até agora, o efeito tem sido de criação líquida.
Consequência: mercado passou a precificar alta de juros pelo Fed na reunião de dezembro, e não mais corte; a reunião de junho deve manter a taxa.
Juro de 10 anos americano subiu para 4,53%, e a curva de 20 e 30 anos ultrapassou 5%.
Impacto imediato: S&P 500 caiu >1%, Nasdaq >2%, ouro -3% (para ~US$ 4.350), Bitcoin testou US$ 60.500, real brasileiro desvalorizou, apenas o dólar subiu.
Tarifaço de 25% dos EUA ao Brasil e menção ao Pix
Após a Suprema Corte americana derrubar as tarifas globais de Trump (base legal inadequada), o governo Trump iniciou investigações sob a Seção 301 do comércio americano.
Conclusão: Brasil pratica concorrência desleal; uma das principais evidências é o Pix, sistema do Banco Central que excluiu concorrentes (ex.: WhatsApp Pay em junho de 2020).
Proposta: tarifa de 25% sobre exportações brasileiras, ainda não definitiva — as partes vão negociar.
Paralelamente, tarifa adicional de 12,5% sobre produtos de 60 países (incluindo China, Índia e Austrália) por uso de trabalho forçado.
Setores isentos: energia, terras raras, carne bovina, café, frutas/vegetais, farmacêuticos, químicos orgânicos e peças de aeronaves.
Ulrich critica o Pix desde 2020 por ser uma prática anticompetitiva do governo como regulador e operador.
Juros no Brasil: NTNBs acima de 8% e risco de manutenção da Selic
NTNB (Tesouro IPCA+) com vencimento em 2030 opera sistematicamente entre 7,5% e 8%, chegando a 8,15%.
Juro real brasileiro não cedeu mesmo com a bolsa subindo no último ano; o fiscal, a inflação alta e os juros externos pressionam a curva.
Projeções para Selic no fim do ano caíram; algumas casas já preveem 14%.
Para a reunião de 17 de junho, a probabilidade de corte de 25 bp caiu de maioria para ~50%, e a chance de manutenção subiu — possível parada no ciclo de cortes.
Ulrich explica que a Selic sozinha não controla a inflação: há crédito subsidiado de bancos públicos, déficit fiscal e expansão do M2 (~10% a.a.).
Argentina: Milei propõe regulação zero para IA e corporações não humanas
Milei escreveu artigo no Financial Times intitulado 'Argentina convida a inteligência artificial para se libertar'.
Objetivo: criar marco regulatório ultra amigável, com regime tributário competitivo e ausência de regulação para IA.
Inovação jurídica: permitir 'corporações não humanas' — sociedades limitadas por ações cujos sócios podem ser agentes de IA, não apenas humanos.
Milei compara a ideia à Companhia das Índias Orientais (1602), que criou a sociedade anônima com responsabilidade limitada.
A proposta visa atrair desenvolvedores, empreendedores e empresas de IA para a Argentina.
Geopolítica: guerra Irã-Israel e adaptação do mercado de petróleo
Câmara dos EUA aprovou medida simbólica para encerrar a guerra no Irã, mas sem efeito prático (Senado republicano e veto presidencial).
Israel atacou o Líbano (sul de Beirute) e o Irã atacou o Quite (incluindo aeroporto), violando o cessar-fogo.
Petróleo caiu na semana, mas segue volátil; o mercado se adapta: países do Golfo (Arábia Saudita, Emirados) investem em rotas alternativas ao Estreito de Ormuz.
Ulrich critica os países do Golfo por subestimarem o risco iraniano e gastarem bilhões em projetos de vaidade (ex.: The Line) em vez de infraestrutura de segurança energética.
China reduziu importações de petróleo para ~60% do nível do início do ano, ajudando a conter a alta do barril.
IPO da SpaceX e regras do S&P 500
SpaceX protocolou IPO com oferta de 555,6 milhões de ações a US$ 135 cada, valuation de US$ 1,77 trilhão, captação de US$ 75 bilhões.
NASDAQ flexibilizou regras para inclusão rápida (15 dias), mas S&P 500 (Standard & Poor's) manteve as regras atuais: carência de 12 meses, float mínimo de 10% e lucro nos últimos quatro trimestres.
SpaceX terá float de apenas ~5%, o que a desqualifica para o índice por pelo menos um ano.
A ausência no S&P 500 reduz a demanda passiva de ETFs, que seriam obrigados a comprar as ações se incluídas.
Ulrich considera o IPO o evento mais importante da semana, mas promete análise mais detalhada no próximo vídeo.
Google levanta US$ 85 bi para IA; Berkshire Hathaway entra no setor
Alphabet (Google) anunciou captação de US$ 85 bilhões: US$ 40 bi em ATM (venda de ações a mercado), US$ 35 bi em ações preferenciais conversíveis (aumentado de US$ 30 bi devido à alta demanda) e US$ 10 bi comprados pela Berkshire Hathaway.
É o maior levantamento de capital por uma empresa já listada, superando os US$ 70 bi da Petrobras em 2010.
Berkshire Hathaway, sob o comando de Greg Abel (sucessor de Buffett), investe pela primeira vez diretamente em tecnologia/IA, quebrando um paradigma.
O capital será usado para financiar o capex em IA, que deve superar US$ 190 bilhões em 2026.
A estrutura ATM foi popularizada por Michael Saylor (Strategy) e agora é adotada pelo Google.
Bitcoin em queda: bolha de IA suga capital e atenção
Bitcoin caiu para ~US$ 60.500, testando o piso da correção anterior; ETFs de cripto tiveram saídas de US$ 4,4 bilhões em 13 sessões.
Ulrich identifica dois vetores de impacto da IA no Bitcoin: (1) um crash das ações de IA pode levar tudo junto, incluindo o Bitcoin; (2) o frenesi com IA está desviando capital e atenção de outros ativos.
IPOs e captações bilionárias (SpaceX, Google, Anthropic) competem pelo capital dos investidores.
A guerra no Oriente Médio também adiciona pressão negativa.
Michael Saylor (Strategy) vendeu 32 bitcoins recentemente, gerando ruído e desconfiança sobre sua estratégia; Ulrich acredita que a prioridade agora é recompor a reserva em dólares para garantir o pagamento de dividendos.
Perguntas dos ouvintes: Selic, CLT, hegemonia do dólar e mais
Selic de 14,5% não controla a inflação devido ao crédito subsidiado de bancos públicos, déficit fiscal e expansão do M2 (~10% a.a.); a taxa é mais consequência do que causa.
CLT é anacrônica e restringe a criação de empregos; o mercado flexível dos EUA (desemprego 4,3%) é mais dinâmico.
Bolsa brasileira sofre com a fuga de capital para IA; emergentes perdem, exceto os com exposição direta a IA (ex.: Coreia do Sul).
Hegemonia do dólar está em processo lento de erosão (reservas internacionais, pagamentos Swift, CIPS chinês), mas não há sinal de substituição iminente; pode migrar para ouro ou Bitcoin.
Rentabilidade real deve ser medida contra a inflação (IPCA), não contra o M2; Ulrich tem vídeo explicando o erro de usar M2 como referência.
Bitcoin em momento de incerteza: Ulrich repete que estava com 'bunda na parede' e que um crash de IA levaria o Bitcoin junto.
Para ganhar dinheiro, EUA são melhores que União Europeia (menos burocracia); para qualidade de vida, Ulrich prefere a Europa.
Passos práticos
Acompanhe a reunião do Fed em junho e as projeções de juros; se houver manutenção, avalie realocar para renda fixa americana de curto prazo.
Monitore as negociações do tarifaço EUA-Brasil; setores isentos (carne, café, farmacêuticos) podem ser menos afetados.
Para exposição a IA, considere que o boom pode estar concentrado e sujeito a correções; diversifique fora do setor.
Se tiver Bitcoin, prepare-se para mais volatilidade; Ulrich sugere que o fundo pode não ter sido atingido e que um crash de IA pode arrastar o ativo.
Empresários: avalie a flexibilização trabalhista como vantagem competitiva; países com CLT rígida perdem dinamismo.
Invista em ativos reais (ouro, imóveis) como proteção contra a expansão monetária e a perda gradual de hegemonia do dólar.
Use o IPCA como referência de inflação, mas adicione uma margem de segurança (ex.: IPCA + 2% a 3%) para calcular retorno real.
Frases marcantes
"A economia americana continua bastante aquecida. O Fed vai precisar elevar juros, porque a atividade está firme e forte, sem nenhum sinal de mudança."
"O Pix é uma prática de concorrência desleal. O governo brasileiro baniu a concorrência do WhatsApp em 2020 e depois lançou o próprio sistema."
"Milei quer manter a IA sem regulação para que ela permaneça livre para ser desenvolvida sem nenhuma mão mortífera e prematura de uma regulação pobremente entendida."
"Pela primeira vez, a Berkshire Hathaway entra de fato em tecnologia, em inteligência artificial, sendo a empresa líder dessa oferta."
"O boom de IA está sugando toda a atenção e capital dos investidores. O Bitcoin está sofrendo com isso."
"A CLT é uma aberração anacrônica. Ao proteger quem já está empregado, você impede a contratação de novos."
Mencionados no episódio
Pix — sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central do Brasil
Seção 301 — lei de comércio dos EUA que permite tarifas por práticas desleais
Financial Times — jornal britânico onde Milei publicou artigo
Companhia das Índias Orientais (1602) — primeira joint-stock company, citada por Milei
The Line — projeto de cidade linear na Arábia Saudita, criticado por Ulrich
Estreito de Ormuz — ponto de estrangulamento do petróleo global
CIPS (Cross-Border Interbank Payment System) — sistema chinês concorrente do Swift
Michael Saylor — CEO da Strategy (antiga MicroStrategy), conhecido por acumular Bitcoin
Berkshire Hathaway — conglomerado de Warren Buffett, agora investindo em IA via Google
SoftBank — maior empresa do Japão por valor de mercado, exposta a IA
VOO — ETF da Vanguard que replica o S&P 500, primeiro ETF a ultrapassar US$ 1 trilhão em ativos
Blackstone — gestora que limitou saques de fundo de private credit de US$ 45 bi
Javier Blas — comentarista de commodities da Bloomberg
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