Joe Rogan entrevista o lendário roteirista Joe Eszterhas, criador de 'Instinto Selvagem' e 'Showgirls'. Eles exploram sua infância como imigrante húngaro, carreira no jornalismo, amizade com Hunter S. Thompson, conversão ao cristianismo, e opiniões sobre política, militarização policial e o sonho americano. Um mergulho denso em criatividade, vício e fé.
Joe Rogan - apresentador e comedianteJoe Eszterhas - roteirista de Hollywood
A criatividade de Eszterhas vem de experiências reais: um caso aos 18 com uma mulher mais velha e um policial amigo de batida, que se fundiram em 'Instinto Selvagem'.
Ele escreveu 'Instinto Selvagem' em 13 dias, sob efeito de cocaína, ouvindo Rolling Stones, e o vendeu por US$ 3 milhões — um recorde na época.
Sua conversão ao cristianismo foi desencadeada por um câncer de garganta estágio 4 e pela oração, mas ele critica a 'cosmetização' de Jesus pela Igreja.
Hunter S. Thompson foi o mentor que o colocou na Rolling Stone e na carreira de roteirista; Eszterhas o descreve como genial, mas autodestrutivo.
Ele teme que a militarização da imigração (ICE) crie um precedente perigoso para uma força policial sem identificação nas ruas.
Mark Twain é uma figura central: Eszterhas o vê como o primeiro comediante stand-up, profano e subversivo, muito além de 'Tom Sawyer'.
A cocaína nos anos 70/80 era pura e segura; hoje, com fentanil, o risco de overdose é imenso.
O 'homenzinho torto' interno de Eszterhas, de 29 anos, é quem escreve o conteúdo sexual de seus roteiros — ele apenas 'dá espaço'.
Infância e Origens: Refugiado Húngaro em Cleveland
Eszterhas passou 7 anos em campos de refugiados na Áustria antes de imigrar para os EUA.
Cresceu na pobreza em Lorraine Avenue, Cleveland, onde um poeta húngaro gritava 'Hol van? Hol van?' ('Onde está? Onde está?') em referência ao ouro das ruas americanas.
Aos 12 anos, viu pela janela um homem ser esfaqueado até a morte na porta de um bar — isso moldou sua visão de mundo.
Sua família não falava inglês; ele se tornou um 'autodidata total' e teve sérios problemas juvenis antes de se endireitar.
Um motorista de ônibus negro chamado Henry Jackson, adotado por húngaros e que falava húngaro, foi uma das primeiras pessoas que o ajudaram nos EUA.
Carreira no Jornalismo: Polícia, Rolling Stone e Hunter S. Thompson
Foi repórter policial no 'Plain Dealer' por 4 anos, cobrindo Dayton e Cleveland — chegava a cenas antes da polícia.
Cobriu a revolta urbana de Glenville em Cleveland, onde ficou atrás de um carro a poucos metros de um policial baleado e de atiradores; urinou nas calvas de medo.
Conheceu Hunter Thompson quando este leu sua matéria sobre um tiroteio de Hell's Angels no AP Wire e lhe escreveu: 'Agora somos dois que sabem escrever sobre Hell's Angels. Isso me irrita pra caralho.'
Thompson o indicou para a Rolling Stone, onde Eszterhas escreveu sobre agentes de narcóticos corruptos — a matéria forçou a renúncia do chefe da agência da Califórnia.
Como resultado, traficantes lhe enviavam sacos de cocaína pura na redação; ele os repassava a Thompson.
Thompson também lhe conseguiu um agente literário e a editora Random House para seu livro 'Charlie Simpson's Apocalypse', finalista do National Book Award.
Uma executiva da United Artists leu o livro e o contratou para roteirizar 'Fist' — o início de sua carreira em Hollywood.
A Gênese de 'Instinto Selvagem' e o 'Homenzinho Torto'
O roteiro foi escrito em 13 dias no Havaí, sob sol forte, cocaína e ouvindo Rolling Stones.
A personagem Catherine Tramell foi inspirada por um caso real que ele teve aos 18 anos com uma mulher casada de 39, que descobriu depois ter um novo aluno a cada ano.
O detetive Nick Curran foi inspirado por um amigo policial envolvido em 3 ou 4 tiroteios — Eszterhas se perguntava se ele 'gostava' dos disparos.
O título original era 'Love Hurts'; na hora de enviar ao agente, o 'homenzinho torto' o fez voltar e escrever 'Basic Instinct'.
O roteiro foi leiloado em 10 dias por US$ 3 milhões, um recorde na época.
A crítica feminista Camille Paglia, que inicialmente atacou o filme, depois o chamou de 'clássico pós-feminista' por retratar mulheres que não escondem sua sexualidade.
Eszterhas se recusa a ouvir críticos: 'Deviam ser levados para o quintal e levados um tiro', citando o diretor Richard Marquand.
Hollywood, Excesso e a Carta a Michael Ovitz
Quando decidiu deixar a CAA (agência de talentos) para seguir seu amigo Guy McElwaine, Michael Ovitz o ameaçou: 'Se você sair da agência, meus soldados vão te enterrar.'
Eszterhas respondeu com uma carta pública dizendo 'Foda-se', que virou manchete nacional.
O produtor Bernie Brillstein confirmou que Ovitz usara as mesmas palavras com ele.
A controvérsia prejudicou a carreira de Ovitz, que deixou o negócio pouco depois.
Sam Kinison dedicou um de seus últimos CDs a Eszterhas, agradecendo 'por sua carta a Michael Ovitz'.
Eszterhas descreve Kinison como 'o comediante stand-up mais profundo e revolucionário por um período de 2-3 anos'.
Conversão ao Cristianismo e Crítica à Igreja
Cresceu católico, foi coroinha, mas se afastou da fé.
Após se mudar de Malibu para Cleveland, foi diagnosticado com câncer de garganta estágio 4.
O cirurgião Marshall Strome realizou uma cirurgia inédita nos EUA (musculatura do pescoço ligada à laringe), que salvou sua vida.
Durante a recuperação de 3 anos (sem voz, falando como Brando, depois chiando), começou a rezar e a ler sobre Jesus.
Atribui a cura à sua vida de oração e se considera 'cristão devoto, mas não católico devoto', embora vá à missa.
Critica a Igreja por antissemitismo histórico, sexismo (não ordenar mulheres) e pela doutrina da infalibilidade papal.
Diz que Jesus era 'um zelote judeu, lutador pela liberdade contra o Império Romano', e que a Igreja o 'cosmetizou' como uma figura 'Fred Rogers'.
Admira o culto batista negro: 'É divertido, você levanta os braços e diz: Aqui estou, Senhor.'
O Sudário de Turim: Fé vs. Ciência
Eszterhas tem várias ampliações do Sudário em casa e reza diante da imagem.
A datação por carbono de 1988 apontou o século XIV, mas ele questiona se a amostra era de uma área remendada.
A imagem é um negativo fotográfico — algo impossível de explicar no século XIV, antes da fotografia.
Nenhuma técnica conhecida (tinta, calor, fotografia primitiva) reproduz as características da imagem: descoloração superficial sem borrões e informação 3D.
Teorias de radiação (UV ou energia da ressurreição) exigiriam bilhões de watts sem queimar o tecido — algo não observado na natureza.
Para Eszterhas, a falta de explicação não importa: 'Sou movido por ela. Para mim, é real.'
Joe Rogan acrescenta que ninguém conseguiu recriar o Sudário até hoje, o que o torna 'a obra de arte mais fascinante do mundo'.
Política, Imigração e Militarização Policial
Eszterhas se declara 'deplorável' e apoiador de Trump por ele 'falar diretamente com os pobres e operários', mas critica a militarização do ICE.
Teme que forças-tarefa sem identificação, treinadas por apenas 7 semanas, criem um precedente para um governo futuro confiscar armas ou perseguir opositores.
Cita o caso de uma mulher morta pelo ICE em Minneapolis e o homem morto na semana seguinte, ambos chamados de 'terroristas domésticos'.
Critica a hipocrisia de incentivar a imigração (com mapas da Cruz Vermelha, transporte, assistência social) e depois caçar os mesmos imigrantes.
Ele próprio é imigrante e personifica o sonho americano, mas vê o sistema corrompido por interesses políticos (censo, cadeiras no Congresso).
Rogan acrescenta que muitos agentes do ICE são latinos, atraídos por bônus de US$ 50 mil, e que a falta de identificação e o uso de máscaras são preocupantes.
Eszterhas cobriu o massacre de Kent State e viu como a retórica do governador James Rhodes criou o ambiente para os tiros.
Mark Twain: O Primeiro Comediante Stand-Up
Eszterhas quer escrever um projeto ficcional sobre Twain como comediante stand-up profano.
Twain começou como 'stand-up' com suas 'palestras' pelo Oeste, e depois de falir fez uma turnê mundial de comédia para plateias masculinas.
Escreveu 'On Masturbation' e 'Letters from the Earth' (da voz do Diabo), além de 'The Mysterious Stranger' (um Jesus sombrio).
Grande parte de seu material mais chocante permanece inédito nos arquivos da Universidade da Califórnia.
Cita Twain: 'Quando a mente e o pênis discutem, o pênis sempre vence.'
Rogan concorda que Twain é subestimado como humorista e que seu contexto cultural era tão diferente que suas piadas perderiam o impacto hoje.
Jimmy Hendrix e o Jantar Húngaro
Em 1968, Eszterhas entrevistou Hendrix em Cleveland para o Plain Dealer.
Fumaram maconha às 9h30 da manhã; às 11h30, Hendrix estava com fome.
Eszterhas o levou ao restaurante húngaro Balaton, no bairro húngaro de Buckeye Road.
Hendrix comeu três porções de frango paprikash, bebeu quatro garrafas de vinho e foi cercado por velhinhas de babushka pedindo autógrafos.
Ao sair, Hendrix ergueu o punho e gritou 'Hungarian! Hungarian!'
Eszterhas tentou escrever um filme sobre Hendrix, mas os direitos estavam tão confusos entre parentes que nunca se concretizou.
Rogan conta que Ron White viu Hendrix abrir para The Monkees — a plateia de crianças odiou.
O Legado de Hunter S. Thompson e o Suicídio
Thompson se matou com um tiro na cabeça, seguindo o exemplo de Hemingway.
Sua nota de suicídio dizia 'Não era mais divertido. Nada era divertido. Futebol não, isso não, aquilo não.'
Eszterhas acredita que o álcool, não as drogas, destruiu Thompson: ele ficou dependente de cadeira de rodas, caía no trânsito, quebrou a perna no Havaí.
Conta que Thompson atirou nos pneus do carro dos Rolling Stones porque Mick Jagger e Keith Richards foram embora depois de 3 horas.
Apesar da loucura, Thompson era 'muito bem lido' e tinha um lado sensível: jantou na casa de Eszterhas com sua então esposa e se comportou como um 'menino de Kentucky'.
Eszterhas acha que Thompson teria adorado Trump: 'Um personagem completamente novo na política, para o bem ou para o mal.'
Envelhecimento, Família e o Fim da Vida
Eszterhas parou de fumar aos 60 (começou aos 13) e de beber aos 70, por ordem da esposa Naomi.
Naomi, aos 67, escreveu seu primeiro romance, 'Dark Church', um thriller gótico sobre Drácula na Transilvânia.
Ele cita Graham Greene: 'Vemos a cerca, mas não o que está do outro lado. Quanto mais perto, mais curiosos ficamos.'
Diz que não vai 'pular a cerca' como Hunter, mas está se aproximando dela.
Reflete que sobreviveu aos excessos e ao câncer estágio 4 por milagre, e que 'só na América' isso seria possível.
Passos práticos
Assista ao especial de Sam Kinison no HBO para entender o impacto do comediante que mudou o stand-up.
Leia 'Fear and Loathing on the Campaign Trail '72' de Hunter S. Thompson para ver a política americana pelos olhos do gonzo.
Pesquise sobre o Sudário de Turim: veja as imagens em negativo e positivo para apreciar o mistério.
Se você é imigrante ou descendente, reflita sobre como o 'sonho americano' foi corrompido por interesses políticos, como discute Eszterhas.
Explore os escritos menos conhecidos de Mark Twain, como 'Letters from the Earth' e 'The Mysterious Stranger', para ver seu lado subversivo.
Para escritores: Eszterhas sugere que a criatividade vem de experiências reais e dolorosas, não de um ambiente estéril.
Frases marcantes
"Há um homenzinho torto dentro de mim, que tem 29 anos, nasceu com 29 e vai morrer com 29. Ele escreveu a porcaria toda. Eu sou só um velho dando espaço para ele."
"Se você vir 'Instinto Selvagem' 15 vezes, isso realmente te excita a ponto de ir à guerra com Putin?"
"Eu não escrevo incenso. Escrevo carne e sangue."
"Jesus era um zelote judeu, um lutador pela liberdade contra o Império Romano. Andava com pescadores, prostitutas e cobradores de impostos. A Igreja o transformou num Fred Rogers."
"Hunter Thompson era o garoto de Kentucky por baixo de toda aquela pólvora. Sensível, quieto. Ele me repreendeu por trair minha esposa com uma 'hippie'."
"A única coisa que me move no Sudário é o rosto. Não me importa se é real ou não. Para mim, é real."
Mencionados no episódio
Basic Instinct - filme de 1992 escrito por Joe Eszterhas
Showgirls - filme de 1995 escrito por Eszterhas
Hunter S. Thompson - jornalista e autor gonzo
Rolling Stone - revista onde Eszterhas trabalhou
Plain Dealer - jornal de Cleveland onde foi repórter policial
Michael Ovitz - fundador da CAA, agente de talentos
Sam Kinison - comediante stand-up
Mark Twain - escritor e humorista
Jimmy Hendrix - guitarrista
Otis Redding - cantor de soul
Martin Luther King Jr. - líder dos direitos civis
Sudário de Turim - relíquia cristã
CAA - Creative Artists Agency
Balaton - restaurante húngaro em Cleveland
Charlie Simpson's Apocalypse - livro de Eszterhas, finalista do National Book Award
Fist - filme de 1978, primeiro roteiro de Eszterhas
Guy McElwaine - agente e amigo de Eszterhas
Naomi Eszterhas - esposa e autora de 'Dark Church'
Marshall Strome - cirurgião que operou o câncer de Eszterhas
Kent State - massacre de 1970 coberto por Eszterhas