What It Was Really Like to Survive the Trenches | EP 1
Tom Holland e Dominic Sandbrook analisam a experiência de sobreviver nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial em 1915, usando os memoriais de Robert Graves (Goodbye to All That) e Ernst Jünger (Storm of Steel) como guias. O episódio cobre a rotina, os horrores (lama, piolhos, ratos, gás), a camaradagem, o choque de classes, o tédio, o medo e a emoção do combate, além de discutir a inovação do gás venenoso e o desastre de Loos.
Tom Holland – historiador e co-apresentadorDominic Sandbrook – historiador e co-apresentador
A vida nas trincheiras era uma mistura de tédio, trabalho braçal e perigo constante, com menos da metade do tempo passado na linha de frente.
A maioria dos soldados nunca matou ninguém; dois terços das baixas foram causadas por artilharia, não por combate corpo a corpo.
O gás venenoso, embora aterrorizante, matou relativamente poucos (cerca de 6.000 britânicos em toda a guerra), mas deixou sequelas pulmonares graves.
A camaradagem entre classes e regiões era um dos poucos aspectos positivos, quebrando barreiras sociais.
O choque de combate (shell shock) era real e reconhecido pelas autoridades, mas a demanda por homens impedia pausas adequadas.
A ofensiva de Loos (1915) foi um desastre: o gás britânico soprou de volta, causando quatro vezes mais baixas aliadas do que alemãs.
Soldados como Ernst Jünger achavam a guerra emocionante e revigorante, enquanto outros, como Stefan Westmann, sofriam traumas duradouros.
As trincheiras alemãs eram muito superiores às aliadas, mais profundas e confortáveis, refletindo a estratégia defensiva germânica.
A Chegada de Robert Graves à Frente Ocidental
Robert Graves, autor de Goodbye to All That, chegou a Le Havre em maio de 1915 com 19 anos, como oficial dos Royal Welsh Fusiliers.
Seu pelotão de 40 homens incluía soldados muito velhos (um de 63 anos, que não atirava desde 1882) e muito jovens (um de 15 anos).
A viagem de trem até Béthune durou 25 horas; chegaram 'famintos, frios e sujos'.
Ao se aproximar das trincheiras, Graves sentiu 'excitação intensa' com os flashes e o barulho dos canhões.
Os soldados cantavam hinos para manter o ânimo; 'os galeses sempre cantavam quando estavam um pouco assustados'.
A primeira ação inimiga foi um projétil alemão que caiu a 20 jardas; todos se jogaram no chão e ouviram o 'tilintar' dos estilhaços.
Na vila de Combles, receberam máscaras de gás, curativos e uma refeição: pão, bacon, rum e chá amargo com açúcar.
Ao entrar na trincheira, Graves acendeu uma lanterna e viu que pisavam em ratos e sapos vivos que haviam caído e não conseguiam sair.
O quartel-general do batalhão era surpreendentemente aconchegante: mesa com toalha, lamparina, gramofone e cadeiras confortáveis.
O capitão Dunn, de apenas 19 anos, recebeu Graves com um tom descontraído, perguntando 'quem está vencendo?' como se fosse um jogo de críquete.
A Rotina e as Condições das Trincheiras
A rotina diária incluía café da manhã às 8h, limpeza e inspeção das trincheiras, trabalho de escavação e reforço até o almoço às 12h, e trabalho novamente das 13h às 18h.
Ao anoitecer, havia 'stand-to' por uma hora; o trabalho continuava a noite toda, com outro 'stand-to' antes do amanhecer.
As trincheiras eram improvisadas, pois os Aliados esperavam ficar apenas algumas semanas, não quatro anos.
Elas recebiam nomes de ruas londrinas (Oxford Street, Regent Street) e as interseções, de praças (Hyde Park Corner).
As trincheiras alemãs eram muito superiores: mais profundas, com vigas de teto, paredes revestidas, claraboias, nichos decorativos e até cinemas.
A lama era descrita como 'não lama, mas um limo espesso' – os homens afundavam vários centímetros e às vezes não conseguiam se libertar.
Piolhos, pulgas e moscas eram onipresentes; os soldados passavam velas acesas nas costuras das roupas para ouvir os ovos estalando.
Ratos do tamanho de gatos se alimentavam de cadáveres; uma história conta que um novo oficial acordou com dois ratos brigando por uma mão decepada em seu cobertor.
A febre das trincheiras (trench fever), transmitida por piolhos, era comum e podia ser fatal; J.R.R. Tolkien, A.A. Milne e C.S. Lewis foram vítimas.
Apesar dos horrores, muitos soldados de origem operária achavam a vida na trincheira melhor do que o trabalho em minas ou fábricas, com refeições regulares, camaradagem e tempo para jogar cartas e futebol.
O Combate e a Experiência de Matar
Ernst Jünger, em Storm of Steel, descreve sua primeira batalha em Les Éparges (abril de 1915) como uma experiência onírica e surreal.
Ele encontrou uma trincheira cheia de cadáveres franceses mumificados, 'congelados em uma dança macabra da morte'.
Em vez de lutar, Jünger pegou souvenirs, incluindo uma camisa listrada que vestiu por baixo do uniforme, e acendeu o cachimbo.
Sob fogo de artilharia, ele sentiu um golpe na coxa – um estilhaço – e correu de volta para a trincheira, que descreve como 'o lar do grande deus da dor'.
A maioria dos soldados nunca via o inimigo que matava; dois terços das baixas eram causadas por artilharia, não por combate direto.
Stefan Westmann, sargento alemão, descreveu o horror de matar um soldado francês com a baioneta: 'quase vomitei, meus joelhos tremiam' – e teve pesadelos com os olhos da vítima.
Jünger, ao contrário, sentia-se revigorado pela guerra; ao voltar para a Alemanha ferido, escreveu que 'a Alemanha era eminentemente digna do nosso sangue e das nossas vidas'.
Julian Grenfell, poeta e soldado britânico, escreveu aos pais: 'Adoro a guerra. É como um grande piquenique' e 'ama-se o próximo muito mais quando se está determinado a matá-lo'.
A maioria dos soldados nunca matava ninguém; o combate corpo a corpo era raro e psicologicamente devastador para muitos.
O Choque de Combate (Shell Shock)
O termo 'shell shock' foi cunhado em fevereiro de 1915 pelo médico Charles S. Myers em um artigo no The Lancet.
Myers descreveu três soldados que, após explosões de projéteis, apresentavam visão turva, tremores, choro e confusão sem causa física aparente.
Em maio de 1915, o War Office enviou o Dr. Aldrin Turner para investigar; ele concluiu que não era covardia, mas um 'colapso nervoso temporário' após experiências horríveis.
Foram criados pelo menos 20 hospitais especializados no Reino Unido, sendo o mais famoso o Craiglockhart, em Edimburgo, onde Siegfried Sassoon e Wilfred Owen se conheceram.
Apesar do reconhecimento, 306 soldados britânicos foram executados por covardia – uma fração ínfima dos 6 milhões de combatentes.
Até soldados extremamente bravos sofriam colapsos: Jünger, condecorado por bravura, descreve um momento em que 'se jogou no chão e teve soluços convulsivos' sob fogo intenso.
Robert Graves afirmou que todo oficial tem um ponto de ruptura: após 9 meses, torna-se um fardo; após 12 meses, 'pior que inútil'.
Graves foi ferido na Somme e evacuado; depois, qualquer cheiro forte (como flores) o fazia tremer, e o barulho de um carro engasgando o jogava no chão.
O Gás Venenoso e a Batalha de Loos
Os alemães usaram gás cloro pela primeira vez em 22 de abril de 1915, em Ypres, abrindo válvulas de 6.000 cilindros.
O vento levou a nuvem amarelada sobre tropas franco-argelinas, que fugiram em pânico, cegas e vomitando sangue.
Apesar do pânico, os alemães não tinham reservas suficientes para explorar a brecha; dois dias depois, atacaram novamente contra canadenses, que resistiram.
A Convenção de Haia de 1899 proibia projéteis com único propósito asfixiante, mas os alemães usaram cilindros, não projéteis, argumentando que era legal.
O gás matou relativamente poucos: apenas 6.000 britânicos em toda a guerra, mas deixou sequelas pulmonares permanentes.
As primeiras máscaras de gás eram almofadas de gaze; os soldados eram instruídos a urinar no pano para neutralizar o cloro.
Em 1916, o 'small box respirator' protegia contra cloro e fosgênio, mas não contra gás mostarda, que queimava a pele.
Na Batalha de Loos (setembro-outubro de 1915), os britânicos tentaram usar gás cloro, mas o vento soprou de volta, causando quatro vezes mais baixas aliadas do que alemãs.
Os óculos das máscaras embaçavam; os soldados as tiravam para enxergar e eram envenenados pelo próprio gás.
Loos terminou com 60.000 baixas britânicas contra 25.000 alemãs, levando à substituição do comandante Sir John French por Douglas Haig.
O Destino de John Kipling e o Legado da Guerra
John Kipling, filho único do poeta Rudyard Kipling, alistou-se aos 17 anos, apesar de ser severamente míope (rejeitado inicialmente).
Rudyard Kipling usou sua influência com Lord Roberts para conseguir uma comissão para o filho nos Irish Guards.
No segundo dia da Batalha de Loos, John Kipling foi dado como desaparecido; foi visto pela última vez 'tateando na lama em busca de seus óculos, que haviam caído durante o ataque'.
Rudyard Kipling nunca se recuperou; em 1919, publicou epitáfios para a guerra, incluindo o famoso dístico: 'Se alguém perguntar por que morremos, diga-lhes que foi porque nossos pais mentiram'.
O conto de Kipling 'O Jardineiro' (The Gardener) é uma comovente história sobre a perda de um jovem em combate.
O episódio encerra com a promessa de cinco episódios adicionais sobre 1915, cobrindo a entrada da Itália, o naufrágio do Lusitânia, a execução de Edith Cavell e o desastre de Galípoli.
Passos práticos
Leia Goodbye to All That, de Robert Graves, e Storm of Steel, de Ernst Jünger, para duas perspectivas contrastantes da guerra de trincheiras.
Visite o site do Imperial War Museum para acessar relatos originais de veteranos da Primeira Guerra Mundial.
Assine o clube The Rest Is History (therestishistory.com) para ouvir os episódios completos da série sobre 1915.
Reflita sobre o impacto psicológico da guerra: o shell shock era real e afetava até os soldados mais bravos – um lembrete de que o trauma não discrimina.
Frases marcantes
"Estávamos todos intensamente excitados com o barulho e os flashes dos canhões ao longe. – Robert Graves"
"Muito bem, Kingdom. Traga-me meu respirador da outra sala e outra jarra de marmelada. – Capitão Dunn, ao ser avisado de um ataque de gás"
"Esta era a casa do grande deus da dor. E pela primeira vez olhei através de um abismo para as profundezas de seu reino. – Ernst Jünger"
"Adoro a guerra. É como um grande piquenique. A excitação do combate vitaliza tudo, cada visão e ação. – Julian Grenfell"
"Se alguém perguntar por que morremos, diga-lhes que foi porque nossos pais mentiram. – Rudyard Kipling"
"O medo do gás me obcecava. Qualquer cheiro incomum, mesmo um forte perfume de flores no jardim, era suficiente para me deixar tremendo. – Robert Graves"
Mencionados no episódio
Goodbye to All That – livro de memórias de Robert Graves sobre a Primeira Guerra Mundial
Storm of Steel – livro de memórias de Ernst Jünger sobre a Primeira Guerra Mundial
Robert Graves – poeta, romancista e oficial britânico, autor de Eu, Cláudio
Ernst Jünger – escritor e oficial alemão, autor de Tempestades de Aço
Siegfried Sassoon – poeta e soldado britânico, conhecido por sua bravura e crítica à guerra
Wilfred Owen – poeta britânico, autor de Dulce et Decorum Est
John Kipling – filho de Rudyard Kipling, morto na Batalha de Loos
Rudyard Kipling – poeta e escritor britânico, autor de O Livro da Selva
Craiglockhart – hospital militar em Edimburgo para tratamento de shell shock
Batalha de Loos – ofensiva britânica em 1915, desastre com 60.000 baixas
Gás cloro – arma química usada pelos alemães em Ypres (1915)
Sir John French – comandante da Força Expedicionária Britânica, substituído após Loos
Douglas Haig – comandante britânico que substituiu French
The Lancet – jornal médico que cunhou o termo 'shell shock'
Imperial War Museum – instituição que preserva relatos de veteranos