Fernando Ulrich analisa a queda do Bitcoin, desmistificando a venda de 32 BTC pela Strategy (Michael Saylor) como sinalização de gestão de balanço, e aponta os verdadeiros motivos: tensão geopolítica no Oriente Médio e migração de fluxo para inteligência artificial.
Fernando Ulrich — host, analista de Bitcoin e investidor
A venda de 32 BTC pela Strategy não é o motivo da queda do Bitcoin; foi uma sinalização ao mercado de que a empresa está disposta a vender BTC para gerir passivos.
Os dois principais drivers da queda são a escalada da guerra no Oriente Médio (alta do petróleo e juros) e o desvio de fluxo de investidores para IA e IPO da SpaceX.
Os ETFs de Bitcoin tiveram saída de mais de US$ 1,4 bilhão na última semana, contribuindo para a pressão baixista.
A Strategy usou parte de sua reserva em dólares (US$ 2,3 bi) para resgatar antecipadamente US$ 1,38 bi em dívidas conversíveis, reduzindo o colchão de liquidez para 6,3 meses de dividendos.
A venda de BTC abaixo do preço médio de aquisição (US$ 77.000 vs. custo médio ~US$ 66.000) pode gerar benefício fiscal, compensando lucros futuros.
A estratégia de tesouraria da Strategy continua intacta: endividar-se em dólar para acumular BTC, visando valorização de ~30% ao ano, e vender parte no futuro para quitar dívidas.
A agência S&P já havia criticado a relutância da Strategy em vender BTC, apontando risco de venda forçada a preços deprimidos; a venda recente responde a essa crítica.
O ruído no mercado veio da percepção de que Saylor jamais venderia BTC, mas a venda mostra que a gestão de balanço inclui essa possibilidade.
Contexto da queda do Bitcoin
Bitcoin caiu mais de 4% no dia, tocando US$ 70.555, com queda de 3% no momento do vídeo.
Muitos atribuíram a queda à venda de 32 BTC pela Strategy (US$ 2,5 milhões a ~US$ 77.000/BTC), mas Ulrich discorda.
A verdadeira causa é a escalada da guerra no Oriente Médio: Irã acusou violação de cessar-fogo e negociações foram suspensas.
Petróleo Brent subiu para mais de US$ 96 o barril, pressionando juros americanos (acima de 4,5%) e derrubando ouro (-1%, abaixo de US$ 4.450/oz).
O Bitcoin seguiu o movimento de aversão a risco, igualando outros ativos.
Segundo motivo: migração de fluxo de investidores para inteligência artificial, especialmente após o anúncio do IPO da SpaceX (previsto para 12 de junho).
Os grandes bancos americanos estão estruturando produtos para captar dinheiro para o IPO, desviando recursos dos ETFs de Bitcoin.
ETFs de Bitcoin tiveram saída líquida de mais de US$ 1,4 bilhão na última semana, com barras vermelhas constantes desde 7 de maio.
A venda de 32 BTC pela Strategy: sinalização, não pânico
A Strategy vendeu 32 BTC no dia 1º de junho, totalizando US$ 2,5 milhões a um preço médio de ~US$ 77.000.
Foi a primeira venda desde o início das compras em 10 de agosto de 2020 (primeira compra: 21.454 BTC).
A empresa ainda acumula 843.706 BTC, com um custo médio de aquisição estimado em ~US$ 66.000.
A venda foi sinalizada anteriormente pelo CEO Phong Le e pelo próprio Saylor, mas o mercado ignorou.
Objetivo principal: provar que a empresa está disposta a vender BTC para gerir passivos, respondendo a críticas da S&P.
A S&P havia classificado a relutância em vender BTC como fraqueza, aumentando o risco de venda forçada a preços baixos.
Vender abaixo do preço médio de aquisição (US$ 77.000 vs. ~US$ 66.000) gera prejuízo contábil que pode ser compensado com lucros futuros, reduzindo imposto de renda.
Não há mudança na estratégia de tesouraria: continuar acumulando BTC via dívida e ações, e vender apenas quando necessário para quitar obrigações.
Estratégia de tesouraria da Strategy: como funciona
A tese central: Bitcoin se valorizará ~30% ao ano nos próximos anos, superando a depreciação do dólar e o custo da dívida.
A empresa emite dívida conversível e ações preferenciais para levantar dólares e comprar BTC.
Total de dívida conversível emitida: ~US$ 6,7 bilhões (após resgate de US$ 1,5 bi).
Total de ações preferenciais perpétuas (STRK, STRF, etc.): ~US$ 15 bilhões em valor nocional.
O objetivo é aumentar o número de BTC por ação ao longo do tempo, beneficiando acionistas.
No futuro, a venda de parte dos BTC deve pagar a dívida, e o restante fica como lucro.
A empresa mantinha uma reserva em dólares de ~US$ 2,3 bilhões para cobrir dividendos por 18 meses.
Recentemente, usou US$ 1,38 bilhão dessa reserva para resgatar antecipadamente dívida conversível, reduzindo o colchão para ~US$ 900 milhões (6,3 meses de dividendos).
Isso gerou ruído no mercado, especialmente na ação preferencial STRK (negociada a US$ 98,20, com yield efetivo de 11,7% vs. 11,5% fixo).
Impacto do IPO da SpaceX e fluxo para IA
O IPO da SpaceX, previsto para 12 de junho, está atraindo grande atenção dos investidores.
Os maiores bancos americanos estão atuando como bookrunners e criando produtos para captar recursos.
Isso desvia fluxo dos ETFs de Bitcoin, que já vinham com saídas consistentes.
O momentum de inteligência artificial domina o mercado: empresas de semicondutores, hyperscalers e memória são o foco.
Ulrich já havia abordado esse tema em vídeos anteriores, citando a mudança de alocação de emergentes para IA.
A saída de ETFs de Bitcoin não é necessariamente estrutural, mas sim cíclica, enquanto o mercado se concentra em IA.
Análise da S&P e a crítica à política de 'nunca vender'
A S&P publicou relatório sobre a Strategy, destacando a dependência de acesso a mercados de capitais.
A empresa tem market cap de ~US$ 80 bilhões e emitiu ~US$ 15 bilhões em dívida conversível e capital preferencial.
A S&P vê como fraqueza a relutância em vender BTC, pois aumenta a probabilidade de venda forçada a preços deprimidos.
A venda de 32 BTC responde diretamente a essa crítica, mostrando flexibilidade.
Ulrich concorda que a política implícita de 'nunca vender' era insustentável e que a sinalização era necessária.
A venda também ajuda a reduzir o risco de crédito percebido pela agência.
Gestão de liquidez e o resgate antecipado de dívida
A Strategy resgatou antecipadamente US$ 1,5 bilhão em dívida conversível por US$ 1,38 bilhão, aproveitando a queda no valor de mercado.
O pagamento foi feito com a reserva em dólares, que caiu de ~US$ 2,3 bilhões para ~US$ 900 milhões.
Isso reduziu a cobertura de dividendos de 18 para 6,3 meses, gerando estresse no mercado de ações preferenciais.
Ulrich considera que essa não foi a melhor decisão de curto prazo, pois a reserva era um colchão importante.
No entanto, a empresa pode recompor a reserva com novas emissões ou vendas futuras de BTC.
O ruído foi amplificado porque a venda de BTC coincidiu com o resgate, mas são eventos independentes.
Passos práticos
Não interpretar a venda de 32 BTC pela Strategy como sinal de baixa; é gestão de balanço.
Monitorar os desdobramentos geopolíticos no Oriente Médio, pois afetam petróleo, juros e risco.
Acompanhar o fluxo dos ETFs de Bitcoin como indicador de curto prazo.
Observar o IPO da SpaceX e a alocação de capital para IA como concorrentes ao fluxo do Bitcoin.
Para investidores de longo prazo, manter a tese de Bitcoin como reserva de valor, ignorando ruídos pontuais.
Usar a Coinbase (parceira do canal) para comprar Bitcoin na janela de queda.
Frases marcantes
"A venda de 32 bitcoins não é o motivo da queda do Bitcoin; é uma sinalização de que a empresa está disposta a vender para gerir passivos."
"O mercado está todo voltado para inteligência artificial, tirando fluxo dos ETFs de Bitcoin."
"A S&P via como fraqueza a relutância em vender Bitcoin; agora a Strategy mostrou que pode vender."
"Não tem nenhum problema vender Bitcoin no futuro se a valorização superar o custo da dívida."
"O objetivo é aumentar a quantidade de bitcoins por ação para os acionistas, não acumular para sempre."
"Essa venda foi para provar que a empresa não está refém do discurso de 'nunca vender'."
Mencionados no episódio
Strategy (MicroStrategy) — empresa de Michael Saylor, maior tesoureira corporativa de Bitcoin
Michael Saylor — chairman da Strategy, defensor do Bitcoin
Phong Le — CEO da Strategy
S&P Global Ratings — agência de classificação de risco que criticou a Strategy
Coinbase — corretora de criptoativos, parceira do canal
SpaceX — empresa de Elon Musk, com IPO previsto para 12 de junho
ETF de Bitcoin — fundos negociados em bolsa que investem em Bitcoin
STRK — ação preferencial perpétua da Strategy, com dividendo mensal de 11,5%
Brent — petróleo bruto, referência global
Ouro — ativo de refúgio, caiu no dia
Irã — país envolvido no conflito no Oriente Médio
Orange BTC (OBTC3) — tesouraria de Bitcoin listada na B3, da qual Ulrich é investidor e conselheiro