REVOLUÇÃO NO MERCADO DE CRÉDITO: POR QUE OS FIDCS VÃO DOMINAR
João Peixoto Neto, sócio-fundador da Ouro Preto Investimentos, explica por que os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) estão revolucionando o mercado de crédito brasileiro, desbancarizando operações e oferecendo ao investidor acesso direto a carteiras de crédito antes restritas aos bancos. Com mais de 30 anos de mercado, ele detalha a evolução do mercado de capitais, os riscos e oportunidades dos FIDCs, e as teses de crédito mais promissoras, como o crédito consignado privado.
João Peixoto Neto – sócio-fundador da Ouro Preto Investimentos (gestora de FIDCs)Host do Stock Pickers – apresentador do podcast
FIDC é uma carteira de crédito empacotada em fundo, permitindo ao investidor pessoa física acessar operações de crédito que antes ficavam nos balanços dos bancos.
A desbancarização do crédito no Brasil é impulsionada pela regulação (CVM, Banco Central) e pela tecnologia, com FIDCs capturando o spread bancário e pagando rentabilidades superiores ao CDI.
O FIDC ideal é pulverizado e estatístico: com subordinação adequada, a perda esperada é conhecida e coberta pela taxa de juros cobrada.
Crédito consignado privado (crédito trabalhador) é uma das teses mais escaláveis atualmente, com potencial de crescer de R$ 100 bi para R$ 600 bi.
Financiamento de veículos no Brasil é arriscado porque o veículo não serve como garantia efetiva (multas, depreciação, dificuldade de recuperação).
O mercado de FIDCs passará por crises e aprendizado, assim como ocorreu com fundos imobiliários e multimercado, mas a tendência de descentralização do crédito é irreversível.
Nos EUA, gestoras independentes (BlackRock, Vanguard) são muito maiores que os bancos; no Brasil, esse movimento está começando e deve se acelerar.
O spread bancário no Brasil é alto devido a impostos, inadimplência e custos operacionais – apenas 10% do spread é lucro dos bancos, segundo estudo da Febraban.
Trajetória de João Peixoto Neto e evolução do mercado de capitais
João começou a carreira como advogado formado pela USP (São Francisco), mas sempre teve interesse em economia e mercado financeiro.
Montou seu próprio escritório de advocacia para não ter patrão, atendendo investidores com ações não custodiadas e empresas incentivadas (FINOR, FINAM, FISET).
Na década de 1990, o mercado de capitais era pequeno: poucas corretoras, home broker inexistente, e a maioria dos papéis não estava custodiada.
O home broker (final dos anos 1990) revolucionou o mercado, barateando corretagens e permitindo o surgimento de day traders.
Em 2004-2005, João ajudou a lançar os primeiros FIDCs dentro de uma DTVM, focando em direitos creditórios para factorings.
Em 2008, a DTVM se transformou em banco, mas a crise global dificultou a captação de um fundo de FIDCs de R$ 500 milhões (captaram apenas R$ 70 milhões).
Após desentendimento entre sócios, João fundou a Ouro Preto Investimentos em 2010, focando em FIDCs e multimercado.
A Ouro Preto hoje tem ~R$ 17 bilhões sob gestão e 140 fundos, sendo especializada em FIDCs.
O que é um FIDC e como funciona a desbancarização
FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) é um fundo que compra créditos (recebíveis, debêntures, CCBs, etc.), funcionando como uma carteira de crédito empacotada.
O fundo capta recursos de investidores (passivo) e aplica em operações de crédito (ativo), com rentabilidade alvo para cotas seniores e subordinadas.
A cota subordinada funciona como colchão de garantia (first loss), absorvendo as primeiras perdas; o lucro excedente fica com ela.
O processo de desbancarização: o crédito que antes era originado e mantido nos bancos está migrando para o mercado de capitais via FIDCs, SCDs, e outros veículos.
Isso reduz o spread bancário: o investidor recebe mais (ex.: 120% do CDI) e o tomador paga menos, pois a intermediação é mais enxuta.
A regulação (CVM, Banco Central) incentivou essa migração, permitindo que qualquer empresa emita valores mobiliários (notas comerciais, debêntures) e que gestoras independentes captem recursos.
Tipos de clientes e teses de crédito em FIDCs
Primeiro tipo: fintechs ou empresas com tese de crédito própria (ex.: crédito estudantil, antecipação de comissão de corretores de imóveis).
Segundo tipo: empresas que usam FIDC para financiar seu core business (embed finance), como montadoras de veículos que antes precisavam ter bancos próprios.
Terceiro tipo: empresas que querem pulverizar risco de crédito, transformando sua carteira de recebíveis em um fundo.
João destaca que qualquer tese escalável, com prazos curtos e boas taxas, é interessante – desde que a perda esperada seja coberta pela subordinação.
Exemplo de tese promissora: crédito consignado privado (crédito trabalhador), que cresceu de zero para R$ 100 bi em pouco mais de um ano e pode chegar a R$ 600 bi.
O crédito consignado privado tem garantia no salário (desconto em folha), mas o risco é a demissão do trabalhador; ainda assim, é mais seguro que crédito pessoal sem garantia.
Riscos e cuidados ao investir em FIDCs
O FIDC ideal é pulverizado (muitos devedores) e estatístico: a perda esperada é conhecida e coberta pela taxa de juros.
FIDCs concentrados (em um único devedor ou setor) são muito mais arriscados e exigem análise detalhada, como uma debênture.
João alerta que o mercado de FIDCs terá casos de sucesso e fracasso – é inevitável que haja golpes e operações mal estruturadas.
O investidor precisa entender que rentabilidade alta vem com risco maior; se não entende o ativo, deve optar por títulos públicos ou bancos de primeira linha.
Financiamento de veículos no Brasil é arriscado porque o veículo não é garantia efetiva (multas, depreciação, dificuldade de recuperação).
A regulação bancária (Basileia) não impede quebras – exemplos: Credit Suisse, Banco do Vale (Digimais), Deutsche Bank. O risco existe independentemente.
Comparação com o mercado americano e futuro dos FIDCs
Nos EUA, gestoras independentes (BlackRock: US$ 11 tri; Vanguard: US$ 8 tri) são muito maiores que os bancos (JPMorgan: US$ 3 tri).
João acredita que o Brasil está vivendo revolução similar no mercado de crédito, com FIDCs e gestoras independentes ganhando espaço.
Os bancos brasileiros estão mais atentos e já compram gestoras para se defender, mas o movimento de descentralização é irreversível.
O FIDC permite ao investidor acessar diretamente o spread que antes ficava com o banco, pagando mais ao investidor e barateando o crédito ao tomador.
João espera que a Ouro Preto cresça 30% ao ano, capturando esse movimento de descentralização.
Haverá crises no mercado de crédito, como ocorreu com fundos imobiliários e multimercado, mas isso faz parte do amadurecimento do investidor.
Spread bancário e taxa de juros no Brasil
A taxa de juros no Brasil é alta porque o governo gasta mais do que arrecada, gerando inflação e emitindo dívida.
O spread bancário (diferença entre taxa de captação e taxa de empréstimo) é elevado devido a impostos, inadimplência e custos operacionais.
Estudo da Febraban mostra que apenas 10% do spread é lucro dos bancos; o resto cobre perdas e despesas.
Exemplo: cartão de crédito cobra 400% ao ano, mas a inadimplência é de 60% – os que pagam cobrem os caloteiros.
Com Selic a 4-5%, o crédito privado seria mais barato e a economia mais aquecida, mas a irresponsabilidade fiscal impede isso.
Passos práticos
Antes de investir em um FIDC, entenda a tese de crédito, o nível de pulverização da carteira e o índice de subordinação.
Prefira FIDCs com carteiras pulverizadas e prazos curtos, que permitem ajuste rápido da perda esperada.
Desconfie de FIDCs com rentabilidade muito acima do mercado sem entender o risco – pode ser armadilha.
Se não entende o ativo, opte por títulos públicos ou CDBs de bancos grandes (Itaú, Bradesco, XP).
Acompanhe a regulação: o crédito consignado privado é uma tese escalável, mas o governo pode limitar taxas.
Diversifique entre diferentes FIDCs e gestoras para reduzir risco de concentração.
Leia o regulamento do fundo e verifique se a gestora tem histórico e transparência na originação dos créditos.
Frases marcantes
"O sonho de toda pessoa que mexe com crédito é não correr um risco concentrado, é ter uma carteira estatística."
"O FIDC é uma desbancarização: o crédito está deixando de ser bancário e indo para o mercado de capitais."
"Se você quiser proteger uma criança a vida toda, ela nunca vai se transformar num adulto. O investidor precisa levar porrada para amadurecer."
"O grande mercado no mundo é o mercado de dívida. Dívida pública e dívida privada."
"Nos EUA, as gestoras independentes são muito maiores que os bancos. BlackRock tem 11 trilhões, JPMorgan tem 3 trilhões."
"A taxa de juros no Brasil é alta porque temos governos irresponsáveis que gastam mais do que arrecadam."
Mencionados no episódio
Ouro Preto Investimentos – gestora de recursos especializada em FIDCs, com ~R$ 17 bi sob gestão
CVM (Comissão de Valores Mobiliários) – reguladora do mercado de capitais brasileiro
Banco Central do Brasil – regulador do sistema financeiro
Febraban – Federação Brasileira de Bancos, autora de estudo sobre spread bancário
BlackRock – maior gestora do mundo (US$ 11 trilhões)
Vanguard – segunda maior gestora do mundo (US$ 8 trilhões)
JPMorgan Chase – maior banco americano (US$ 3 trilhões sob gestão)
XP Investimentos – corretora que impulsionou o mercado de assessores de investimento
iFood – exemplo de empresa que usa FIDC para financiar sua operação (embed finance)
Para Valer – FIDC de crédito estudantil, posteriormente adquirido pelo Itaú
Digimais (Banco do Vale) – exemplo de banco que quebrou devido a carteira de financiamento de veículos
Banco Votorantim – teve problemas com carteira de veículos antes de ser comprado pelo Banco do Brasil
Credit Suisse – banco suíço que quebrou apesar da regulação de Basileia
Deutsche Bank – maior banco alemão, com problemas recorrentes
FINOR, FINAM, FISET – fundos de incentivo fiscal do governo militar para desenvolvimento regional
Home broker – tecnologia que revolucionou o mercado de ações no Brasil nos anos 1990
ANBIMA – associação que criou certificações como CPA-10 e CPA-20
Luiz Stuhlberger (Stubeg) – gestor de multimercado de sucesso, referência para gestores brasileiros