God Save The King: The World's First Pop Song | National Anthems EP 2
Tom Holland e Dominic Sandbrook exploram a história do hino britânico 'God Save the King', desde sua origem como canção jacobita no século XVIII até se tornar o primeiro grande sucesso pop global, símbolo da monarquia e da identidade nacional britânica, e discutem seu papel atual no futebol e as controvérsias em torno de seu uso por Inglaterra e Escócia.
Tom Holland — historiador e apresentadorDominic Sandbrook — historiador e apresentador
God Save the King surgiu como uma canção jacobita no século XVII, mas foi apropriada pelos apoiadores da dinastia Hanover durante a Rebelião Jacobita de 1745, tornando-se um símbolo pró-governo.
A melodia de God Save the King foi adotada por mais de 20 países, incluindo Islândia, Havaí e Liechtenstein, tornando-se a base para muitos hinos nacionais.
O hino britânico não tem uma versão oficial sancionada pelo estado, o que permitiu inúmeras adaptações e paródias ao longo dos séculos, incluindo a versão punk dos Sex Pistols.
A natureza 'orgânica' e não escrita do hino reflete a constituição não codificada do Reino Unido, em contraste com os hinos revolucionários da França e dos EUA.
Durante as Guerras Napoleônicas, God Save the King foi explicitamente tratado como um 'anthem' (hino religioso) para contrapor o ateísmo revolucionário francês, sacralizando a monarquia britânica.
A Escócia adotou 'Flower of Scotland' como hino não oficial para partidas esportivas, evitando God Save the King por suas associações históricas com a supressão dos jacobitas e com a Inglaterra.
A Inglaterra continua usando God Save the King como hino, mas há debates sobre a adoção de 'Jerusalem' como um hino exclusivamente inglês.
O hino britânico é frequentemente alvo de críticas por intelectuais e republicanos, sendo visto como antiquado e associado ao império, mas ainda é um poderoso símbolo de coesão social para muitos.
Contexto histórico: a Rebelião Jacobita de 1745
Em 1745, Bonnie Prince Charlie (Carlos Eduardo Stuart) desembarcou nas Terras Altas da Escócia para reivindicar o trono britânico para os Stuart, católicos, contra a dinastia Hanoveriana (protestante).
Os Stuart baseavam sua legitimidade no direito divino e na hereditariedade; os Hanoverianos, no Ato de Parlamento que exigia um monarca protestante.
A invasão jacobita causou pânico em Londres, com corridas a bancos e caricaturas de escoceses de kilt avançando sobre a capital.
Em 28 de setembro de 1745, no Theatre Royal Drury Lane, após uma peça de Ben Jonson, atores que se voluntariaram para lutar contra os jacobitas cantaram 'God Save the King' pela primeira vez em público.
A canção se espalhou rapidamente: em outubro já era cantada no Covent Garden, e em novembro chegou a Bath; no ano seguinte, era ouvida em todo o país.
A rebelião foi esmagada na Batalha de Culloden (1746), e Bonnie Prince Charlie fugiu disfarçado de criada.
Origens incertas: a música como 'traidora'
O musicólogo Percy Scholes (1942) demonstrou que a melodia de God Save the King é muito anterior a 1745, provavelmente de origem comunitária e anônima.
Cartas da época indicam que a canção era originalmente um hino jacobita, cantado na capela de Jaime II (o avô católico de Bonnie Prince Charlie).
Scholes chamou o hino de 'traidor' (turncoat), pois passou de jacobita a hanoveriano.
A letra original era ambígua: 'God save our lord the king' não especificava qual rei, permitindo apropriação por ambos os lados.
O segundo verso ('may he defend our laws') é claramente hanoveriano, celebrando a soberania parlamentar e a Constituição de 1688.
Teorias posteriores atribuíram a composição a Henry Purcell (séc. XVII) ou John Bull (séc. XVI), mas sem evidências; a teoria de que foi composta para celebrar a derrota da Armada Espanhola (1588) é considerada falsa.
God Save the King como hino nacional e símbolo religioso
Durante as Guerras Napoleônicas (1793-1815), a canção foi oficialmente tratada como um 'anthem' (hino religioso), em contraste com a 'Marselhesa' francesa, que era uma 'chanson nationale' (canção nacional).
O termo 'anthem' enfatizava o caráter cristão da monarquia britânica contra o ateísmo revolucionário francês.
Em 1795, a França oficializou a Marselhesa como hino nacional; a Grã-Bretanha respondeu consagrando God Save the King como um hino sacro.
A influência britânica foi tão forte que, em 1879, a França passou a chamar a Marselhesa de 'hino nacional' (hymne national).
O hino era uma prece sincera: soldados como Nelson acreditavam que Deus estava do lado britânico contra os 'ateus' franceses.
A canção também era usada por radicais: em 1819, foi tocada em uma manifestação por sufrágio universal em Manchester, que terminou no Massacre de Peterloo.
Difusão global: a primeira canção pop internacional
A melodia de God Save the King foi adotada por cerca de 20 países, incluindo Holanda, Dinamarca, Prússia, Rússia, Suíça, Grécia, Islândia e Havaí.
Liechtenstein ainda usa a mesma melodia em seu hino nacional, causando situações curiosas em jogos de futebol contra a Inglaterra.
A Suíça usou a melodia até a década de 1960.
Scholes afirmou que, em 1745, a Grã-Bretanha 'inventou os hinos nacionais' como símbolos auditivos, algo inédito desde os tempos romanos.
A popularidade da melodia refletia o prestígio britânico pós-Napoleão, sendo vista como um símbolo aspiracional por outras nações.
Críticas e paródias: de Orwell aos Sex Pistols
George Orwell escreveu em 1941 que um intelectual inglês teria mais vergonha de ficar em pé durante God Save the King do que de roubar um cofre de esmolas.
A atitude de desdém persiste: o hino é frequentemente chamado de 'arrastado' (dirge) e associado a valores antiquados.
Em 1977, os Sex Pistols lançaram 'God Save the Queen', parodiando a letra e acusando o regime de fascista; a música teria alcançado o número 1, mas foi rebaixada para número 2 por suposta manipulação da BBC.
Paródias mais antigas incluem versões revolucionárias como 'Long live great guillotine', cantada por simpatizantes da Revolução Francesa.
Jimi Hendrix tocou God Save the Queen no Festival da Ilha de Wight (1970) sem causar controvérsia, ao contrário de sua versão do hino americano em Woodstock.
Em 2016, a BBC tocou a versão dos Sex Pistols após um pedido do deputado Andrew Rosindell para restaurar o hino no encerramento das transmissões, gerando polêmica.
O hino no futebol: Inglaterra vs. Escócia
Inglaterra e Escócia competem separadamente na Copa do Mundo porque suas federações de futebol são anteriores à FIFA (a primeira partida internacional foi em 1872).
Ambas usam God Save the King como hino nacional britânico, mas a Escócia adotou 'Flower of Scotland' como hino não oficial para partidas esportivas.
'Flower of Scotland' foi composta em 1966 pelo folk singer Roy Williamson, celebrando a vitória escocesa na Batalha de Bannockburn (1314) sobre o rei Eduardo II da Inglaterra.
A canção foi adotada pela seleção de rugby nos anos 1990 e pela seleção de futebol em 1998, sendo usada na Copa do Mundo daquele ano.
Líderes do SNP, como Alex Salmond e Nicola Sturgeon, já cantaram God Save the Queen em eventos oficiais, mostrando que não há rejeição absoluta ao hino britânico.
A Inglaterra mantém God Save the King, mas há propostas para adotar 'Jerusalem' (poema de William Blake musicado por Hubert Parry) como hino exclusivamente inglês.
'Jerusalem' já é o hino oficial do críquete inglês e tem apelo tanto para monarquistas quanto para republicanos, devido às tendências revolucionárias de Blake.
Na década de 1970, a Inglaterra chegou a usar 'Land of Hope and Glory' por um breve período, mas voltou atrás devido a controvérsias.
A natureza não oficial e a flexibilidade do hino
God Save the King não tem uma versão oficial sancionada por lei ou decreto, ao contrário da Marselhesa ou do Star-Spangled Banner.
A versão no site da família real é apenas uma referência, não um texto legal.
Essa falta de padronização permitiu que o hino fosse adaptado para diferentes contextos: de hino jacobita a hanoveriano, de canção radical a símbolo imperial.
A mudança de 'God Save the Queen' para 'God Save the King' após a ascensão de Carlos III ocorreu naturalmente, sem necessidade de legislação.
A flexibilidade é vista como uma vantagem por alguns, refletindo a constituição não escrita do Reino Unido, mas também como uma fraqueza por outros, que a consideram antiquada.
Passos práticos
Ao assistir a jogos de futebol entre Inglaterra e Escócia, observe qual hino cada equipe canta e reflita sobre as diferenças históricas e culturais que isso representa.
Pesquise a letra completa de God Save the King e compare com versões históricas, como as paródias jacobitas ou radicais.
Ouça diferentes interpretações musicais do hino, desde as versões clássicas de Elgar até as versões punk dos Sex Pistols, para perceber como a melodia pode ser ressignificada.
Leia o livro de Percy Scholes sobre God Save the King (1942) para entender a pesquisa musicológica sobre as origens do hino.
Em debates sobre identidade nacional, considere como hinos podem ser símbolos de união ou de divisão, dependendo do contexto histórico e político.
Frases marcantes
"O hino nacional britânico é um traidor: passou de jacobita a hanoveriano."
"É uma estranha verdade que quase qualquer intelectual inglês sentiria mais vergonha de ficar em pé durante o God Save the King do que de roubar um cofre de esmolas."
"Em 1745, a Grã-Bretanha inventou os hinos nacionais como símbolos auditivos."
"A canção é uma prece desesperadamente sincera: se você está navegando para a batalha em Trafalgar, acredita que Deus está do seu lado."
"O hino não tem versão oficial, assim como a constituição britânica: ambos evoluíram organicamente."
"Nada diz 'Feliz Dia dos Pais' como a chance de ouvir seis horas sólidas sem anúncios sobre a Primeira Guerra Mundial."
Mencionados no episódio
Bonnie Prince Charlie (Carlos Eduardo Stuart) — pretendente jacobita ao trono britânico
George II — rei da Grã-Bretanha durante a Rebelião Jacobita de 1745
Percy Scholes — musicólogo que publicou estudo definitivo sobre God Save the King em 1942
Henry Purcell — compositor inglês do século XVII, candidato a autor do hino
John Bull — compositor e keyboardista do século XVI, candidato a autor do hino
Leighton Henry — musicólogo galês que propôs teoria falsa sobre a origem do hino em 1588
Sex Pistols — banda punk que lançou 'God Save the Queen' em 1977
George Orwell — escritor que criticou o hino em 1941
Flower of Scotland — canção de Roy Williamson, hino não oficial da Escócia
Jerusalem — poema de William Blake musicado por Hubert Parry, candidato a hino inglês
Theatre Royal Drury Lane — teatro onde God Save the King foi cantado pela primeira vez em público
Batalha de Culloden (1746) — batalha que encerrou a Rebelião Jacobita
Batalha de Bannockburn (1314) — vitória escocesa celebrada em Flower of Scotland
Massacre de Peterloo (1819) — manifestação onde God Save the King foi tocado
Lloyd's Business and Commercial Banking — patrocinador do episódio
The Times and The Sunday Times — patrocinador do episódio