Devon Larratt, o maior campeão de luta de braço de todos os tempos, explica sua filosofia de treinamento baseada em altas repetições e fluxo sanguíneo, a obsessão por vencer o gigante Levan Saginashvili, e como o esporte evoluiu de torneios amadores para um fenômeno global com dinheiro e reconhecimento. Joe Rogan explora as lesões, a genética dos atletas de elite e a conexão com o grappling e o treinamento de força.
Joe Rogan – apresentador do podcastDevon Larratt – lenda canadense da luta de braço, multicampeão mundial
Devon Larratt treina com altas repetições e baixa carga (100+ reps) para maximizar o fluxo sanguíneo nos tendões e ligamentos, em vez de levantar pesos pesados.
A especialização extrema é a chave: Devon abandonou o treino de pernas e até o braço esquerdo para focar toda a energia no braço direito ("treino de abóbora").
O conceito de "rising" (elevação) é o movimento inicial mais importante na luta de braço: forçar o oponente a segurar você pelas pontas dos dedos, tornando-o ineficiente.
Levan Saginashvili (420 lbs) é o atual campeão invicto desde 2017 e o maior desafio de Devon; a diferença de peso é de até 135 lbs.
John Brzenk, o "GOAT" original, nunca levantava pesos – só treinava luta de braço – e dominou por 25 anos com 210 lbs.
A genética de atletas como Brian Shaw (hormônio do crescimento diferente) e Eddie Hall (stop code para fibras rápidas) mostra que o potencial humano vai além do que entendemos.
O esporte cresceu com o East vs West (EVW), que se tornou a liga principal, sem testagem antidoping, permitindo que os atletas vivam da luta de braço com salários de seis dígitos.
A luta de braço é um "combate seguro" – sem pancadas na cabeça, sem danos na coluna – e pode ser praticada até os 70 anos, como mostra Crazy George.
Lesões nos cotovelos e a "artrite weaponizada"
Devon não consegue estender completamente os braços devido a osteófitos e cicatrizes de três cirurgias (duas no braço direito, uma no esquerdo).
A perda de amplitude de movimento é causada pela pressão constante no cotovelo e pela contração da cápsula articular (tecido conjuntivo).
Ele chama a condição de "artrite weaponizada": a falta de extensão faz com que a resistência ligamentar comece mais cedo, ajudando em certas posições de luta.
O Dr. Pollock, do Ottawa Hospital, realizou as cirurgias que removeram fragmentos ósseos e prolongaram sua carreira.
Devon está com os cotovelos "osso com osso" (sem cartilagem) há duas décadas, mas ainda compete no mais alto nível aos 51 anos.
A condição não afeta todos os lutadores de braço – depende de estilo, genética e histórico de lesões.
Filosofia de treinamento: altas repetições e fluxo sanguíneo
Devon faz 21 séries de trabalho por dia, mas apenas uma é dedicada exclusivamente à força de preensão; o resto são movimentos específicos da luta de braço.
Ele treina com clubes duas vezes por semana (dias de alta intensidade) e nos outros dias faz trabalho de "sangue" o dia inteiro: 100+ repetições com carga leve (~20 lbs).
O objetivo é aumentar a circulação nas fáscias e estruturas conectivas, promovendo a cura e a adaptação metabólica.
Ele abandonou o treino com pesos pesados depois de uma sessão com Jujimufu, percebendo que o treino pesado atrapalhava seu desempenho na mesa.
A carga total levantada em um dia de altas repetições é astronômica, e a adaptação a longo prazo é superior, segundo Devon.
Críticas de atletas mais jovens são comuns, mas lutadores experientes entendem e muitos adotam abordagem semelhante.
Técnica: rising, pronation e o conceito de "ser a parede"
O movimento inicial mais importante é o "rising": um movimento de elevação e rotação do punho para obter uma pegada superior.
O objetivo é fazer o oponente segurar você pelas pontas dos dedos, tornando a pegada dele ineficiente.
As duas forças principais na luta de braço são a flexão (cupping) e a pronação (rotação do antebraço). A pronação ataca a flexão do oponente.
Crazy George (160 lbs) é o mestre do estilo "king's move" (outside top roll), que depende fortemente da pronação.
Devon compara: no climbing, você quer ser o escalador; na luta de braço, você quer ser a parede – difícil de segurar.
A luta de braço é um equilíbrio de pontos fortes e fracos; as partidas são decididas por pequenas vantagens na mão e no punho.
A obsessão por Levan Saginashvili e a diferença de peso
Levan (420 lbs) é o atual campeão invicto desde 2017, considerado o pináculo do esporte.
Devon pesa cerca de 265 lbs fora de competição e sobe para 300-320 lbs em preparação, mas ainda dá 100-135 lbs para Levan.
No primeiro confronto, Levan rompeu o bíceps de Devon (segunda rodada). No segundo (2024), Devon conseguiu parar Levan no primeiro round, mas levou duas faltas e perdeu.
Devon acredita que pode vencer Levan com precisão técnica ("pitbull nos dedos") em vez de tentar igualar a força bruta.
Levan treina com pesos muito pesados (ex.: rosca de 180 kg), enquanto Devon foca em ângulos precisos e controle de mão.
A próxima luta está prevista para daqui a 16 meses; Devon planeja ser o maior que já foi (310-320 lbs).
Evolução do esporte: de torneios amadores ao East vs West
Antes dos anos 2000, os prêmios eram de $500; hoje, os melhores lutadores ganham seis dígitos anuais e não precisam de outro emprego.
A pandemia de COVID destruiu as ligas existentes (WAL, PAL), mas o East vs West (EVW) surgiu como a liga dominante, com eventos a cada 7 semanas.
O EVW não tem testagem antidoping – é "F1 da luta de braço", onde vale tudo.
A World Armwrestling Federation (WAF) é a federação governamental com testagem, mas os salários são menores.
O esporte cresceu no TikTok e YouTube por ser visualmente rápido e fácil de entender.
Países como Geórgia, Turquia e Cazaquistão reconhecem a luta de braço como esporte oficial, injetando dinheiro e apoio.
Genética de elite: Brian Shaw, Eddie Hall e os "weirdos"
Brian Shaw tem um tipo diferente de hormônio do crescimento (mutação), nunca visto antes por geneticistas.
Eddie Hall tem um "stop code" genético que teoricamente impede fibras musculares de contração rápida, mas ele é um dos homens mais fortes do mundo – contradizendo o modelo atual.
O myostatin inhibitor (deficiência de miostatina) é encontrado em whippets e em alguns humanos, resultando em crescimento muscular extremo.
Terapias genéticas como follistatin (que aumenta a massa muscular) já estão disponíveis para quem pode pagar, inicialmente criadas para anti-envelhecimento.
Ryan Rosner, geneticista, está mapeando atletas de elite para encontrar mutações favoráveis; Devon e Levan foram escaneados.
A genética é um campo que Devon considera crucial para o futuro da humanidade, mas ele admite não entender todos os detalhes.
Conexão com escalada e grip training: Eve Grall e Magnus Midtbø
Eve Grall, um dos melhores escaladores do mundo (150 lbs), venceu o Ottawa Open após apenas seis semanas de treino em luta de braço.
Eve treina com isometria e testes diários de força de preensão, abortando treinos se não se sentir bem – abordagem oposta à de Devon.
Devon acredita que Eve tem potencial para ser campeão mundial em 2-3 anos, pois já domina a pegada; precisa aprender a "ser a parede".
Magnus Midtbø é extremamente forte (ex.: remada unilateral com 180 lbs), mas Eve o supera em força de preensão.
A força de preensão de Eve é tão absurda que ele faz pull-ups em bordas de 2 mm e levanta o Thomas Inch dumbbell (impossível para a maioria).
Devon não é obcecado por grip training; ele foca em movimentos específicos da luta de braço, pois a pegada é apenas uma parte do controle.
Psicologia do treino: caos vs. ordem e o sistema de adesivos
Devon divide sua vida em blocos de 4-5 meses entre competições. Após um evento, ele entra em "caos planejado": viaja, experimenta, coleta dados.
Antes de um evento, ele entra em "ordem": treina no porão, segue uma rotina rígida, sem distrações.
Ele usa um sistema de adesivos (azul = caos, branco = ordem) para motivar-se, inspirado pela mãe na infância.
Acredita que o equilíbrio entre caos e ordem é essencial para o desempenho máximo – a vida não pode ser 100% ordem o tempo todo.
A parte mais difícil de ser campeão aos 51 anos é a dedicação psicológica para fazer 10 horas de wrist curls por dia.
O treino de "abóbora" (foco total em um braço) é uma estratégia de especialização extrema que ele adotou novamente para a preparação final.
John Brzenk: o GOAT que nunca levantava pesos
John Brzenk dominou a luta de braço por 25 anos (dos 18 aos ~60 anos), pesando entre 195-230 lbs, sem nunca levantar pesos.
Ele treinava apenas lutando de braço com o pai e em clubes – acreditava que a prática específica era suficiente.
John é o campeão do torneio real que inspirou o filme "Over the Top" (1987).
Sua técnica era muito superior à dos concorrentes; ele vencia pela precisão, não pelo tamanho.
Devon venceu John em 2008 para conquistar o título mundial, marcando o fim de uma era.
John ainda está envolvido no esporte e pode voltar a competir, mas está longe do auge.
O futuro da luta de braço e da medicina regenerativa
Novas terapias para degeneração de disco (injeções que inflam o disco) podem eliminar a necessidade de fusão espinhal e artroplastia.
O reverse hyper (inventado por Louie Simmons) é recomendado por Devon para problemas lombares – ele tem um no estúdio e em casa.
A terapia genética com follistatin já está disponível para aumentar massa muscular e combater a sarcopenia.
Devon acredita que, com os avanços, os recordes de idade serão empurrados cada vez mais longe – talvez ninguém seja campeão antes dos 60 anos.
Ele defende a liberdade de escolha no uso de PEDs: torneios testados são importantes, mas ligas abertas como EVW também têm seu lugar.
O esporte continuará evoluindo com a profissionalização e o dinheiro, tornando a competição cada vez mais acirrada.
Passos práticos
Para melhorar na luta de braço, foque em altas repetições (100+) com carga leve para aumentar o fluxo sanguíneo nos tendões, em vez de apenas levantar pesos máximos.
Pratique o movimento de 'rising' (elevação do punho) para obter uma pegada superior e forçar o oponente a segurar pelas pontas dos dedos.
Se você é destro, considere especializar o treino no braço direito ("treino de abóbora") por alguns meses, sacrificando o esquerdo, para maximizar o desempenho.
Use um sistema de adesivos ou diário para alternar entre fases de caos (exploração) e ordem (rotina rígida) antes de competições.
Para problemas lombares, invista em um reverse hyper (máquina de Louie Simmons) para descompressão e fortalecimento da cadeia posterior.
Evite cirurgias de coluna se possível; explore terapias regenerativas e exercícios específicos antes de optar por fusão ou artroplastia.
Incorpore treino de preensão (grip) de forma consistente, mas lembre-se de que na luta de braço o objetivo é fazer o oponente gastar energia segurando você.
Frases marcantes
"Eu chamo isso de artrite weaponizada. A perda de amplitude pode ser usada a seu favor em certas posições."
"O objetivo não é ter uma pegada forte – é fazer o outro cara ter que segurar você. Você quer ser a parede, não o escalador."
"Se eu puder levar minha direita de 99 para 100, mesmo que isso custe 15 pontos na esquerda, é uma troca que vale a pena."
"A parte mais difícil de ser campeão aos 51 anos é a dedicação psicológica para fazer 10 horas de wrist curls por dia."
"Caos e ordem precisam de equilíbrio. Se você tenta ser ordenado todos os dias, sua vida desmorona. Você precisa de uma linha de chegada."
"John Brzenk não levantava pesos. Ele só lutava braço. E foi o melhor por 25 anos. Isso diz muito sobre especialização."
Mencionados no episódio
Levan Saginashvili – atual campeão mundial invicto, 420 lbs, maior rival de Devon
John Brzenk – lendário campeão, GOAT, venceu o torneio real de 'Over the Top'
Crazy George – mestre do king's move, 160 lbs, inspiração de Devon
Eve Grall – escalador de elite, 150 lbs, venceu o Ottawa Open após 6 semanas de luta de braço
Magnus Midtbø – escalador e youtuber, extremamente forte em remadas e preensão