The numbers that could bring down global stock markets.
Fernando Ulrich entrevista Heraldo de Paola, CIO da LS Advisory, sobre o momento errático do mercado: 75% do crescimento do PIB americano no 1º trimestre veio de investimentos em data centers de apenas 7 empresas (hyperscalers). O consumidor está fraco, mas o Capex dessas gigantes sustenta o mercado. O episódio discute os riscos de concentração, o debate entre início vs. fim de ciclo, e como alocar carteiras entre preservação, crescimento e proteção.
Fernando Ulrich – host, sócio da Liberta WealthHeraldo de Paola – CIO da LS Advisory, alocador global
75% do crescimento do PIB americano no 1º trimestre veio de investimentos em infraestrutura de data center de apenas 7 empresas (Amazon, Microsoft, Google, Nvidia, etc.).
O consumidor americano está fraco (sentimento em mínimas históricas), mas o Capex das hyperscalers está mascarando a fragilidade econômica.
O mercado está precificando perfeição: 52% do crescimento de lucro do S&P 500 até 2026 depende de apenas 7 empresas.
O fluxo de caixa livre dessas 7 empresas está caindo, historicamente um antecedente de queda nos lucros.
O debate atual é entre 'início de ciclo de earnings' (otimistas) vs. 'fim de ciclo' (pessimistas), com eventos como o fechamento do Estreito de Ormuz podendo virar o jogo.
O VIX de 3 meses está no menor nível desde o início da guerra, indicando complacência; proteção contra queda de 35% no Nasdaq está cara (delta 5).
A alocação tática atual favorece renda fixa de alta qualidade (treasury de 3-5 anos a ~4,1%) e rebalanceamento, não aumento de risco em ações.
Michael Burry postou alerta de bolha iminente, com paralelos com 1999; Heraldo vê mais chance de acerto dessa vez, mas não recomenda desmontar posições, sim proteger.
O motor do PIB americano: 75% vindo de 7 empresas
O consumidor representa 70% do PIB, mas não está crescendo; o crescimento veio de investimentos em infraestrutura para data centers (75% do crescimento do 1º trimestre).
Apenas 7 empresas (hyperscalers: Amazon, Microsoft, Google, Nvidia, Micron, Broadcom, Meta) são responsáveis por esse Capex.
O gasto global com infraestrutura de data center em 2025-2026 é estimado em US$ 2,5 trilhões, equivalente ao orçamento militar combinado de EUA, Rússia e China.
Esse Capex é o driver marginal do crescimento econômico e das expectativas do S&P 500, tornando o ciclo econômico 'errático' e difícil de ler com indicadores tradicionais.
Ciclo econômico errático: o modelo GCLI
O modelo GCLI (Growth Coincident and Leaders Index) da LS Advisory, com mais de 30 anos, mostra que a economia americana esteve em contração na maior parte dos últimos 12 meses.
Em fevereiro, os indicadores líderes estavam no percentil 36 (ainda negativo) e os cíclicos no percentil 57 (positivo), gerando um regime transitório de 'slowdown' ou 'recovery'.
Regimes transitórios têm apenas 40% de chance de se manter no mês seguinte (vs. 80% para expansão ou contração), aumentando a incerteza.
A leitura está muito próxima do eixo, reduzindo a convicção; a dificuldade vem do fato de que o motor do crescimento não é o consumo (70% do PIB), mas o Capex.
Políticas fiscais como ventilador: IIJA e Bonus Appreciation
O governo Biden aprovou o IIJA (Infrastructure Act) com US$ 130 bi+; a Intel foi escolhida como 'campeã nacional'.
O 'Big Beautiful Act' (BBA) e o Bonus Appreciation permitem acelerar depreciação de maquinário com vida útil >20 anos, abatendo imposto.
Isso incentiva desde pequenas empresas (ex.: cortador de grama que troca equipamento) até gigantes como Microsoft (que anunciou US$ 190 bi em Capex).
O resultado: vendas de carros (pickups) estão bombando porque empresas estão renovando frotas para abater imposto, distorcendo indicadores cíclicos.
O grande debate: início vs. fim de ciclo de earnings
Mike Wilson (Morgan Stanley) defende que estamos no início de um ciclo de earnings, com fundo no 'Liberation Day' (abril).
O lado pessimista aponta eventos de late cycle: problemas em private credit (BDCs, KKR, Ares, Apollo) e concentração extrema.
O setor de tecnologia de alta qualidade (investment grade) emitia 3% dos bonds corporativos em 2024; em 2025 já é 15,5% e pode superar o setor financeiro.
As big techs estão investindo 100% do fluxo de caixa em Capex (vs. média histórica de 40%), e algumas estão emitindo dívida (ex.: Google emitiu bond de 100 anos).
O fluxo de caixa livre dessas empresas está caindo, o que historicamente antecede queda nos lucros.
Consumidor fraco vs. mercado em alta: a economia em formato de K
O sentimento do consumidor (University of Michigan) caiu para 47,6 em abril, mínima similar a junho de 2022 (mas influenciado por vieses políticos).
O topo 10% da pirâmide de renda responde por 50% do consumo (era 1/3 antes da pandemia), mascarando a fraqueza dos 90% inferiores.
O consumo está abaixo da tendência de 2% ao ano, mas não em recessão; o PIB cresce apenas pelo Capex das hyperscalers.
Se o Capex desacelerar (ex.: por choque geopolítico), a economia pode voltar à contração rapidamente.
Concentração extrema: 7 empresas carregam o S&P 500
52% do crescimento de lucro por ação (EPS) do S&P 500 até 2026 vem de apenas 7 empresas: Nvidia, Micron, Broadcom, Microsoft, Meta, Amazon, Google.
O Equity Risk Premium (ERP) do S&P 500 está próximo de zero, similar ao pré-bolha da Nasdaq (quando estava em -3%).
O mercado está precificando perfeição: qualquer desvio (ex.: monetização mais lenta da IA) pode causar correção violenta.
Setores 'perdedores' da IA (ex.: software de serviço) estão sendo ignorados; empresas como Salesforce caíram 40%.
O mercado não está preparado para o cenário em que as hyperscalers não consigam monetizar rapidamente os investimentos em IA.
Riscos geopolíticos e o gargalo de Ormuz
O fechamento do Estreito de Ormuz pode impactar a produção de semicondutores, pois o hélio (gás necessário) vem do Golfo Pérsico.
A guerra começou em 1º de março; a projeção inicial era de 6 semanas, já estamos em 8 semanas (maio), aumentando o risco de escalada.
Se o cenário pessimista se concretizar (Ormuz fechado, inflação, dólar forte), as hyperscalers pisam no freio, e a economia volta à contração.
O VIX de 3 meses está no menor nível desde o início da guerra (~19,9), indicando complacência; proteção contra queda de 35% no Nasdaq está sendo comprada (delta 5).
Alocação tática: preservação e proteção, não aumento de risco
Heraldo divide os objetivos em 4 caixas: preservação, geração de renda, crescimento e especulação.
No momento, o foco está em preservação: treasury de 3-5 anos pagando ~4,1% (vs. 3,2-3,5% há um mês), com alta qualidade de crédito.
Na caixa de crescimento, a LS Advisory está focada nas 3 camadas do 'silicon spine': camada 1 (hyperscalers), camada 2 (fornecedores de infraestrutura como Geova, PWR, POWL) e camada 3 (mineradoras de cobre, via ETF Critical Metals).
A recomendação para quem está comprado: não desmontar posições, mas comprar seguro (hedge) e rebalancear. Para quem não está comprado: esperar até o verão.
O mercado está binário: cenário 1 (Ormuz fecha, inflação, recessão) vs. cenário 2 (Capex é recompensado, ciclo de earnings continua até 2029).
Michael Burry e o alerta de bolha
Michael Burry postou que estamos 'a minutos de uma bolha', prevendo crash no Nasdaq, com paralelos com 1999 (Intel, Micron parabólicas, SOX disparando).
Heraldo concorda que há mais chance de acerto dessa vez, pois o mercado está sobrecomprado baseado em 'fumaça' (Capex sem monetização clara).
A proteção contra queda de 35% no Nasdaq (QQQ) para dezembro está cotada a delta 5, indicando que muitos investidores já estão comprando hedge.
No entanto, Heraldo alerta: não se pode operar apenas com essa hipótese, pois perder da inflação por 3-4 anos é pior. O viés deve ser tático, não estrutural.
Passos práticos
Para quem está comprado em ações: não desmonte posições, mas compre proteção (hedge) via opções (ex.: puts com delta 5 no QQQ) e rebalanceie para renda fixa de alta qualidade.
Para quem não está comprado: não entre agora; espere até o verão para ter mais clareza sobre o desfecho geopolítico e a temporada de earnings.
Aumente a alocação em treasuries de 3-5 anos (rendimento ~4,1%) e bonds de empresas de tecnologia de alta qualidade (investment grade).
Na caixa de crescimento, foque nas 3 camadas do silicon spine: hyperscalers (camada 1), fornecedores de infraestrutura (camada 2) e mineradoras de cobre (camada 3, via ETF Critical Metals).
Evite aumentar exposição a índices amplos (S&P 500 equal weight) devido à concentração extrema; prefira seleção ativa nas camadas do silicon spine.
Monitore o CDS das hyperscalers (atualmente barato, 80 bps acima dos bonds) como sinal de estresse; se disparar, reduza exposição.
Para clientes com objetivo de preservação, priorize alta liquidez e baixa volatilidade; para crescimento, tenha paciência e use quedas para aumentar posições nas camadas 1 e 2.
Frases marcantes
"75% do crescimento do PIB americano no primeiro trimestre é por causa de investimento em infraestrutura para data center. Esse dado é surreal. E o mais surreal é que são só sete empresas."
"O mercado não está preparado para o cenário aonde essas empresas não conseguem monetizar e trazer lucro rápido dos investimentos dela. Eu considero isso como um fato."
"O mercado é um bull market com pouca margem de erro, com um otimismo implícito."
"Qualquer correção que entrar vai ser braba."
"Se você quiser comprar uma proteção de menos dois desvios padrão da volatilidade implícita do QQQ pro final do ano, você tá pagando para apostar que o mercado cai 35%. Tem muito mais gente do que só o Michael Burry nessa maldade."
"O momento atual é um momento aonde qualquer conteúdo que vocês assistirem, que alguém apareça falando que tem certeza de algo, deve ser levado com um certo nível de ceticismo."
Mencionados no episódio
LS Advisory – assessoria de investimentos no exterior, onde Heraldo é CIO
Liberta Wealth – consultoria financeira independente de Fernando Ulrich
Mike Wilson – estrategista do Morgan Stanley, defende início de ciclo de earnings
Michael Burry – investidor famoso por prever o crash de 2008, postou alerta de bolha
Larry Williams – trader e autor, previu topo em maio-junho e fundo em agosto-setembro
Howard Marks – investidor, citado sobre regressão de múltiplos (acima de 22x lucro, retorno real esperado de -2% a +2% nos próximos 10 anos)
JP Morgan Info Focus – podcast semanal do JP Morgan sobre mercados
GCLI – Growth Coincident and Leaders Index, modelo proprietário da LS Advisory
IIJA – Infrastructure Act do governo Biden
Big Beautiful Act (BBA) – lei com Bonus Appreciation para depreciação acelerada
Silicon Spine – modelo de investimento em 3 camadas da LS Advisory
Geova, PWR, POWL – empresas da camada 2 do silicon spine
Prysmian – maior fabricante de cabos de alta voltagem do mundo (camada 2/3)
ETF Critical Metals (de Eric Sprott) – ETF de mineradoras de cobre e metais críticos
BDCs (Business Development Companies) – setor de crédito privado citado como estressado
KKR, Ares, Apollo – gestoras de private credit mencionadas
Oracle – hyperscaler que emitiu dívida para contrato com OpenAI, vista como mais arriscada
OpenAI – laboratório de IA, citado no contrato com Oracle
Nvidia, Micron, Broadcom, Microsoft, Meta, Amazon, Google – as 7 empresas do silicon spine
Salesforce – exemplo de empresa de software que caiu 40%
VIX de 3 meses – métrica de volatilidade usada por Heraldo, menos manipulada que o VIX tradicional
QQQ – ETF do Nasdaq 100, usado para hedge
SOX – Philadelphia Semiconductor Index, citado por Burry como parabólico