INQUIETAÇÃO, RESILIÊNCIA E FUNÇÕES DO FUTURO: CONSELHOS DE JOÃO EMÍLIO, DA JGP CRÉDITO
João Emílio, neto de Guimarães Rosa e executivo com 40+ anos de mercado, conta sua trajetória desde a Arthur Andersen até a JGP Crédito, onde hoje lidera a área operacional. O episódio aborda lições sobre escolha de pessoas, resiliência, adaptação à tecnologia e a importância de assumir responsabilidades antes da recompensa.
João Emílio – executivo sênior, neto de Guimarães Rosa, ex-Pactual, ex-IP Capital, COO da JGP CréditoHost (Stock Pickers) – apresentador do podcast
Escolha pessoas, não barcos: o sucesso vem de ter os tripulantes certos, que farão o barco crescer.
A tecnologia sempre vence: resistir a novas ferramentas (como IA) é inútil; o melhor é abraçá-las e aprender.
Assuma responsabilidades que não são suas: isso gera poder e recompensa, não o contrário.
Para contratar bem, coloque o candidato à vontade e explore como ele vê o mundo, não apenas respostas prontas.
A carreira é um dominó: cada passo conecta-se ao anterior; é preciso identificar a linha mestra que une as experiências.
Coragem calculada é essencial: arrisque, mas com preparo e análise de riscos, como no voo de parapente.
Burocracia vem de cima: líderes que incentivam o debate aberto e a 'ditadura do argumento' evitam a decadência organizacional.
Prepare-se para profissões que ainda não existem: a adaptabilidade é a chave para sobreviver às mudanças exponenciais.
Infância e influência de Guimarães Rosa
João Emílio é neto de Guimarães Rosa, que faleceu quando ele tinha 10 anos.
O avô era médico, diplomata e escritor; tomou posse na Academia Brasileira de Letras e três dias depois sofreu um infarto fulminante.
João só redescobriu o avô através dos livros e de uma biografia lançada recentemente.
A frase marcante do avô: 'A vida embrulha, desembrulha, esquenta e esfria, mas o que ela quer da gente é coragem'.
João compara a relação do avô com o sertão à sua própria relação com montanhas e mar – lugares que exigem introspecção e decisão.
Exemplo: para decidir sair da Arthur Andersen e ir para o Pactual, ele subiu sozinho a um pico em Petrópolis e refletiu por uma hora.
Primeiros passos: Shell, Arthur Andersen e a revolução dos microcomputadores
Estagiou na Shell desenvolvendo um sistema de controle de estoques em BASIC em um Apple II – linguagem limitada, mas que evoluiu com o VisiCalc (avô do Excel).
Indicou um colega de faculdade para substituí-lo na Shell; esse colega quase se tornou presidente da empresa.
Formou-se em Engenharia Civil na PUC-Rio em 1982, época em que a engenharia civil no Brasil foi dizimada pela crise econômica.
Sua turma migrou para informática: 'a gente tem que se preparar para profissões que não existem'.
Na Arthur Andersen, aprendeu a metodologia de consultoria e especializou-se na área financeira, atendendo corretoras e bancos.
Viu a transição da régua de cálculo (1972) para calculadoras programáveis e microcomputadores em menos de 10 anos – lição de que a tecnologia sempre vence.
Compara a resistência à IA hoje com a resistência aos microcomputadores nos anos 80: 'a tecnologia sempre vence'.
A entrada no Pactual e a contratação de André Esteves
Convidado por Jorge Banitz para montar a área de sistemas do Pactual em 1989, acreditando no projeto de rede de micros contra a tendência de superminicomputadores.
No dia 7 de junho de 1989, entrou no banco; dois dias depois, estourou o caso Najin Nahas – 'acertei por dois dias'.
O escritório era decadente, com curtos-circuitos; depois mudaram para o prédio do BNH, escolhido por João por ser engenheiro.
Para montar a equipe de TI, colocaram anúncio e receberam 800 currículos; João e Banitz dividiram a pilha.
O currículo de André Esteves chamou atenção: primeiro lugar em vários vestibulares, mas era um garoto de 20 anos, muito agitado.
Na entrevista, André fez perguntas muito boas – João valoriza mais as perguntas do que as respostas prontas.
André sabia programar em dBase III e logo resolveu um problema crítico no sistema da bolsa que ninguém conseguia consertar.
Quando André quis sair porque roubaram o carro da mãe, João disse: 'Você não vai embora, vai ganhar dinheiro para comprar 1000 carros' – profecia que se cumpriu.
Planos Collor e a ascensão do Pactual
O Plano Collor (1990) foi um dos momentos mais marcantes: o banco ficou de plantão durante o feriado decretado por Sarney.
André Esteves criou duas tesourarias (moeda antiga e nova) para lidar com o confisco.
O Pactual antecipou o confisco e fez operações com exportadoras (celulose), protegendo clientes e multiplicando o patrimônio.
A carteira dos clientes performou 540% naquele ano.
João saiu da área de sistemas em 1990 para assumir a área de operações bancárias, a pedido de César (sócio), aprendendo na prática a fechar caixa e lidar com o Banco Central.
Entre 1990-93, o banco diversificou: privatizações (Telebrás), Anexo IV (investidores estrangeiros), negociação da dívida brasileira em securities.
Saída do Pactual e passagem por grupos familiares e asset management
Em 1993, saiu do Pactual para ser diretor financeiro e de controladoria do Grupo Lackman, em processo de profissionalização e governança (antes do termo existir).
Implementou caixa único, estrutura de reporte aos acionistas e otimização fiscal – 'seu chefe passa a ser o estatuto e a Lei das S.A.'.
Viveu as crises dos anos 1990: México (1994), Ásia (1997), Rússia (1998), Brasil (1999), bolha .com (2000), 11 de setembro (2001).
Envolveu-se em privatizações e sentiu saudade do mercado financeiro.
Foi para o Banco ICAT (investment banking) e depois participou do spin-off da Catu Investimentos (asset management), vendida ao BBA.
Passou 10 anos na IP Capital Partners (Investidor Profissional), onde atuou como COO/CEO, adaptando fundos a novas regulações e montando equipes.
Depois montou a STK Capital do zero, passou pela pandemia e, em 2023, tirou um sabático de 1 ano para refletir sobre o próximo passo.
O sabático e a entrada na JGP Crédito
No sabático, conversou com 100 pessoas do mercado, como sugerido por um amigo ex-CVM.
Considerou ser conselheiro, mas concluiu: 'não quero conselho, quero estar na encrenca, na operação'.
Conheceu Alexandre Miller (sócio da JGP Crédito) através de André Esteves; almoçaram várias vezes e João percebeu que Miller era um 'desbravador' com visão de longo prazo.
Miller precisava de alguém para pavimentar a área operacional da JGP Crédito, que havia adquirido o controle da gestora.
João aceitou o desafio: 'ou eu vou ajudar a encontrar as respostas, ou o trem vai passar'.
Hoje está implementando a área operacional (financeiro, tecnologia, risco, compliance, backoffice) com uma equipe própria, replicando os serviços da 'nave mãe' JGP.
O papel do COO/operacional em uma gestora
O COO é responsável por tudo que não é investimento nem comercial: tecnologia, regulação, risco, compliance, jurídico, backoffice.
Sua função é 'preparar o palco para o show acontecer' – garantir que tudo funcione para a área de investimentos brilhar.
É o 'Departamento de Prevenção ao Lucro': apresenta restrições, mas também soluções – não adianta só apontar problemas.
Trabalha em rede: cultiva contatos dentro e fora da empresa, contribuindo mais do que recebendo.
Precisa ser generalista, curioso, gostar de tecnologia e regulação, e integrar diferentes áreas (CFO, CTO, legal).
Na JGP Crédito, o comitê executivo tem 11 pessoas, com 4 mulheres – algo raro no mercado financeiro – e funciona como 'ditadura do argumento': quem tem o melhor argumento vence, independentemente de hierarquia.
Como evitar a burocracia (lição de Buffett)
João cita o 'ABC of Business Decay' de Buffett, onde 'B' é burocracia.
Para evitar burocracia, a liderança deve dar o exemplo: debate aberto, sem níveis hierárquicos rígidos, com liberdade para argumentar.
Burocracia vem de cima: se o líder cria processos complexos e limita discussões, a burocracia se instala.
Em empresas de porte médio (como a JGP Crédito, com ~80 pessoas), é mais fácil evitar a burocracia mantendo organogramas enxutos e cultura de 'bom senso'.
A 'ditadura do argumento' é a vacina: todos os sócios têm voz igual, independentemente de cargo ou idade.
Mudanças do mercado financeiro ao longo de 40 anos
As principais mudanças são tecnologia e regulação – os anseios e o fascínio dos jovens pelo mercado continuam os mesmos.
O mercado financeiro sempre atraiu os melhores cérebros, mas muitos se esquecem dos casos de fracasso.
João recomenda que jovens que não conseguem entrar diretamente no mercado comecem em auditoria (ex: Arthur Andersen) como porta de entrada.
A tecnologia transformou a operação: antes, o layout do escritório era definido pelo fluxo de papéis; hoje, é digital.
A regulação se tornou muito mais complexa, exigindo profissionais especializados em compliance e risco.
Como selecionar talentos: o método de João Emílio
Dois tipos de entrevista: a que coloca pressão (ex: 'quantos postes de gasolina em SP?') e a que coloca a pessoa à vontade – ele prefere a segunda.
Colocar a pessoa à vontade revela quem ela realmente é, enquanto a pressão gera respostas ensaiadas.
Explora o 'mundo da pessoa': pergunta como ela vê o mundo, suas motivações (reconhecimento, dinheiro, etc.).
Exemplo de pergunta: 'Se você fosse reitor da sua universidade por um mês, o que faria?' – isso revela visão e valores.
Observa mais as perguntas que o candidato faz do que as respostas – as perguntas mostram curiosidade genuína.
Exemplo prático: contratou André Esteves porque ele fez perguntas muito boas sobre o banco e o desafio inicial.
Outro exemplo: entrevistou José Padilha (cineasta) e disse a ele para não ir para o mercado financeiro, mas sim fazer cinema – Padilha seguiu o conselho.
Lições para o sucesso: esporte, responsabilidade e coragem
Lições do esporte (vela e maratona): saber perder – cumprimentar o vencedor e aprender com ele; treinar forte, mas 20% dos treinos devem ser leves.
Não se pode mudar a natureza (vento, ondas), mas é possível regular as velas – adaptabilidade.
Assuma responsabilidades que não são suas: isso gera poder e recompensa, não o contrário.
A agenda pessoal deve estar alinhada à agenda da empresa – fazer o melhor onde está, não o que gostaria de estar fazendo.
Prepare a equipe para ser melhor que você: treine pessoas para que possam te substituir, permitindo que você assuma novos desafios.
Coragem calculada: arrisque, mas com preparo. Exemplo: voo de parapente com instrutores engenheiro e meteorologista para controlar riscos.
A carreira é um dominó: cada peça conecta-se à anterior; é preciso identificar a linha mestra que une as experiências.
O futuro da JGP Crédito e profissões que ainda não existem
O lema da JGP Crédito é 'soluções de capital' – um conceito amplo que abre muitas possibilidades.
Atualmente, o foco é consolidar a área operacional, mas há várias ideias ligadas a soluções de capital para clientes.
João se preparou para profissões que não existiam: foi operador de computador (profissão extinta) e migrou para análise de sistemas quando a área surgiu.
A curva de mudança é exponencial: profissões de hoje podem não existir em 10 anos; é preciso estar aberto e sem medo.
O próprio cargo de COO em asset management não existia há 30 anos – ele ajudou a criá-lo.
Passos práticos
Ao contratar, coloque o candidato à vontade e explore como ele vê o mundo, não apenas respostas técnicas.
Assuma responsabilidades além do seu cargo – a recompensa virá depois.
Invista em treinar sua equipe para ser melhor que você; isso libera você para novos desafios.
Cultive uma rede de contatos contribuindo mais do que recebendo.
Leia livros fora do mercado financeiro (ex: biografia de Tancredo Neves) para ampliar a visão.
Pratique esportes que ensinem resiliência e a lidar com derrotas (ex: vela, maratona).
Não resista à tecnologia: abrace novas ferramentas como IA, pois a tecnologia sempre vence.
Em reuniões, busque a 'ditadura do argumento': o melhor argumento deve vencer, independentemente de hierarquia.
Frases marcantes
"Se você tem que escolher as pessoas, se você encontra as pessoas certas, tudo dá certo. Não escolha pelo barco, escolha pelos tripulantes."
"A vida embrulha, desembrulha, esquenta e esfria, mas o que ela quer da gente é coragem."
"A tecnologia sempre vence. A gente tem que tomar todos os cuidados, mas a tecnologia sempre vence."
"Você tem que assumir responsabilidades que não necessariamente são suas. No momento em que você assume, ganha poder. A recompensa vem depois."
"Não adianta você sugar da rede, você tem que ter muito a contribuir também."
"A burocracia começa de cima. Se você começa a montar níveis hierárquicos em excesso, você cria uma burocracia."
Mencionados no episódio
Guimarães Rosa – escritor, avô de João Emílio
André Esteves – fundador do BTG Pactual, contratado por João
Jorge Banitz – colega da Arthur Andersen que convidou João para o Pactual
Alexandre Miller – sócio da JGP Crédito, responsável por trazer João
JGP Crédito – gestora de crédito onde João atua como COO
Pactual – banco de investimento que se tornou BTG Pactual
Arthur Andersen / Accenture – consultoria onde João começou
IP Capital Partners – gestora onde João foi COO por 10 anos
STK Capital – gestora fundada por João
Catu Investimentos – asset management spin-off do Banco ICAT
Banco ICAT – banco onde João trabalhou em investment banking
Grupo Lackman – grupo familiar onde João foi diretor financeiro
Shell – primeiro estágio de João
José Padilha – cineasta, aconselhado por João a fazer cinema
Plínio Fraga – autor de biografia de Tancredo Neves, livro recomendado
Ariane Abdala – autora do livro 'De Volta ao Jogo' sobre o BTG
Fernando Henrique Cardoso – ex-presidente, citado em uma história
César – sócio do Pactual (não identificado completamente)
Paulo Guedes – economista, ex-sócio do Pactual
Warren Buffett – citado sobre o 'ABC of Business Decay'
Apollo, Capstone, Blackstone – gestoras internacionais citadas como inspiração para a JGP Crédito