Dr. Dave Rabin explica como a terapia assistida por cetamina e outros psicodélicos podem reparar traumas até o nível epigenético, oferecendo esperança para condições como depressão, ansiedade e TEPT. Ele discute a segurança da cetamina como porta de entrada, o papel do nervo vago na sensação de segurança e como os psicodélicos amplificam a aprendizagem bottom-up. O episódio também aborda as falhas do sistema psiquiátrico atual, a diferença entre trauma com T maiúsculo e minúsculo, e o potencial de economizar bilhões de dólares com tratamentos baseados em evidências.
Dave Asprey - host do Human UpgradeDr. Dave Rabin - psiquiatra, neurocientista, fundador da Apollo Neuroscience
Cetamina é o psicodélico mais seguro e acessível para iniciantes, com sessões de 60 minutos e legalidade em quase todos os estados dos EUA.
Psicodélicos serotoninérgicos (MDMA, psilocibina) combinados com SSRIs/SNRIs podem causar síndrome serotoninérgica fatal; cetamina não interage com esses medicamentos.
Trauma não é definido pelo tamanho do evento, mas pelo impacto no corpo e na autoconfiança; a resposta de terceiros (ex.: 'por que você deixou isso acontecer?') pode cristalizar o trauma.
O nervo vago controla o sistema nervoso parassimpático; uma respiração profunda intencional pode ativá-lo e redirecionar o fluxo sanguíneo para órgãos de recuperação em 60-90 segundos.
Aprendizagem bottom-up (experiencial) é essencial para curar trauma; psicodélicos fornecem a sensação de segurança que permite essa aprendizagem.
Estudos com MDMA mostraram reparo epigenético no gene do receptor de cortisol, correlacionado com melhora clínica em TEPT.
A terapia é responsável por ~80% do resultado; a medicina é apenas ~20% – segurança e vínculo terapêutico são cruciais.
SSRIs e benzodiazepínicos podem prejudicar a capacidade de sentir e processar emoções, dificultando a cura a longo prazo.
O problema do tratamento psiquiátrico atual
Quase 50% dos pacientes com depressão, ansiedade e TEPT são rotulados como 'resistentes ao tratamento' após falharem em dois ou mais tratamentos padrão-ouro.
Dr. Rabin critica o termo 'resistente ao tratamento', afirmando que o problema é o tratamento errado, não o paciente.
Medicamentos psiquiátricos ocidentais são bons para estabilização de curto prazo, mas péssimos para manejo crônico de sintomas.
Pacientes são mantidos cronicamente com medicamentos que causam efeitos colaterais graves sem melhora real.
A abordagem correta seria estabilizar, ensinar técnicas terapêuticas e depois reduzir a medicação, mas isso raramente acontece.
Dr. Rabin começou a estudar psicodélicos em 2012 ao ver que 1-3 doses de MDMA ou psilocibina proporcionavam remissão de 6 a 12 meses em casos graves.
Segurança dos psicodélicos e por que começar com cetamina
Psicodélicos são seguros quando usados corretamente, assim como Tylenol ou ibuprofeno – a dose faz o veneno.
Cetamina é o melhor ponto de partida: mais suave, sessão de 60 minutos, legal e acessível em quase todos os estados dos EUA.
Psicodélicos serotoninérgicos (MDMA, psilocibina, LSD) ativam o sistema de serotonina e podem causar síndrome serotoninérgica fatal se combinados com SSRIs ou SNRIs.
Síndrome serotoninérgica pode ocorrer mesmo com microdoses e requer atendimento de emergência imediato.
Cetamina não interage com SSRIs/SNRIs, tornando-a uma opção mais segura para quem usa esses medicamentos.
Dr. Rabin recomenda evitar psicodélicos serotoninérgicos se houver histórico de transtorno bipolar, psicótico, delirante ou de personalidade.
O nervo vago e a sensação de segurança
O nervo vago (nervo errante) controla o sistema nervoso parassimpático (repouso e digestão), que regula respiração, batimentos cardíacos, digestão, imunidade, criatividade e sono.
Sob estresse, o sistema simpático (luta ou fuga) desvia 80%+ do fluxo sanguíneo para músculos esqueléticos, deixando apenas 5% para o cérebro e órgãos vitais.
Uma respiração profunda intencional ativa o nervo vago e redireciona o fluxo sanguíneo em 60-90 segundos.
A maioria das pessoas vive em estado de estresse crônico devido à superestimulação digital – nos primeiros 30 minutos do dia, um usuário de smartphone processa tanta informação quanto uma pessoa na década de 1950 processava em uma semana.
A frequência respiratória normal em repouso é de 5 a 7 respirações por minuto, mas a faixa 'normal' médica é de 12 a 24 – o que já é considerado estresse respiratório.
Como os psicodélicos promovem a cura do trauma
Psicodélicos são ferramentas de aprendizagem bottom-up (experiencial), diferente da aprendizagem top-down (leitura/instrução).
Eles amplificam molecularmente as vias de segurança no córtex insular, que inibe a amígdala (centro do medo), permitindo que o paciente sinta segurança no corpo.
MDMA, em particular, ativa a extinção do medo via via dependente de BDNF na amígdala basolateral.
Estudo com MAPS mostrou que a terapia assistida por MDMA reparou epigeneticamente o gene do receptor de cortisol em pacientes com TEPT, correlacionando-se com melhora clínica.
O trauma fratura a autoconfiança; a cura envolve reescrever a história de 'vítima' para 'superação'.
A sensação de segurança é o alicerce – sem ela, a aprendizagem e a cura são bloqueadas.
Diferença entre trauma com T maiúsculo e minúsculo
O tamanho do 'T' não importa; o que importa é o impacto no corpo e na autopercepção.
Trauma ocorre quando um evento desafiador é seguido por uma resposta de terceiros que culpa a vítima (ex.: 'por que você deixou isso acontecer?'), cristalizando a sensação de impotência.
Isso transforma um potencial momento de crescimento em uma fratura na autoconfiança, levando a uma mentalidade de vítima.
O trauma pode ser transmitido epigeneticamente por até 14 gerações em animais, segundo pesquisas de Rachel Yehuda.
A cura começa ao reconhecer o padrão e reescrever a história: 'Isso não foi minha culpa; eu superei'.
O papel da terapia vs. medicina psicodélica
A medicina representa cerca de 20% do resultado; a terapia e o vínculo de segurança com o terapeuta representam 80%.
Participantes dos ensaios clínicos do MAPS que já haviam usado MDMA antes relataram que a experiência com o medicamento puro e o setting terapêutico foi muito superior – muitos não acreditaram que era a mesma droga.
Cerimônias indígenas e círculos seguros também podem fornecer o contexto de segurança necessário.
Para trauma real, é essencial trabalhar com psiquiatra ou psicólogo treinado, não apenas usar a substância recreativamente.
Dr. Rabin publicou as melhores práticas padrão-ouro para terapia assistida por psicodélicos no Journal of Affective Disorders (2023), disponível em boardofmed.org.
O fracasso da FDA com o MDMA e o lobby farmacêutico
A FDA rejeitou o MDMA apesar de três ensaios de fase 3 mostrarem 88% de resposta, devido a alegações de uma única má conduta (não do ensaio principal) amplificadas por um grupo financiado por empresas farmacêuticas.
Dr. Rabin acredita que a FDA foi influenciada por política, não por ciência, e que a nova liderança da FDA poderia reavaliar.
Estima-se que a implementação segura da terapia psicodélica poderia economizar mais de US$ 100 bilhões por ano a partir de 2028, ao tratar a causa raiz da doença mental em vez de apenas gerenciar sintomas.
A economia poderia ser redirecionada para educação e mentoria, revertendo a tendência de queda no desempenho intelectual da Geração Z (efeito Dunning-Kruger mencionado).
Efeitos colaterais de SSRIs e a importância de sentir
SSRIs e SNRIs, assim como benzodiazepínicos e opioides, suprimem a atividade do córtex insular, responsável pela interocepção (sentir o corpo), introspecção e empatia – essenciais para a cura emocional.
Quando esses medicamentos são retirados, há uma enxurrada de emoções reprimidas, que muitas vezes é confundida com ansiedade de abstinência.
O paciente fica sem habilidades de enfrentamento porque dependeu de uma 'muleta' química por muito tempo.
A verdadeira cura envolve reaprender a sentir e confiar no corpo, o que pode ser auxiliado por tecnologias como neurofeedback, Apollo Neuro e práticas de atenção plena.
Psicodélicos, quando usados com segurança, podem amplificar esse processo ao criar um estado de mente observadora e quieta.
Passos práticos
Se você está considerando terapia psicodélica, comece com cetamina, que é legal, acessível e não interage com SSRIs/SNRIs.
Antes de usar qualquer psicodélico serotoninérgico, verifique se você não está tomando SSRIs ou SNRIs – o risco de síndrome serotoninérgica é real e pode ser fatal.
Pratique respiração profunda intencional (5-7 respirações por minuto) para ativar o nervo vago e induzir um estado de segurança fisiológica.
Reduza a exposição a telas e notificações, especialmente na primeira meia hora do dia, para diminuir a superestimulação do sistema nervoso.
Se você tem histórico de trauma, busque um terapeuta especializado em trauma (não apenas um psiquiatra prescritor) – a terapia é 80% do resultado.
Considere o uso de wearables como o Apollo Neuro para ajudar a regular o sistema nervoso e amplificar a sensação de segurança.
Leia o livro 'A Simple Guide to Being Alive' do Dr. Dave Rabin para um guia prático sobre como aplicar esses conceitos.
Acesse boardofmed.org para as melhores práticas publicadas sobre terapia assistida por psicodélicos.
Frases marcantes
"Trauma is now repairable and reversible down to the epigenetic code. So, there's hope for everyone."
"In the first 30 minutes of every day, you look at your smartphone and you've taken in as much information as the average human being took in in a week of being alive in the 1950s."
"Psychedelic medicines are some of the most powerful tools we've ever had access to in the history of psychiatry."
"Ketamine is the best starting place for anyone if you're starting out in this area. It's the easiest, most gentle. It only lasts 60 minutes."
"The medicine really represents to them about 20% of the experience and the therapy and the safety that comes from the bond with the therapist is 80% of the experience."
"We could start to save over $100 billion a year as a country starting in 2028 if we start to roll this out now."
Mencionados no episódio
Dave Asprey - host do Human Upgrade, biohacker
Dr. Dave Rabin - psiquiatra, neurocientista, fundador da Apollo Neuroscience
Apollo Neuro - wearable de regulação do sistema nervoso
MAPS (Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies) - organização que conduz pesquisas com psicodélicos