Scott Horton, jornalista e apresentador do podcast 'Scott Horton Show', discute com Joe Rogan a história da política externa dos EUA, desde a Doutrina Wolfowitz até a guerra na Ucrânia e o conflito com o Irã. Horton critica o neoconservadorismo, a expansão da OTAN e a influência de Israel, oferecendo uma perspectiva libertária e anti-intervencionista. O episódio vale pela profundidade histórica e pelas conexões entre eventos aparentemente desconexos.
Joe Rogan - apresentador do JREScott Horton - jornalista e apresentador do Scott Horton Show
A Doutrina Wolfowitz de 1992 estabeleceu a hegemonia global dos EUA como objetivo permanente, justificando intervenções em todo o mundo.
A expansão da OTAN para o Leste Europeu, apesar de promessas contrárias a Gorbachev, foi uma provocação desnecessária que levou à guerra na Ucrânia.
O plano neoconservador 'Clean Break' de 1996, escrito para Netanyahu, visava redesenhar o Oriente Médio em benefício de Israel, culminando na invasão do Iraque.
A guerra na Ucrânia é vista por Washington como uma oportunidade de 'bom custo-benefício' para enfraquecer a Rússia, ignorando o sofrimento ucraniano.
O ataque ao Irã em 2025 revelou a fragilidade das bases militares dos EUA no Oriente Médio, com o Irã mantendo 70-75% de seus mísseis após os bombardeios.
A influência de Netanyahu sobre Trump foi decisiva para o ataque ao Irã, usando lisonja e a promessa de legado histórico.
A narrativa oficial sobre a Segunda Guerra Mundial é tratada como 'religião cívica' nos EUA, dificultando debates críticos sobre o papel de Churchill e as causas do conflito.
O complexo militar-industrial e o lobby de Israel são os principais motores da política externa americana, não os interesses do povo americano.
Introdução e mudança na mídia
Scott Horton presenteia Joe Rogan com um cachimbo professoral, mencionando que Mezer (provavelmente referência a um amigo) agora usa cachimbo por influência dele.
Horton discute a transição do rádio para o podcasting: ele manteve seu programa na KPFK (rádio comunitária de esquerda em Los Angeles, 115.000 watts) por 14-15 anos sem remuneração, mas o alcance era pequeno (alta casa dos milhares, não 10.000).
O podcasting democratizou a produção de conteúdo, mas Horton inicialmente via o rádio como 'legitimidade' real; hoje, o rádio tradicional está em declínio, com a TV também perdendo relevância, pois as pessoas consomem apenas clipes em plataformas como X e YouTube.
Horton já fez mais de 6.200 entrevistas desde 2003 em seus vários programas.
A TV é um 'mercado moribundo' devido a comerciais frequentes, interferência de executivos e patrocinadores, e falta de profundidade nas conversas.
Teorias da conspiração e a Nova Ordem Mundial
Horton explica que, nos anos 1990, ele acreditava na teoria da 'Nova Ordem Mundial' (governo mundial sob a ONU), mas abandonou essa visão ao perceber que a Guerra do Iraque (2003) mostrou que o poder real estava no Conselho de Segurança Nacional dos EUA, não na ONU.
A 'Nova Ordem Mundial' de George H.W. Bush era na verdade sobre a hegemonia americana sem contestação, não sobre fortalecer a ONU.
Horton argumenta que uma conspiração global exigiria que muitos poderosos abrissem mão de poder e dinheiro, o que é improvável.
Ele reconhece que há tentativas de centralizar regras (ex.: OMS), mas não há um exército ou polícia mundial para impor essas regras; o que existe é a coerção dos EUA sobre outros países.
A 'ordem internacional baseada em regras' de Joe Biden é, na prática, 'fazer o que a América manda'.
Doutrina Wolfowitz e o neoconservadorismo
A Doutrina Wolfowitz (1992), escrita por Paul Wolfowitz, Scooter Libby e Zalmay Khalilzad, estabelecia que os EUA seriam a potência dominante em todos os continentes e não tolerariam nenhuma aliança que os equilibrasse.
O documento foi vazado para o New York Times e reescrito para suavizar a linguagem, mas a essência permaneceu.
Horton cita o livro 'They Knew They Were Right', de Jacob Heilbrunn, sobre a mentalidade dos neoconservadores.
O jornalista Andrew Cockburn descreve os neoconservadores como 'um cruzamento entre o lobby de Israel e o complexo militar-industrial'.
A lista dos 'sete países em cinco anos' (atribuída a Wesley Clark) incluía Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e Irã; todos, exceto o Irã, foram atacados ou sofreram intervenção dos EUA.
O plano 'Clean Break' e a invasão do Iraque
O documento 'Clean Break' (1996), escrito por David Wurmser e Richard Perle para o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, propunha abandonar o processo de paz de Oslo e buscar 'paz através da força'.
O plano visava redesenhar o Oriente Médio: derrubar Saddam Hussein (Iraque) para isolar o Irã e o Hezbollah, com a expectativa de que os xiitas iraquianos se alinhassem a Israel.
Horton chama o plano de 'idiota' e 'cabelo-branco', pois os neoconservadores acreditavam que os xiitas obedeceriam aos hachemitas (sunitas) da Jordânia, o que nunca aconteceu.
O resultado foi o fortalecimento do Irã, não seu enfraquecimento, e uma guerra que custou aos EUA entre 5 e 10 trilhões de dólares.
Horton sugere que, mesmo que o plano A (vitória rápida) falhasse, o plano B era lucrar com a guerra e desestabilizar a região.
Ucrânia: origens e o papel dos EUA
Os EUA orquestraram duas mudanças de regime na Ucrânia: a Revolução Laranja (2004) e o Euromaidan (2014), com financiamento de George Soros e agências americanas.
A expansão da OTAN para o Leste Europeu, apesar de promessas verbais a Gorbachev em 1989-1990 (de não expandir 'uma polegada para o leste'), foi uma provocação direta à Rússia.
Horton cita George Kennan, que previu em 1998 que a expansão da OTAN levaria a uma reação russa, que seria usada para justificar ainda mais a expansão.
A Ucrânia é descrita como o 'Canadá da Rússia' – seu vizinho mais importante – e a interferência dos EUA é comparada a uma hipotética dominação soviética do Canadá.
Victoria Nuland (subsecretária de Estado) testemunhou que os EUA tinham agentes em todos os níveis do governo ucraniano, controlando polícia, militares e judiciário.
O estudo da Rand Corporation (2019) 'Extending Russia' propunha provocar a Rússia em múltiplas frentes (Ucrânia, Síria, Bielorrússia, Cazaquistão) para sobrecarregá-la, mas alertava que isso poderia levar a uma invasão russa da Ucrânia – o que de fato ocorreu.
O conflito Irã-Israel e a fragilidade militar dos EUA
Horton argumenta que Netanyahu convenceu Trump a atacar o Irã usando lisonja e a promessa de um legado histórico, ignorando os alertas de que o Irã retaliaria.
O ataque de janeiro de 2025 mostrou que o Irã atingiu 18 bases americanas (de Erbil a Mascate), destruiu radares, pistas, tanques de reabastecimento e aviões AWACS, e deixou aliados (Arábia Saudita, Catar, Emirados) vulneráveis.
O Catar fez um acordo com o Irã para não permitir que os EUA lançassem surtidas de sua base principal durante o conflito.
O Irã manteve 70-75% de seus mísseis e lançadores após os bombardeios, segundo autoridades americanas citadas pelo New York Times e Washington Post.
Horton cita que, em 2007, os chefes militares disseram a George W. Bush que o Irã tinha 'dominância de escalada' – capacidade de retaliar de forma desproporcional – e que os EUA não poderiam vencer uma guerra convencional contra o Irã.
A narrativa de que 'o povo iraniano se levantaria' após um ataque é rejeitada como fantasia neoconservadora.
Religião e apocalipse no Pentágono
Horton menciona Mikey Weinstein (Military Religious Freedom Foundation), que denuncia fundamentalistas cristãos nas altas patentes da Força Aérea dos EUA que acreditam que uma guerra no Oriente Médio apressará o retorno de Jesus.
Um comandante militar teria dito a suboficiais que Trump foi 'ungido por Jesus para acender o fogo do Armagedom no Irã'.
Essa crença foi usada para justificar a Guerra do Iraque, com pastores protestantes prometendo o arrebatamento aos soldados.
Horton observa que o apoio evangélico a Israel e a guerras no Oriente Médio diminuiu porque as profecias do 'Left Behind' não se cumpriram.
Debate sobre a Segunda Guerra Mundial e liberdade de expressão
Horton defende Darryl Cooper (parceiro de podcast), que foi acusado de antissemitismo por comentários sobre Churchill e o Holocausto.
Cooper argumentava que Churchill foi um 'vilão' por impor bloqueios que mataram civis alemães, e que a responsabilidade por prisioneiros em campos nazistas era dos alemães – não para minimizar o Holocausto, mas para criticar a política de Gaza de Israel.
Horton cita o livro de Pat Buchanan 'Churchill, Hitler and the Unnecessary War', que usa apenas historiadores ingleses de Cambridge e Oxford para mostrar que Chamberlain e Churchill 'tropeçaram' na guerra.
Ele sugere que a Segunda Guerra Mundial é tratada como 'religião cívica' nos EUA, dificultando debates críticos.
Horton compara W. Bush a Churchill, e Churchill a Dick Cheney, como figuras que levaram os EUA a guerras desnecessárias.
China, Taiwan e semicondutores
Horton minimiza a ameaça chinesa: a China não invade vizinhos, está sobrecarregada com 14-15 fronteiras, e seu objetivo é construir uma rota econômica (Nova Rota da Seda) que exige cooperação, não guerra.
Ele defende que os EUA deveriam cortar gastos militares (orçamento do Pentágono de US$ 1,5 trilhão) e investir em semicondutores domésticos.
Joe Rogan questiona a dificuldade de replicar a produção de chips de Taiwan, citando a TSMC que produz 90% dos chips mais avançados do mundo devido a décadas de investimento e ecossistema especializado.
Horton sugere que os EUA poderiam 'trazer os gênios de Taiwan' para a América, mas reconhece que não é simples.
O caso Dick Cheney e a cultura do poder
Horton e Rogan discutem o incidente em que Cheney atirou no rosto de um amigo durante uma caçada (2006), e o amigo se desculpou publicamente.
Rogan critica a impunidade de Cheney, que não sofreu consequências, e menciona que Cheney era CEO da Halliburton, empresa que recebeu contratos sem licitação para reconstruir o Iraque.
Horton observa que Cheney 'não tem pulso' (referência a problemas cardíacos) e mesmo assim sobreviveu por décadas, enquanto pessoas saudáveis morrem jovens.
Passos práticos
Pesquise o documento 'Clean Break' (1996) no site scotthorton.org para entender as origens da política neoconservadora.
Leia o estudo da Rand Corporation 'Extending Russia' (2019) para ver como think tanks planejam provocar adversários.
Assista ao documentário 'War as a Racket', de Smedley Butler, para uma crítica histórica ao complexo militar-industrial.
Verifique as fontes sobre o ataque ao Irã em 2025: New York Times, CNN e NBC têm reportagens detalhadas sobre a fragilidade das bases americanas.
Apoie organizações como a Military Religious Freedom Foundation (Mikey Weinstein) que combatem o fundamentalismo religioso nas Forças Armadas.
Considere cortar gastos militares e redirecionar recursos para infraestrutura doméstica, como produção de semicondutores.
Frases marcantes
"A 'ordem internacional baseada em regras' é só fazer o que a América manda."
"O Catar fez um acordo com o Irã: 'Parem de nos bombardear e não deixaremos os EUA voar daqui'."
"Se você quer saber como os EUA tratam aliados, veja o Catar: eles nos traíram e nós aceitamos."
"O Irã manteve 70-75% dos mísseis depois que 'destruímos' tudo. A guerra foi um blefe."
"Churchill é o George W. Bush do século 20 – e ninguém pode dizer isso em voz alta."
"O complexo militar-industrial e o lobby de Israel são os verdadeiros motores da política externa americana."
Mencionados no episódio
Scott Horton Show - podcast de Scott Horton sobre política externa
Provoke - livro de Scott Horton sobre a guerra na Ucrânia
They Knew They Were Right - livro de Jacob Heilbrunn sobre neoconservadores
Clean Break - documento de 1996 de David Wurmser e Richard Perle
Coping with Crumbling States - documento de David Wurmser
Tyranny's Ally - livro de David Wurmser e Richard Perle
Extending Russia - estudo da Rand Corporation (2019)
Churchill, Hitler and the Unnecessary War - livro de Pat Buchanan
War as a Racket - livro de Smedley Butler
Threads - filme britânico sobre guerra nuclear (1984)
The Day After - filme americano sobre guerra nuclear (1983)
Mikey Weinstein - fundador da Military Religious Freedom Foundation
Darryl Cooper - parceiro de podcast de Horton, apresentador de 'Fear and Loathing in the New Jerusalem'
Andrew Cockburn - jornalista que descreveu neoconservadores como cruzamento entre lobby de Israel e complexo militar-industrial
George Kennan - diplomata que previu a reação russa à expansão da OTAN
Strobe Talbott - subsecretário de Estado de Clinton que apoiou a expansão da OTAN
Victoria Nuland - subsecretária de Estado que testemunhou sobre controle dos EUA na Ucrânia
Seymour Hersh - jornalista que investigou a sabotagem do Nord Stream
James Bamford - autor de livros sobre a NSA
Jeremy Scahill - jornalista investigativo
George Friedman - fundador da Stratfor
TSMC - Taiwan Semiconductor Manufacturing Company
KPFK - rádio comunitária de Los Angeles (90.7 FM)
Halliburton - empresa de Dick Cheney que recebeu contratos no Iraque
AMD - Advanced Micro Devices, fabricante de chips em Austin