Tom Holland e Dominic Sandbrook analisam a história do hino nacional dos EUA, 'The Star-Spangled Banner', desde sua origem na Guerra de 1812 até as controvérsias modernas sobre racismo e protestos. O episódio explora o contexto militar, a autoria de Francis Scott Key, as conexões com a escravidão e as disputas sobre seu significado.
Tom Holland - historiador e co-apresentadorDominic Sandbrook - historiador e co-apresentador
O hino foi escrito como um poema por Francis Scott Key em 1814, após testemunhar o bombardeio britânico ao Fort McHenry.
A melodia do hino é inglesa, originalmente uma canção do Anacreontic Club, e não uma composição original americana.
A letra contém a frase 'hireling and slave' que gera debate: pode se referir a soldados britânicos e mercenários ou a escravos fugitivos que se aliaram aos britânicos.
Francis Scott Key era proprietário de escravos e um ferrenho opositor do abolicionismo, o que torna a interpretação do hino ambígua.
O hino só se tornou oficial em 1931, após décadas de controvérsias sobre sua melodia difícil e associações militares.
O hino foi alvo de protestos, como o ajoelhamento de Colin Kaepernick em 2016, e versões alternativas foram criadas por abolicionistas e outros grupos.
A bandeira original do hino, com 15 estrelas e 15 listras, foi encomendada para ser enorme (42x30 pés) como símbolo de desafio.
A Guerra de 1812, que inspirou o hino, é pouco lembrada nos EUA e no Reino Unido, mas é fundamental para a identidade canadense.
Contexto histórico: a Guerra de 1812 e o ataque a Baltimore
A Guerra de 1812 foi um conflito entre EUA e Reino Unido, eclipsado pela independência americana e pelas Guerras Napoleônicas.
As causas incluíam embargo comercial britânico, recrutamento forçado de marinheiros americanos, ambições expansionistas dos EUA (Canadá) e alianças britânicas com nativos americanos.
Os EUA invadiram o Canadá em 1812, mas foram derrotados; a guerra é um marco fundador da identidade canadense.
Em 1814, após a derrota de Napoleão, os britânicos intensificaram a campanha nos EUA, queimando Washington D.C. e a Casa Branca.
O ataque a Baltimore em setembro de 1814 visava o Fort McHenry, guarda da entrada do porto.
O bombardeio durou 24 horas, com 700 foguetes Congreve e 1.500 granadas, mas causou poucos danos (4 mortos, 24 feridos).
A marinha britânica operava no limite de seu alcance, o que reduziu a eficácia do bombardeio.
Francis Scott Key e a criação do poema
Key era um advogado e proprietário de escravos de Maryland, nascido em 1779.
Ele foi enviado para negociar a libertação do Dr. William Beans, um prisioneiro britânico, sob bandeira de trégua.
Key e Beans foram detidos pelos britânicos após ouvirem planos de ataque a Baltimore.
Durante o bombardeio, Key observou de um navio a 8 milhas de distância e, ao amanhecer, viu a bandeira americana ainda hasteada.
Ele escreveu o poema 'Defence of Fort M'Henry' em papel de alta qualidade, não em um envelope (mito comum).
O poema foi impresso como broadside ballad e publicado no Baltimore Patriot em 20 de setembro de 1814.
A melodia escolhida foi 'To Anacreon in Heaven', uma canção inglesa do Anacreontic Club, já popular nos EUA.
A controvérsia racial: 'hireling and slave' e o papel de Key
A terceira estrofe do hino contém a frase 'No refuge could save the hireling and slave'.
Interpretação tradicional: 'hireling' refere-se a mercenários hessianos e 'slave' a soldados britânicos súditos do rei, seguindo a retórica da Revolução Americana.
Interpretação crítica: 'slave' refere-se a escravos fugitivos que se aliaram aos britânicos, que ofereciam liberdade em troca de serviço militar.
O almirante britânico George Cockburn recrutou ativamente escravos fugitivos, formando o 'Corps of Colonial Marines'.
Cerca de 6.000 escravos escaparam para os britânicos durante a guerra; muitos foram reassentados no Canadá e em Trinidad.
Key era proprietário de escravos (teve até 8) e, como promotor público, processou abolicionistas, incluindo um caso de difamação em 1836.
Ele foi membro fundador da American Colonization Society, que defendia o envio de negros libertos para a África (Libéria).
O biógrafo de Key, Mark Leep, defende a interpretação tradicional, mas historiadores como Christopher Wilson (Smithsonian) apontam a ambiguidade.
A bandeira original e seu simbolismo
A bandeira hasteada no Fort McHenry tinha 15 estrelas e 15 listras (representando os estados da época).
Media 42 pés por 30 pés (aproximadamente 12,8m x 9,1m), encomendada pelo major George Armistead para ser visível a longa distância.
Foi confeccionada por Mary Pickersgill, viúva de Baltimore, com 300 jardas de lã inglesa e estrelas de algodão, ao custo de US$ 45,90.
Durante o bombardeio, uma bandeira menor (storm flag) foi usada; a bandeira grande foi hasteada apenas ao amanhecer.
A bandeira original está no Smithsonian Institution, com partes cortadas e dadas como lembranças pela família Armistead.
O Smithsonian tentou recomprar fragmentos da bandeira no início do século XX.
O caminho para se tornar hino nacional (1814-1931)
Após 1814, a canção foi publicada em jornais de Nova Inglaterra à Geórgia e vendida em lojas de música.
O título 'The Star-Spangled Banner' foi dado pelo editor Thomas Carr, de Baltimore.
No século XIX, era tocada em celebrações do 4 de Julho e usada por ambos os lados na Guerra Civil.
A Academia Naval dos EUA começou a tocá-la em 1889; o Exército adotou a prática em 1892.
Em 1916, o presidente Woodrow Wilson ordenou que fosse tocada em ocasiões militares.
O Congresso debateu a oficialização por décadas; opositores citavam a melodia britânica, o tom militarista e a dificuldade de cantar (alcance de 19 semitons).
Alternativas incluíam 'Hail Columbia' e 'America the Beautiful'.
Em 1931, o presidente Herbert Hoover sancionou a lei tornando-a o hino nacional, após petição de 5 milhões de nomes dos Veteranos de Guerras Estrangeiras.
Controvérsias modernas e protestos
Interpretações controversas: José Feliciano (1968, estilo jazz latino), Jimi Hendrix (1969, guitarra em Woodstock), Borat (2005, paródia).
Em 2016, Colin Kaepernick ajoelhou-se durante o hino para protestar contra a brutalidade policial contra negros.
O gesto gerou debate nacional; Kaepernick não foi contratado após a temporada e processou a NFL (caso resolvido extrajudicialmente).
Em 2020, após a morte de George Floyd, o ato de ajoelhar-se foi amplamente adotado, inclusive por políticos britânicos como Keir Starmer.
A estátua de Francis Scott Key no Golden Gate Park, São Francisco, foi derrubada por ativistas e substituída por 350 figuras de aço representando africanos escravizados.
A NAACP pediu ao Congresso em 2017 que substituísse o hino por ser 'racista' e 'antipreto'.
Versões alternativas e paródias
No século XIX, surgiram versões para causas específicas: temperança ('Oh, who has not seen by the dawn's early light some poor bloated drunkard...') e abolicionista.
Em 1844, o abolicionista E.A. Atlee publicou no jornal The Liberator uma versão que criticava a escravidão: 'Oh, say, do you hear at the dawn's early light, the shrieks of those bondsmen...'.
A versão abolicionista usa a mesma melodia para denunciar a hipocrisia do 'land of the free'.
A existência dessas versões mostra que o hino pode ser ressignificado para diferentes causas.
Comparação com outros hinos e contexto global
O episódio faz parte de uma série sobre hinos de países na Copa do Mundo de 2026 (EUA, Canadá, México).
Próximos episódios: Inglaterra/Escócia ('God Save the King'), Alemanha, Países Baixos, Brasil e África do Sul.
Diferentemente dos EUA, no Reino Unido o hino é tratado com menos reverência e mais humor.
A maioria dos países europeus não tinha hinos nacionais até o século XX; países 'inventados' como Bélgica e Itália adotaram hinos para forjar identidade.
Passos práticos
Reflita sobre o contexto histórico do hino nacional do seu país e as controvérsias que o cercam.
Pesquise versões alternativas de hinos nacionais para entender diferentes perspectivas políticas e sociais.
Ao ouvir um hino, considere seu significado original e como ele pode ser reinterpretado ao longo do tempo.
Leia sobre a Guerra de 1812 para compreender melhor a formação da identidade canadense e americana.
Analise criticamente símbolos nacionais e seu papel em debates contemporâneos sobre raça e identidade.
Frases marcantes
"O hino foi escrito por Francis Scott Key em setembro de 1814, após testemunhar o bombardeio britânico ao Fort McHenry."
"A melodia do hino é inglesa, originalmente uma canção do Anacreontic Club, e não uma composição original americana."
"A frase 'hireling and slave' pode se referir a soldados britânicos ou a escravos fugitivos que se aliaram aos britânicos."
"Francis Scott Key era proprietário de escravos e um ferrenho opositor do abolicionismo."
"O hino só se tornou oficial em 1931, após décadas de controvérsias sobre sua melodia difícil e associações militares."
"Em 2016, Colin Kaepernick ajoelhou-se durante o hino para protestar contra a brutalidade policial contra negros."
Mencionados no episódio
Francis Scott Key - autor do hino, advogado e proprietário de escravos
Guerra de 1812 - conflito entre EUA e Reino Unido
Fort McHenry - forte em Baltimore, alvo do bombardeio
HMS Tonnant - navio britânico onde Key foi detido
Congreve rockets - foguetes usados pelos britânicos no bombardeio
Mary Pickersgill - costureira da bandeira original
Smithsonian Institution - museu que abriga a bandeira original
NAACP - associação que pediu a substituição do hino em 2017
Colin Kaepernick - jogador de futebol americano que protestou ajoelhando-se
Jimi Hendrix - guitarrista que tocou o hino em Woodstock (1969)
José Feliciano - cantor que fez versão jazz do hino em 1968
Borat - personagem de Sacha Baron Cohen que parodiou o hino em 2005
American Colonization Society - organização que defendia o retorno de negros à África
The Liberator - jornal abolicionista que publicou versão alternativa do hino
Lloyd's Business and Commercial Banking - patrocinador do episódio
The Times e The Sunday Times - patrocinadores do episódio