O episódio analisa a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial em 1915, movida por ambições nacionalistas e uma conspiração política, apesar da oposição popular. Os apresentadores Tom Holland e Dominic Sandbrook detalham as campanhas desastrosas contra a Áustria-Hungria, o papel do poeta Gabriele D'Annunzio e as consequências que levaram ao fascismo.
Tom Holland - historiador e apresentadorDominic Sandbrook - historiador e apresentador
A Itália entrou na guerra por ambição imperialista, não por defesa, ao contrário das outras potências.
O poeta Gabriele D'Annunzio foi crucial para manipular a opinião pública e forçar o parlamento a declarar guerra.
O general Luigi Cadorna liderou com táticas obsoletas de ataque frontal, resultando em enormes perdas.
As batalhas do Isonzo foram travadas em terreno calcário inóspito, pior que a Frente Ocidental.
Os soldados italianos eram mal equipados, mal treinados e muitas vezes não entendiam o propósito da guerra.
A Áustria-Hungria, sob o general Boroević, defendeu-se eficazmente, apesar de estar em desvantagem numérica.
A guerra custou à Itália 689 mil mortos em combate e um milhão de feridos, gerando ressentimento nacional.
O sentimento de traição no pós-guerra alimentou o surgimento do fascismo, com D'Annunzio e Mussolini como figuras centrais.
Contexto: Itália em 1915
A Itália era o sexto país mais populoso da Europa (35 milhões), mas um Estado novo, unificado apenas nas décadas de 1850-60 pelo Reino da Sardenha (Casa de Saboia).
O nacionalismo italiano promovia a ideia de 'Itália irredenta' – territórios não redimidos sob domínio austríaco (Tirol do Sul, Trieste, Ístria, Dalmácia).
A Tríplice Aliança (1882) com Alemanha e Áustria era impopular, mas permitia aventuras coloniais na África (Eritreia, Somália, Líbia), geralmente mal-sucedidas (ex.: Batalha de Adwa, 1896).
Em 1914, a Itália declarou-se neutra, pois a guerra era ofensiva (não defensiva) e dependia de importações de alimentos da Grã-Bretanha e França.
O primeiro-ministro Antonio Salandra e o ministro das Relações Exteriores, marquês de San Giuliano, planejavam secretamente mudar de lado se os Aliados parecessem vitoriosos.
A conspiração para entrar na guerra
Salandra adotou o princípio do 'sacro egoísmo' (sacro egoismo) – o dever da Itália era expandir-se, mesmo que de forma traiçoeira.
Em janeiro de 1915, a Itália exigiu da Áustria o Trentino, Tirol do Sul, parte da Eslovênia e Trieste autônoma; a Áustria recusou.
Em segredo, a Itália negociou com os Aliados (Tratado de Londres, abril de 1915): exigiu Tirol do Sul, Trentino, Trieste, Gorizia, Ístria, Dalmácia, parte da Albânia, ilhas do Dodecaneso e 50 milhões de libras.
Os Aliados (Churchill chamou a Itália de 'a prostituta da Europa') aceitaram todas as exigências, mesmo sabendo que eram excessivas (ex.: Dalmácia tinha 18 mil italianos vs. 500 mil eslavos).
A Áustria fez uma contra-oferta generosa (Tirol do Sul, parte da Eslovênia, Trieste autônoma), mas a Itália recusou, já comprometida com os Aliados.
O papel de Gabriele D'Annunzio
D'Annunzio era o poeta e dramaturgo mais famoso da Itália, um nacionalista radical que pregava guerra e glória.
Em maio de 1915, voltou do exílio em Paris e fez discursos incendiários em Gênova e Roma, comparando a guerra a um 'holocausto' redentor.
Seu discurso no Capitólio (12 de maio) usou linguagem religiosa distorcida: 'Bem-aventurados os jovens que têm fome e sede de glória'.
Ele incitou a multidão a 'formar esquadrões' e 'caçar' os políticos anti-guerra, prefigurando táticas fascistas.
Mussolini, então jornalista socialista, estava na plateia e foi inspirado por D'Annunzio, chamando-o de 'João Batista do fascismo'.
A crise política e a declaração de guerra
O parlamento italiano era majoritariamente contra a guerra; o líder liberal Giovanni Giolitti, ex-primeiro-ministro, era a principal voz da oposição.
Salandra renunciou em 13 de maio, forçando o rei Vítor Emanuel III a escolher entre nomear Giolitti ou enfrentar a pressão das ruas.
Giolitti recusou o cargo, temendo uma guerra civil nacionalista; o rei reconduziu Salandra em 16 de maio.
Em 20 de maio, o parlamento votou a favor da guerra sob intimidação; o rei ameaçou abdicar se o voto fosse contrário.
Em 23 de maio de 1915, a Itália declarou guerra à Áustria-Hungria.
O general Luigi Cadorna e suas táticas
Cadorna, comandante supremo, era conhecido por sua disciplina férrea e inflexibilidade tática.
Publicou em 1898 o panfleto 'Ataque Frontal e Treinamento Tático' e nunca se desviou de suas ideias, ignorando as lições da Guerra Russo-Japonesa e da Frente Ocidental.
Seu plano era avançar pelos Alpes e pelo vale do Isonzo até Viena no outono de 1915 – completamente irrealista.
A mobilização italiana foi desastrosa: levou mais de seis semanas (contra três previstas), perdendo a vantagem numérica inicial de 4 para 1 sobre os austríacos.
Cadorna demitiu 217 generais, 255 coronéis e 355 comandantes de batalhão em dois anos, numa 'limpeza' que desorganizou ainda mais o exército.
As batalhas do Isonzo (1915-1917)
O terreno era calcário (Carso), impossibilitando trincheiras profundas; estilhaços de pedra matavam a centenas de metros.
Verão escaldante, inverno gelado; soldados carregavam mochilas de 35 kg, incluindo panelas e penachos nos chapéus.
Primeira batalha (23 jun-7 jul 1915): 200 mil italianos atacaram; avançaram 2 jardas e sofreram 15 mil baixas.
Segunda batalha (jul 1915): 42 mil baixas italianas vs. 50 mil austríacas; os austríacos chegaram a ajudar os italianos a recolher mortos.
Terceira batalha (out 1915): 67 mil baixas italianas vs. 40 mil austríacas; chuva torrencial e lama.
Quarta batalha (nov 1915): 49 mil baixas italianas vs. 30 mil austríacas; frio intenso, frostbite, tifo e cólera.
Ao todo, 12 batalhas do Isonzo; a 12ª (Caporetto, 1917) resultou no colapso do Segundo Exército italiano, com avanço austro-germânico de 100 km.
O general austríaco Svetozar Boroević
Boroević era um sérvio da Croácia, oficial do exército imperial desde os 10 anos, e o mais alto oficial eslavo do sul.
Adotou táticas defensivas: cinco linhas de arame farpado, esperar o inimigo a 100 jardas, atirar apenas então, e usar reservas para tapar brechas.
Seus soldados (eslovenos, croatas, bósnios) lutavam com 'toda a alma' por defenderem sua terra natal, ao contrário dos italianos.
Hindenburg disse: 'Os austro-húngaros lutaram contra os russos com a cabeça, mas contra os italianos com toda a alma'.
Condições dos soldados italianos
A maioria era camponesa analfabeta, mal alimentada e sem compreender o motivo da guerra.
Fardas em farrapos, botas desmanchando, falta de armas e munições; muitos atiravam em si mesmos para escapar.
As trincheiras rasas não protegiam; corpos insepultos apodreciam ao lado dos vivos.
Visitantes britânicos descreveram os acampamentos como 'campos de imundície', com condições sanitárias horríveis.
A Brigada Palenta (130 oficiais, 6 mil soldados) perdeu 154 oficiais e 4.276 homens até o fim de 1915 – quase toda a força original.
Consequências e legado
A Itália perdeu 689 mil soldados mortos em combate, cerca de 600 mil civis e 1 milhão de feridos graves.
No Tratado de Versalhes, recebeu Trieste, Ístria, Trentino e Tirol do Sul, mas não a Dalmácia, ilhas gregas ou parte da Turquia.
O sentimento de 'vitória mutilada' gerou ressentimento nacional, explorado por D'Annunzio (que ocupou Fiume em 1919) e Mussolini.
Mussolini, ex-soldado ferido no Isonzo, capitalizou a amargura e fundou o fascismo, usando táticas e retórica inspiradas em D'Annunzio.
O episódio ilustra como uma guerra de agressão mal planejada pode destruir um país e pavimentar o caminho para regimes totalitários.
Passos práticos
Leia 'The White War' de Mark Thompson para um relato detalhado da campanha italiana.
Visite os campos de batalha do Isonzo na Eslovênia, que hoje são um memorial turístico bem preservado.
Reflita sobre como o nacionalismo e a manipulação midiática podem levar nações a guerras desastrosas.
Frases marcantes
"A Itália é a prostituta da Europa. – Winston Churchill"
"Sacro egoísmo: a Itália deve completar e engrandecer a pátria. – Antonio Salandra"
"Bem-aventurados os jovens que têm fome e sede de glória, porque serão saciados. – Gabriele D'Annunzio"
"Os austro-húngaros lutaram contra os russos com a cabeça, mas contra os italianos com toda a alma. – Paul von Hindenburg"
"O que é uma matança! Quantas vidas jovens desperdiçadas. – Virgilio Bonamori, oficial italiano"
Mencionados no episódio
The White War - livro de Mark Thompson sobre a campanha italiana na Primeira Guerra Mundial
Gabriele D'Annunzio - poeta e protofascista italiano
Luigi Cadorna - general italiano, comandante supremo na frente do Isonzo
Svetozar Boroević - general austro-húngaro, defensor do Isonzo
Antonio Salandra - primeiro-ministro italiano (1914-1916)
Giovanni Giolitti - líder liberal, quatro vezes primeiro-ministro, opôs-se à guerra
Vítor Emmanuel III - rei da Itália
Benito Mussolini - futuro ditador fascista, então jornalista socialista
Batalha de Adwa (1896) - derrota italiana na Etiópia
Batalha de Caporetto (1917) - colapso italiano na 12ª batalha do Isonzo
Tratado de Londres (1915) - acordo secreto entre Itália e Aliados
Lloyds - patrocinador do episódio, banco britânico
The Times e The Sunday Times - patrocinadores do episódio