O QUE OS EUA ENTENDEM SOBRE MERCADO QUE O BRASIL AINDA NÃO CAPTOU? | Carteiros do Condado
Episódio do Stock Pickers discute o mercado americano vs. brasileiro, com insights de Felipe Helvas (MMR) sobre a indústria de fundos, inteligência artificial, fluxo estrangeiro, desafios dos multimercados e oportunidades em long-short e crédito. Destaque para a migração para ETFs nos EUA e a dificuldade de bater o índice.
David Fontinelli - host, analista XPRoss (Colazo) - host, analista XPFelipe Helvas - sócio da MMR, gestão de carteiras
Bolsa americana teve uma das recuperações mais rápidas da história em abril, com Nasdaq subindo 15%+ e S&P 10%+, impulsionada por resultados sólidos de tech (Nvidia, TSMC).
Nos EUA, 40% do patrimônio está em ETFs (gestão passiva), impulsionado por vantagens tributárias e regulação flexível; gestores ativos frequentemente perdem para o índice.
No Brasil, a alta da Petrobras em 2025 destruiu alfa dos gestores, enquanto utilities (Sabesp, Eletrobras) lideraram; fluxo estrangeiro é volátil e sensível ao cenário eleitoral.
Fundos multimercado macro têm desempenho fraco: primeiro quartil não bate CDI no ano; já fundos long-short mostram dispersão positiva, com 25% acima do CDI.
Nos EUA, hedge funds são dominados por estratégias de valor relativo (market neutral, event-driven, merge arb), com pouca exposição direcional, diferente do Brasil.
Mercado de crédito brasileiro carece de instrumentos para short, mas ETFs de crédito podem viabilizar novas estratégias (long-short de crédito).
Reestruturações societárias em gestoras brasileiras (ex: SPX) exigem atenção ao modelo de partnership e à retenção de talentos em momentos de estresse.
Geopolítica e posicionamento geográfico são cruciais para entender vantagens competitivas de países, como discutido no livro 'Prisioneiros da Geografia'.
Recuperação da Bolsa Americana e Inteligência Artificial
Em abril de 2025, Nasdaq subiu mais de 15% e S&P 500 mais de 10%, uma das maiores altas mensais da história, após drawdown de ~10% no início do ano.
A recuperação foi impulsionada por resultados sólidos de empresas de tecnologia, como Nvidia e TSMC, e pela narrativa de que os investimentos em IA são estruturais.
Gestores americanos estão otimistas com IA, mas não preocupados com disrupção de software; acreditam que softwares essenciais (ex: hospitais) são difíceis de substituir.
A gestora Electron (energia) aumentou exposição nos EUA de 1/3 para 70% do portfólio, apostando em investimentos em energia para sustentar a onda de tech.
Hedge funds de tech operam de forma tática: aumentam net short em momentos de manada (crowded trades) e reduzem exposição quando valuations sobem demais.
IA já impacta o mercado de trabalho: advogados juniores e analistas financeiros enfrentam dificuldades de emprego devido à automação.
Empresas como Reflection (open source americano) focam em proteger dados corporativos e governamentais no uso de IA.
Migração para ETFs e Gestão Passiva nos EUA
Nos últimos 15 anos, a assessoria financeira transacional caiu 22% nos EUA, enquanto os ativos em ETFs subiram 40% no mesmo período.
Hoje, ~40% do patrimônio dos americanos está em ETFs, veículos de gestão passiva com vantagens tributárias (sem comissões, ao contrário de fundos mútuos).
Regulação americana permite que ETFs façam short, alavancagem, derivativos e invistam no exterior; no Brasil, ETFs precisam seguir um índice (gestão passiva obrigatória).
Em um curso sobre Warren Buffett em Omaha, todos os gestores long-only apresentaram performance inferior ao S&P 500, algo tratado como normal nos EUA.
A dificuldade de bater o índice impulsiona a migração para ETFs e estratégias de alfa descorrelacionadas (ex: long-short, market neutral).
Bolsa Brasileira: Dispersão Setorial e Fluxo Estrangeiro
Em 2025, a Petrobras teve alta agressiva, impulsionada por guerra e fluxo estrangeiro, destruindo alfa dos gestores que estavam underweight no papel.
Utilities (Sabesp, Eletrobras) foram o setor que mais subiu desde 2025, após forte alta em 2024; estão no top 10 do Ibovespa.
O Ibovespa é concentrado: Petrobras, Vale e Itaú somam mais de 30% do índice; gestores tendem a ter menos exposição a Petrobras e Vale, gerando diferenças de performance.
Fluxo estrangeiro foi o principal motor da bolsa em janeiro-fevereiro, mas arrefeceu com a guerra e incertezas eleitorais (áudios de Vorcá e Flávio).
O cenário eleitoral brasileiro oscila: em dezembro, mercado temia vitória de Lula; em janeiro, otimismo com Flávio; agora, com áudios, chances de Lula reeleição aumentaram.
Juros futuros já não projetam cortes, e a inflação corrente está próxima da meta, mas o fiscal e o eleitoral geram volatilidade.
Fundos Multimercado: Desempenho e Posicionamento
Em abril de 2025, gestores de multimercado macro mantiveram posicionamento vendido em juros (apostando em queda), vendido em dólar e comprado em bolsas, apesar do estresse em março.
A dispersão de retornos é alta: primeiro quartil dos fundos macro não bate CDI no ano nem em 12 meses; apenas o primeiro decil (10% melhores) supera o CDI.
Fundos long-short brasileiros têm desempenho melhor: primeiro quartil entrega CDI + meio no ano; 25% dos fundos superam o CDI.
Long-short brasileiro é o equivalente ao market neutral americano, com exposição net baixa e operações de valor relativo entre pares de ações.
Nos EUA, hedge funds têm múltiplas mesas (ex: 138 mesas em uma gestora), com 30% em market neutral, 20-30% em event-driven/merge arb, e o restante em macro e crédito.
Estratégias de valor relativo são descorrelacionadas do portfólio tradicional (renda fixa pré-fixada e ações), ajudando a diversificar em cenários de inflação.
Desafios da Indústria de Multimercado no Brasil
Muitas gestoras brasileiras estão encolhendo (PL abaixo de R$ 1 bi), com demissões e fechamento de fundos; reestruturações societárias (ex: SPX) são frequentes.
O modelo de partnership é valorizado no Brasil, mas nos EUA é raro: gestores são donos do negócio e pagam bem os PMs sem necessariamente dar sociedade.
Em momentos de estresse, é crucial saber o tamanho ideal da equipe e o custo fixo; gestores que expandiram demais em times de dados e quant podem ter que cortar.
Fusões entre gestoras devem ser vistas com cautela: podem ser 'puxadinhos' de desespero, e a integração de equipes com egos diferentes é desafiadora.
A curadoria de gestores deve incluir análise do modelo de sociedade e da capacidade de reter talentos em cenários negativos.
Mercado de Crédito Brasileiro: Oportunidades e Instrumentos
O mercado de crédito high grade (debêntures, CRIs, CRAs) teve recuperação recente nas taxas, após período de estresse; fundos de crédito de 30 dias têm grande estoque.
Faltam instrumentos para operar short no crédito brasileiro: reverse repo, credit default swap (CDS) e total return swap (TRS) são soluções bilaterais com bancos.
ETFs de crédito podem viabilizar estratégias long-short, mas enfrentam barreiras: criação de índice de crédito é complexa e execução no mercado de balcão é difícil.
A gestora Roots Capital provocou que ativos de crédito são chamados de 'côncavos' (upside limitado, downside alto), mas isso é simplificação: preço de entrada e liquidez importam.
A análise de crédito deve considerar múltiplos fatores: risco de crédito, estrutura, liquidez, posicionamento de mercado, e não apenas carrego vs. recovery.
Geopolítica e Vantagens Competitivas
O livro 'Prisioneiros da Geografia' (Tim Marshall) explica como posicionamento geográfico, recursos naturais e cultura influenciam vantagens competitivas dos países.
Nos EUA, o governo Biden aumentou a burocracia para fusões e aquisições, reduzindo oportunidades para fundos event-driven; com Trump, o cenário se inverteu.
Fundos como Paint Water (80-85% América do Norte) esperam mais eventos corporativos com a desregulamentação de Trump, gerando alfa em merge arb.
A geopolítica é essencial para entender riscos de investir em emergentes: mesmo com políticas corretas, desafios geográficos podem limitar o crescimento.
Passos práticos
Para investidores brasileiros: considere alocar em fundos long-short de qualidade, que têm mostrado capacidade de gerar alfa acima do CDI, mesmo em cenário difícil.
Avalie a exposição a ETFs nos EUA como alternativa de baixo custo e vantagem tributária, mas esteja ciente de que bater o índice é raro.
Ao escolher gestoras de multimercado, priorize aquelas com modelo de sociedade claro, equipe enxuta e histórico de retenção de talentos em momentos de estresse.
Monitore o fluxo estrangeiro para o Brasil e o cenário eleitoral; momentos de pânico podem criar oportunidades táticas em ações e crédito.
No crédito, fique atento ao desenvolvimento de ETFs de crédito no Brasil, que podem abrir novas estratégias de hedge e arbitragem.
Leia 'Thinking in Bets' (Annie Duke) para melhorar a tomada de decisão sob incerteza, separando qualidade da decisão do resultado.
Assista ao episódio com João Emílio Neto (Stock Pickers) para aprender sobre gestão de pessoas e carreira no mercado financeiro.
Frases marcantes
"A gente viu uma história do ano em que começou com muita narrativa a respeito de bolha, de receio com os investimentos feitos pelas empresas de inteligência artificial, resultando em um drawdown de cerca de 10% pro Nasdaq."
"Nos Estados Unidos, praticamente 40% do patrimônio das pessoas já está dentro de cascas de gestão passiva, os famosos ETFs."
"Quando você vai comprar um fundo de 30, D60, D90 nessas horas, o investidor fica ainda muito receoso para fazer esse investimento mais estrutural."
"O que eu gosto de fazer é quando as coisas estão boas, o fundo tá grande, todo mundo feliz, eu gosto de fazer uma pergunta: qual que é o seu time ideal, quanto você precisa para pagar bem a sua equipe?"
"Lá fora, não existe praticamente modelo de partnership em várias casas. O que importa é dinheiro e performance."
"A grande conclusão é que você precisa ter mente aberta e ser cético em relação aos dogmas e paradigmas que a gente observou na indústria."
Mencionados no episódio
Nvidia - empresa de semicondutores, destaque em IA
TSMC - fabricante de chips taiwanesa
Electron - gestora americana focada em energia
Reflection - empresa americana de open source para IA
SPX - gestora brasileira de multimercado, passou por reestruturação
Roots Capital - gestora brasileira de crédito
JGP Crédito - gestora brasileira de crédito, liderada por João Emílio Neto
Pactual - banco de investimento brasileiro (atual BTG Pactual)
André Esteves - fundador do BTG Pactual
João Emílio Neto - CEO da JGP Crédito, ex-IP e STK
José Padilha - cineasta brasileiro
Thinking in Bets - livro de Annie Duke sobre tomada de decisão
Prisioneiros da Geografia - livro de Tim Marshall sobre geopolítica