Interest rates are soaring in Japan and around the world, which is not a good sign.
O episódio analisa a disparada histórica dos juros longos globais, com foco no Japão como o país mais vulnerável devido ao endividamento extremo, ao carry trade e à intervenção cambial. Fernando Ulrich explica as causas (petróleo, fiscal, demografia), os riscos de um efeito dominó e as implicações para investidores, sugerindo cautela e liquidez.
Os juros longos globais (EUA 30 anos >5,18%, Reino Unido 30 anos ~5,8%, Japão 40 anos >4%) estão nos maiores patamares desde 2007-2008, com alta rápida desde 2021.
O Japão é o país mais endividado do mundo (dívida/PIB >200%) e sofre pressão tripla: alta do petróleo, demografia declinante e desvalorização do iene.
A correlação entre o diferencial de juros EUA-Japão e a taxa de câmbio USD/JPY foi rompida em 2024, com o iene se depreciando mesmo com o diferencial caindo.
O governo japonês intervém no câmbio vendendo treasuries para comprar ienes, mas o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, se opõe a essa tática e prefere que o Japão suba juros.
Subir juros no Japão é fiscalmente perigoso: uma taxa de 3% consumiria quase toda a arrecadação tributária, agravando o déficit e a dívida.
O Fed realizou um 'rate check' em janeiro de 2025, pedindo cotações de USD/JPY, o que por si só valorizou o iene em ~4% — uma intervenção verbal coordenada.
Se os juros japoneses subirem demais, o BOJ pode comprar dívida pública (repressão financeira), o que dispararia ativos reais como ouro, Bitcoin e ações.
Para investidores, o cenário exige maior liquidez, caixa elevado e conhecimento profundo de cada alocação, devido ao risco de correção forte.
Disparada dos juros longos globais
Tesouro americano de 30 anos ultrapassou 5,18% em 19 de maio de 2025, maior desde meados de 2007; o de 10 anos testou 4,7%.
Movimento iniciou no final de 2021 e acelerou, afetando todos os países desenvolvidos.
Japão: juro de 10 anos a 2,79%, de 40 anos acima de 4%; taxa básica em 0,75%.
Reino Unido: 10 anos a 5,12% (maior desde 2008), 30 anos a 5,8% (maior desde meados dos anos 1990).
Alemanha: 30 anos a 3,18%; França: ~3,99% (maior desde 2008-2009); Itália: 3,96%.
A taxa forward de 10 anos para daqui 10 anos (10-year forward rate) também disparou, indicando desancoragem das expectativas de inflação.
Causas da alta dos juros
Choque do petróleo: guerra no Oriente Médio elevou combustíveis, pressionando inflação e forçando bancos centrais a suspender cortes de juros.
Questão fiscal: EUA, Reino Unido, Alemanha (gastos com defesa), França, Itália e Japão estão altamente endividados; dívida/PIB do Japão supera 200%.
Demografia: Japão enfrenta queda populacional severa; outros países também sofrem, mas podem mitigar com imigração.
Japão é importador líquido de energia, sofrendo pressão dupla com alta do petróleo e desvalorização do iene.
Japão: o elo mais frágil
Dívida/PIB >200% é a pior do planeta; dívida privada e corporativa também elevadas.
Carry trade: investidores tomam empréstimos em iene (juros baixos) e investem em ativos de maior retorno, conectando o Japão aos mercados globais.
A reversão do carry trade (compra de iene) pode causar volatilidade global.
Banco do Japão (BOJ) elevou a taxa básica para 0,75%, mas subir mais é arriscado: juros a 3% consumiriam quase toda a arrecadação tributária.
Déficit fiscal japonês ~2% do PIB; aumento de juros eleva gastos com juros da dívida, agravando o déficit.
Intervenção cambial e o conflito com os EUA
Japão intervém no câmbio vendendo treasuries (reservas em dólar) para comprar ienes e frear a desvalorização.
Em março de 2025, vendeu ~20 bilhões em títulos soberanos (provavelmente treasuries) e quase 20 bilhões em ouro.
Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, se opõe a essa venda de treasuries, pois eleva os juros americanos.
Bessent prefere que o Japão suba a taxa de juros, mas isso é fiscalmente inviável para o Japão.
Em janeiro de 2025, o New York Fed fez um 'rate check' (pedido de cotação USD/JPY), o que valorizou o iene em ~4% sem intervenção real — uma forma de pressão coordenada.
Possíveis cenários e medidas do Japão
Se os juros subirem, o BOJ pode comprar dívida pública para conter a alta (repressão financeira), o que dispararia ativos reais (ouro, Bitcoin, ações).
Outra opção: forçar poupadores japoneses a repatriar capital — o Japão tem ~4 trilhões de dólares em posição internacional líquida e ~10 trilhões em ativos externos.
Medidas mais drásticas: tabelar a taxa de juros longa (como na Segunda Guerra Mundial) ou intervenção direta nos mercados.
Qualquer sinal de desespero pode desencadear um efeito dominó nos mercados globais.
Implicações para investidores
Cenário macro é histórico e incerto: guerra no Oriente Médio, juros subindo, bolha de IA, riscos de correção.
Recomendação: manter-se líquido, elevar o nível de caixa e conhecer bem cada alocação da carteira.
Ativos reais (ouro, Bitcoin, ações) podem disparar se houver repressão financeira, mas também há risco de queda se o aperto continuar.
A volatilidade cambial e de juros exige cautela e planejamento financeiro independente.
Passos práticos
Avalie sua exposição a ativos de risco e aumente a liquidez da carteira.
Monitore os juros longos dos EUA e do Japão como sinalizadores de estresse macro.
Considere proteger-se contra desvalorização cambial, especialmente se tiver exposição a iene ou dólar.
Evite alavancagem excessiva em cenário de juros voláteis.
Busque aconselhamento financeiro independente para revisar a alocação de ativos.
Frases marcantes
"Os juros longos estão disparando o mundo afora e praticamente não há ninguém ileso a esse movimento que já é histórico."
"O Japão é o país mais endividado do planeta, pela questão do Carry Trade, que o conecta aos demais mercados financeiros."
"Se o Japão sobe a taxa de juros para 3%, possivelmente consumiria quase toda a arrecadação tributária do país."
"O Scott Bessent não quer essa forma de intervenção [venda de treasuries]; ele prefere que o Japão suba a taxa de juros."
"O mero pedido de cotação de câmbio já foi suficiente para valorizar o iene, porque o mercado se antecipa à intervenção."
"Se houver repressão financeira, ativos reais, ações de bolsa, ouro, Bitcoin, tudo tende a disparar."
Mencionados no episódio
Scott Bessent - Secretário do Tesouro dos EUA
Robin Brooks - Economista, ex-Goldman Sachs, autor do Substack
Satsuki Katayama - Ministra das Finanças do Japão
New York Fed - Banco da Reserva Federal de Nova York
Bank of Japan (BOJ) - Banco Central do Japão
Acordo de Mar-a-Lago - Plano macroeconômico de Trump para desvalorizar o dólar
Liberta Wealth - Consultoria financeira independente de Fernando Ulrich
Tesouro Americano de 30 anos - Título público dos EUA com vencimento em 30 anos
Tesouro Japonês de 40 anos - Título público do Japão com vencimento em 40 anos
Carry Trade - Estratégia de tomar empréstimo em moeda de juros baixos para investir em ativos de maior retorno
Rate check - Verificação de taxa de câmbio pelo Fed, sinalizando possível intervenção