AS TECNOLOGIAS QUE VÃO MUDAR O MUNDO NA PRÓXIMA DÉCADA | Market Makers #368
Neste episódio, Thiago Salomão entrevista Gui Peremutter, investidor de deep tech e fundador da Grides Capital, sobre as tecnologias que moldarão a próxima década: inteligência artificial como infraestrutura, biotecnologia, robótica, nova economia espacial e os desafios do Brasil nesse cenário. O papo aborda teses de investimento em 'inevitabilidades', cases como Anduril, Halter e Citovale, e reflexões sobre bolhas, regulação e o papel de figuras como Elon Musk e Sam Altman.
Thiago Salomão – host, fundador do Market MakersGui Peremutter – engenheiro, mestre em IA, investidor deep tech, fundador da Grides Capital
Deep tech é tecnologia baseada em ciência, com patentes e defensabilidade técnica, que cria algo novo e empurra a fronteira do possível.
A tese de investimento da Grides Capital foca em 'inevitabilidades': tendências inexoráveis como envelhecimento populacional, urbanização e avanço da IA.
IA está se tornando uma tecnologia de propósito geral, como a eletricidade, e servirá de infraestrutura para biotecnologia, robótica, manufatura e agricultura.
A próxima década trará robôs inteligentes (não necessariamente humanoides), economia espacial acessível e tratamentos eficazes para doenças neurológicas, oncológicas e autoimunes.
O Brasil é um celeiro acadêmico (14º em publicações de qualidade), mas sofre com burocracia, impostos e falta de ecossistema competitivo para deep tech.
Investir em venture capital exige paciência e disciplina: a lei das potências faz com que poucas empresas gerem a maior parte do retorno.
A atual euforia com IA e semicondutores pode ser uma bolha, mas os investimentos em infraestrutura são inevitáveis – o risco é de novas arquiteturas que tornem obsoletos os modelos atuais.
Empreendedores de deep tech são altamente qualificados e obstinados; mesmo quando a empresa não vinga, seus cérebros são frequentemente adquiridos por outras empresas (acqui-hire).
O que é Deep Tech e a jornada de Gui Peremutter
Deep tech é tecnologia profunda, associada à ciência, infraestrutura e inovação com propriedade intelectual e patentes, criando algo inédito.
Exemplo: empresas que desenvolvem proteínas que não existiam anteriormente para novas terapias.
Gui Peremutter é engenheiro de computação (PUC-Rio, 1994), mestre em engenharia elétrica com ênfase em IA (1996), vencedor do Prêmio Jovem Cientista (1997) e do Prêmio Jabuti (2020) pelo livro 'Futuro Presente'.
Passou 20 anos no mercado financeiro (Pactual, A20) em gestão de risco e alocação de ativos, antes de fundar a Grides Capital em 2016.
A ideia de unir deep tech e investimento surgiu em 2000, quando começou a receber pitches de startups de tecnologia de fronteira de colegas que concluíam doutorados.
A Grides Capital combina expertise em portfólio management e risco com conhecimento técnico-científico para avaliar startups de alta tecnologia.
O fundo investe em 'inevitabilidades': tendências que dificilmente serão quebradas, como aumento da expectativa de vida e urbanização global.
Inevitabilidades: as teses de investimento da Grides
A expectativa de vida global é de 74 anos; mais de 20 países já ultrapassam 82 anos. Doenças associadas ao envelhecimento (neurológicas, oncológicas, autoimunes) são o próximo grande desafio.
O mundo tornou-se mais urbano que rural em 2015, e a tendência de migração para cidades continua – cerca de uma Coreia do Sul de pessoas por ano.
Isso gera demandas em agritech (aumento de produtividade no campo), mobilidade urbana, segurança, energia e infraestrutura.
IA está se consolidando como tecnologia de propósito geral, assim como o fogo, a escrita, a eletricidade e o transistor.
Diferente da eletricidade, a IA evolui em ritmo muito mais acelerado, mas ainda é infraestrutura para aplicações em biotecnologia, robótica, manufatura, agricultura e serviços.
Exemplo de investimento baseado em inevitabilidade: a Control Labs (adquirida pelo Facebook em 2018) desenvolveu pulseira que lê ondas neurais para controlar menus – tecnologia que hoje equipa os óculos da Meta.
O que surpreende e o que está subestimado
Gui se surpreende com a dissonância cognitiva: apesar do acesso sem precedentes a informação de qualidade, há enorme produção e consumo de desinformação.
Cita a frase clássica: 'Nós sempre superestimamos os próximos 12 meses e subestimamos os próximos 10 anos' – atribuída a um dos pais da cibernética.
Para os próximos 10 anos, as inevitabilidades apontam para: robôs inteligentes (não necessariamente humanoides), economia espacial acessível (custo de 1 kg para o espaço caiu de US$ 10.000 em 1980 para menos de US$ 1.000 hoje), e tratamentos eficazes para doenças neurológicas, oncológicas e autoimunes.
A IA se tornará tão comum que em breve perguntaremos 'Usa AI?' ao escolher um hotel, assim como antes perguntávamos se tinha luz elétrica ou Wi-Fi.
A nova economia espacial incluirá mineração fora da Terra, indústrias em órbita baixa e geoestacionária, com oportunidades em dívida, equity e corporate finance.
Riscos, regulação e o lado humano da IA
Gui é cauteloso: 20 anos em risk management o ensinaram a pensar primeiro no que pode dar errado.
A frase 'dessa vez é diferente' já precedeu as maiores crises (1929, Nasdaq, mortgages). Com IA, o mesmo discurso aparece.
O maior risco não é a IA desenvolver consciência, mas sim a incapacidade das instituições regulatórias e da sociedade civil de se anteciparem às mudanças.
Agentes autônomos de IA, se mal codificados ou com permissões excessivas, podem causar danos reais – como bugs em contratos inteligentes que já causaram perdas milionárias.
A criação de 'linguagens próprias' por IAs não é evidência de conspiração, mas sim reflexo do treinamento em dados da internet (ex.: Reddit) que incluem teorias sobre máquinas dominando o mundo.
É essencial limitar as permissões de agentes de IA, assim como não se dá senha master a um funcionário novato.
O Brasil no ecossistema de Deep Tech
O Brasil ocupa a 14ª posição global em publicações e citações acadêmicas de qualidade em áreas como física, química, matemática e engenharias – base da deep tech.
Porém, o país figura mal em rankings de competitividade devido a burocracia, questões fiscais, trabalhistas e operacionais.
Startups de deep tech competem globalmente desde o nascimento, ao contrário de soft techs que resolvem problemas locais ('jabuticabas').
Gui organiza anualmente o Deep Tech Summit na USP, que em 2024 reuniu mais de 2.000 pessoas do Brasil e América Latina, com participação de investidores, empreendedores e governo.
O objetivo é transformar a excelência acadêmica em produção de riqueza, gerando empregos, tributos e prosperidade.
A comunidade de venture capital em deep tech é colaborativa e nichada, com especialistas em biotec, robótica, aeroespacial e IA.
Modelo de investimento da Grides Capital
A Grides adota uma estratégia híbrida: aloca em fundos de deep tech early stage (que filtram os melhores empreendedores) e faz investimentos diretos em cerca de 5 a 7 empresas por ano.
O portfólio total tem aproximadamente 300 empresas, das quais 20 são investimentos diretos.
A taxa de mortalidade é baixa porque o funil já é pré-filtrado por alguns dos melhores investidores de alta tecnologia do mundo.
A equipe central no Brasil é de três pessoas (Gui, sua irmã e uma diretora de operações), apoiada por consultores especializados por tema.
O valuation de entrada em early stage é baixo (ex.: Anduril entrou a ~US$ 35 milhões, hoje vale US$ 60 bilhões; Halter entrou a ~US$ 3 milhões, hoje vale US$ 2 bilhões).
A lei das potências faz com que poucas empresas (como Anduril) respondam por mais de 10% de um fundo.
Cases de sucesso: Anduril, Halter e Citovale
Anduril (defesa): fundada por Palmer Luckey (criador do Oculus), desenvolve sistemas de defesa do século XXI. Valuation atual: ~US$ 60 bilhões; IPO esperado antes de 2027, possivelmente acima de US$ 100 bilhões.
Halter (agritech): startup neozelandesa que cria coleiras inteligentes para gado, permitindo monitorar saúde e localização e controlar o deslocamento dos animais por vibrações. Retenção de clientes de 100%. Valuation atual: ~US$ 2 bilhões.
Citovale (biotec): desenvolve teste para septicemia em 10 minutos usando visão computacional e IA. Aprovado pelo FDA, em fase de revenue building. Valuation passou de ~US$ 50 milhões para ~US$ 300 milhões.
A septicemia mata mais que câncer nos EUA; a mortalidade aumenta 7% por hora, e o teste tradicional leva de 12 a 36 horas.
O método da Citovale: dois jatos de ar comprimem células sanguíneas; uma câmera de alta velocidade com IA analisa a deformação celular para diagnosticar risco de sepse.
Bolha de IA? Comparações históricas e visão de risco
Gui vê paralelos com a bolha da internet: investimentos maciços em infraestrutura (cabos, fibra) que hoje estão plenamente justificados, mas na época pareciam excessivos.
Os hiperescaladores (Google, Amazon, Microsoft) estão investindo ~US$ 800 bilhões em 2025 (vs. US$ 450 bi em 2024) em infraestrutura de IA.
O risco é que novas arquiteturas de software e hardware (ex.: modelos que exigem menos GPUs ou energia) tornem obsoletos os investimentos atuais.
Historicamente, a evolução tecnológica sempre trouxe ganhos de eficiência que mudam o paradigma.
Para venture capital early stage, a influência do mercado líquido é atenuada; valuations de empresas em estágio inicial são menos sensíveis a bolhas.
O 'reckoning' pode vir quando o mercado cobrar receitas que ainda não se materializaram, como ocorreu com a Cisco (levou 15 anos para recuperar o pico da bolha).
Opiniões sobre líderes tech: Elon Musk, Jensen Huang, Sam Altman, Jeff Bezos e David Baker
Elon Musk: gênio com histórico único (PayPal, SpaceX, Tesla), mas errático e polêmico. A Grides tem exposição à SpaceX via fundo, não diretamente, para mitigar risco de reputação.
Jensen Huang (Nvidia): mérito em maximizar o momento em que as GPUs, criadas para videogames, se tornaram essenciais para IA. A Nvidia investe em biotec e robótica via seu braço de venture.
Sam Altman (OpenAI): perdeu goodwill após o episódio do board; enfrenta concorrência de Anthropic, Perplexity, Google e modelos open source. Apesar de histórico de sucesso em venture, precisa reconquistar confiança.
Jeff Bezos: focado no Projeto Prometeus (IA na manufatura) com fundo de US$ 100 bilhões; a Amazon desenvolve chips próprios para data centers. A Alexa ainda não tem o 'cérebro' que o mercado espera.
David Baker (Univ. de Washington): ganhador do Nobel de Química 2024, trabalha na fronteira da biotecnologia com design de proteínas. Gui o descreve como extremamente humilde e um dos nomes mais importantes para a próxima década.
Ping-pong: livros, música, convidado e gentileza
Livro técnico: 'Scale' de Geoffrey West (Santa Fé Institute) – sobre as leis universais de escala em sistemas biológicos e artificiais.
Livro tema livre: 'Material World' de Ed Conway – sobre a importância de materiais como concreto, cobre, aço e areia para o mundo físico, mesmo na era digital.
Música: 'Telegraph Road' da banda Dire Straits (14 minutos) – uma saga sobre construção e progresso das telecomunicações, alinhada com a tese de investimento em infraestrutura.
Convidado sugerido: uma figura com visão de estado para ciência, tecnologia e inovação no Brasil, que ajude a superar o gap entre excelência acadêmica e competitividade.
Maior gentileza: conselho de Paulo Mozar Gami Silva (ex-chefe na IBM) – disse que Gui estava na interseção entre capacidade técnica e comunicação, e que deveria aproveitar essa rara combinação. Isso influenciou toda sua carreira.
Passos práticos
Para investidores: considere exposição a deep tech via fundos especializados, que filtram riscos e oferecem acesso a startups de fronteira.
Para empreendedores: foque em construir defensabilidade técnica (patentes, propriedade intelectual) e busque investidores que agreguem conexões e expertise setorial, não apenas capital.
Para o Brasil: participe de eventos como o Deep Tech Summit para conectar academia, governo e investidores; pressione por políticas que reduzam burocracia e incentivem a inovação.
Para profissionais: desenvolva a interseção entre conhecimento técnico e habilidades de comunicação – é um diferencial competitivo raro e valioso.
Para o público geral: ao usar ferramentas de IA, esteja ciente dos riscos de agentes autônomos e limite permissões; questione narrativas apocalípticas e entenda que 'linguagens próprias' de IA são reflexo dos dados de treinamento.
Frases marcantes
"Nós sempre superestimamos os próximos 12 meses e nós sempre subestimamos os próximos 10 anos."
"A inteligência artificial saiu do terreno de ser uma inovação e está virando o que a gente conhece como uma tecnologia de propósito geral."
"O mundo não vai desacelerar pra gente. O mundo vai falar: 'Não, pera aí que o Brasil tem um catch-up para fazer'."
"A gente tá entrando na fase daqui a muito pouco tempo que você vai perguntar: 'Usa AI?'"
"Se der errado, eu tô no risco do investidor chegar para mim e falar: 'Mas também, né, você investiu em fulano?' – Elon Musk está nessa categoria."
"Existe um conjunto de pessoas que é muito técnico e um conjunto que consegue comunicar ideias. Você está na interseção – aproveite isso."
Mencionados no episódio
Grides Capital – gestora de venture capital focada em deep tech, fundada por Gui Peremutter
Anduril – empresa de defesa fundada por Palmer Luckey, valuation atual ~US$ 60 bilhões
Halter – startup neozelandesa de coleiras inteligentes para gado, valuation ~US$ 2 bilhões
Citovale – startup de diagnóstico rápido de septicemia usando IA, aprovada pelo FDA
Control Labs – adquirida pela Meta em 2018, tecnologia de pulseira neural para controle de menus
SpaceX – empresa de exploração espacial de Elon Musk, IPO esperado
Tesla – montadora de veículos elétricos de Elon Musk
Nvidia – fabricante de GPUs, liderada por Jensen Huang, valor de mercado ~US$ 5 trilhões
OpenAI – criadora do ChatGPT, liderada por Sam Altman
Amazon – gigante de e-commerce e cloud, liderada por Jeff Bezos
David Baker – ganhador do Nobel de Química 2024, Universidade de Washington
Deep Tech Summit – evento anual na USP organizado por Gui Peremutter
Livro 'Scale' – de Geoffrey West, sobre leis de escala
Livro 'Material World' – de Ed Conway, sobre materiais essenciais
Música 'Telegraph Road' – da banda Dire Straits
Paulo Mozar Gami Silva – ex-chefe de Gui na IBM, deu conselho crucial sobre interseção técnica-comunicação