Mauro Ramos, dublador de Shrek, Pumba, Capitão Barbossa e muitos outros, conta sua trajetória desde o teatro e rádio até se tornar um dos maiores nomes da dublagem brasileira. Ele discute os bastidores da profissão, a evolução técnica, a perda de liberdade criativa com a padronização, o impacto emocional do trabalho e os desafios atuais do mercado, incluindo a concorrência de estúdios argentinos e a inteligência artificial.
Igor (Flow) – host do podcastMauro Ramos – dublador veterano (Shrek, Pumba, Capitão Barbossa)
A dublagem brasileira é considerada uma das melhores do mundo, mas perdeu espaço criativo porque os clientes hoje exigem imitação do original em vez de adaptação cultural.
Mauro começou no teatro em 1979, passou pelo rádio (Cidinha Campos) e entrou na dublagem em 1989 na Herbert Richards, onde aprendeu na prática.
O primeiro grande personagem de Mauro foi o Pumba (O Rei Leão, 1994), que abriu portas para Shrek, Capitão Barbossa, Coisa (Quarteto Fantástico) e muitos outros.
A dublagem exige intuição e decisão rápida: o ator só vê o texto e a cena na hora, sem estudo prévio, e precisa interpretar de forma crível.
O mercado de dublagem piorou financeiramente: para ter o mesmo poder aquisitivo de 30 anos atrás, é preciso trabalhar o triplo e ganhar metade.
A ética e o companheirismo entre dubladores diminuíram; hoje há diretores inexperientes, produção escalando sem critério e profissionais que se autopromovem antes de terem 4-5 anos de estrada.
Mauro tem neuropatia periférica e três hérnias de disco, usa bengala para caminhar longas distâncias, mas não deixa de trabalhar; considera a dublagem sua realização como ator.
O momento mais emocionante da carreira foi quando uma mãe em depressão pela perda do filho disse que a dublagem de Jimbe (One Piece) a salvou.
Início no teatro e rádio
Mauro é ator desde 1979; os primeiros 10 anos foram no teatro, com trabalhos humildes como fantasiar-se de cachorro em 'O Rapto das Cebolinhas'.
Para se sustentar, foi auxiliar de orçamentista na GM, office boy e cantor na noite com o grupo 'Sam Brincando', fazendo paródias.
Conheceu o jornalista Marcos Sales, que o levou ao Jornal Dia; depois foi trabalhar com Cidinha Campos na Rádio Tupi, onde fez de tudo: arquivo, produção, personagens e paródias.
Na rádio, aprendeu na prática com Cidinha, que o jogava em desafios sem tutoria; isso o preparou para a dublagem.
Também trabalhou no programa 'Patrulha da Cidade' e no rádio-teatro da emissora, sempre ao vivo.
Apesar de gostar do rádio, seu sonho era ser ator de televisão, mas ele se considera 'feio' e nunca foi chamado.
Entrada na dublagem e a Herbert Richards
Em 1989, Mário Monjardim Filho (dublador do Salsicha) o convidou para fazer um teste na Herbert Richards, o maior estúdio da época.
Mauro foi três vezes; na terceira, foi contratado como funcionário. Aprendeu tudo trabalhando dia inteiro no estúdio.
A Herbert Richards dominava o mercado porque Herbert era amigo dos diretores da Globo e distribuía a Warner no Brasil; a Globo mandava todos os pacotes para ele.
O irmão de Herbert, Eurico, era o gênio técnico que garantia a qualidade; Herbert era o relações-públicas.
Naquela época, a dublagem era feita em película 16mm ou 35mm, sem som de referência na gravação; erros obrigavam a reiniciar a cena inteira, gerando tensão entre os atores.
Com a fita magnética (VHS), veio o som de referência, mas ainda com limitações: todos os atores gravavam juntos, e um erro de um obrigava todos a refazer.
Evolução técnica e mudanças no mercado
A digitalização pulverizou os estúdios: equipamentos menores e mais baratos permitiram que muitos estúdios pequenos surgissem, quebrando o monopólio da Herbert.
Hoje é possível gravar em casa; na pandemia, Mauro improvisou um estúdio dentro de uma banheira de hidromassagem com espuma e um microfone emprestado.
A gravação remota ainda é problemática porque cada microfone e ambiente gera diferenças que o mixador tem dificuldade em equalizar; por isso, os clientes preferem gravação presencial.
O mercado de streaming trouxe mais volume, mas o trabalho é distribuído entre Rio, São Paulo e até Argentina (que faz reality shows e documentários mais baratos).
A inteligência artificial (IA) é uma preocupação, mas Mauro acredita que não vai acabar com a dublagem profissional, assim como o teatro amador não acaba com o profissional.
O poder aquisitivo dos dubladores caiu: hoje é preciso trabalhar o triplo para ganhar metade do que se ganhava há 30 anos.
A arte da dublagem: versão brasileira vs. imitação
Mauro defende que dublagem não é tradução, mas 'versão brasileira': adaptar o texto e a interpretação para a cultura local, como foi feito em 'A Nova Onda do Imperador' (adaptado por Garcia Júnior) e 'As Branquelas'.
Antigamente, os clientes davam liberdade criativa; hoje exigem que o dublador imite o original, o que torna o trabalho medíocre.
Os grandes dubladores dos anos 60/70 inventaram as técnicas da dublagem porque tinham liberdade; hoje não se inventa mais nada, apenas se presta homenagem.
Mauro cita que a dublagem brasileira é elogiada internacionalmente, mas o excesso de controle dos clientes está matando a criatividade.
Ele ressalta que o diretor de dublagem deveria pesquisar o produto antes, mas hoje a produção escala os atores e o diretor muitas vezes não viu o filme, deixando o ator 'se virar'.
Personagens marcantes e desafios
Pumba (O Rei Leão, 1994) foi o primeiro grande personagem e o único que Mauro tatuou; ele abriu portas para Shrek, Capitão Barbossa, Coisa (Quarteto Fantástico), Sullivan (Monstros S.A.), Aku (Samurai Jack), Jimbe (One Piece) e muitos outros.
Mauro tem orgulho do Capitão Barbossa (Piratas do Caribe 1 e 3) porque sente que 'não sou eu, é o personagem' – o ápice da dublagem.
O trabalho mais difícil foi dublar Geoffrey Rush em 'Shine' (sobre um pianista com problemas mentais): o ator falava sem pausas por um minuto, rindo e reagindo; qualquer erro exigia recomeçar tudo, e Mauro suava de concentração.
Gary Oldman em 'O Destino de uma Nação' (Churchill) também foi desafiador e gratificante.
Em animações, destaca 'Planeta do Tesouro' (o pirata Android) como um trabalho que considera nota 10.
Mauro é conhecido por vozes de 'paizão compreensivo' (gordo, careca, negão), um clichê que ele aceita, mas acha limitante.
Star Talents e o caso Bussunda/Shrek
Mauro foi o primeiro dublador de Shrek no Brasil, mas a distribuidora substituiu por Bussunda (que se parecia fisicamente com o ogro) para usar sua fama.
Mauro não ficou chateado: 'já tinha recebido meu cachê, o dono da bola é quem escala o time'.
Após a morte de Bussunda, a DreamWorks pediu que Mauro voltasse a dublar Shrek a partir do terceiro filme, ignorando um concurso que a mídia queria fazer.
Mauro considera os Star Talents importantes porque popularizaram a dublagem e mostraram ao público o que é a profissão, mas critica quando não são bem dirigidos (exemplo: Pit em Mortal Kombat).
Ele defende que atores famosos podem dublar se forem adequados ao papel e bem orientados.
Ética, profissionalismo e o mercado atual
A geração de Mauro (Márcio Simões, Manolo Rey, Marco Ribeiro, Mário Jorge) trouxe mais ética e respeito aos técnicos de áudio, que antes eram humilhados.
Hoje, muitos iniciantes se autointitulam dubladores após poucos meses, postam cartazes falsos e reclamam de 'panelinha' quando não são chamados para papéis principais.
Mauro afirma que leva de 4 a 5 anos para formar um dublador funcional (pontual, tecnicamente capaz e artisticamente consistente).
A produção hoje escala os atores, não o diretor; isso reduz a qualidade porque o diretor perde o controle artístico.
Atrasos são um problema recorrente entre novatos, comprometendo a agenda de todo o estúdio.
Mauro critica a falta de acordo coletivo de trabalho e a contratação de diretores inexperientes para pagar menos.
Saúde e vida pessoal
Mauro tem neuropatia periférica (perda de mielina nos nervos de pés e mãos) e três hérnias de disco na lombar (uma com 65% de compressão).
A primeira crise foi aos 46-47 anos; ficou acamado 4 meses, usou muletas canadenses e hoje usa bengala para caminhar mais de 100 metros, pois a compressão causa dormência da cintura para baixo.
Os médicos desaconselham cirurgia devido ao risco de lesão no nervo ciático; ele fortalece a musculatura com Pilates quando pode.
Mauro tem 65 anos, já foi casado três vezes ('acredito no casamento, mas tenho muitas dívidas') e não tira férias há 39 anos.
Ele cuida da voz evitando gripes, mas não tem frescuras: bebida gelada para tons agudos, quente para graves; fumou no passado, mas parou.
Impacto emocional e legado
O momento mais emocionante foi em uma convenção em São José dos Campos: uma senhora disse que a dublagem de Jimbe (One Piece) a tirou de uma depressão profunda após a morte do filho.
Mauro reflete que o dublador não tem ideia do alcance do seu trabalho – pode estar na casa de alguém no Marajó, no Acre ou no Rio Grande do Sul ao mesmo tempo.
Ele vê a dublagem como uma responsabilidade, não como glamour; a realidade é pegar ônibus, levar marmita e se deslocar entre estúdios o dia todo.
Mauro se considera um ator realizado, não frustrado; a dublagem é sua forma de atuar e ele espera não ser esquecido.
Dublagem internacional e comparações
A Alemanha tem o maior mercado de dublagem da Europa e já resolveu questões de reserva de mercado e IA; a Itália também tem leis que protegem o setor.
Portugal tem dublagem de cinema de qualidade, mas a dublagem portuguesa soa engraçada para os brasileiros.
Na Itália, tudo é dublado e os italianos valorizam muito o idioma; na França, falar francês é essencial para ser bem tratado.
Mauro cita Mel Blanc (EUA) como o maior dublador de todos os tempos, por fazer sozinho as vozes de Perna Longa, Patolino, Frajola, Piu-Piu etc. na era pré-computador.
No Brasil, os irmãos Casarré são referência na dublagem dos desenhos da Hanna-Barbera.
Passos práticos
Se você é fã de dublagem, valorize o trabalho dos dubladores e entenda que eles não têm glamour – são profissionais que enfrentam trânsito, marmita e longas jornadas.
Ao contratar um dublador ou diretor, dê liberdade criativa para a versão brasileira, em vez de exigir imitação do original.
Para quem quer ser dublador, esteja disposto a aprender por 4-5 anos antes de se considerar profissional; evite se autopromover prematuramente.
Se você é diretor de dublagem, assista ao produto antes, pesquise e trate a equipe técnica com dignidade.
Apoie a dublagem brasileira consumindo conteúdo dublado e divulgando o trabalho dos profissionais.
Cuide da saúde vocal: evite fumar, hidrate-se e adapte a temperatura da bebida ao tipo de voz que precisa fazer.
Frases marcantes
"O dublador é um astro que desponta para o anonimato."
"A gente não tem ideia do alcance que o nosso trabalho tem. Você pode estar na ilha de Marajó e assistir o mesmo filme que o cara no Acre – a gente entra na casa das pessoas."
"Se eu convenci um americano que não entende o que eu tô falando, é porque eu tô bem na fita pra caramba."
"O teatro é o templo do ator. Ali é onde o ator é total, esplêndido. Meu lugar não é na plateia."
"Não trabalho com mediocridade. Mesmo que o produto seja uma bosta, vou me esforçar pra fazer algo decente pro espectador."
"A maior parte do pessoal que curte One Piece já curtia nos mangás. Eu só fiquei conhecendo o personagem quando comecei a dublar."
Mencionados no episódio
Herbert Richards – maior estúdio de dublagem do Brasil nas décadas de 70-90
Cidinha Campos – radialista e professora de Mauro na Rádio Tupi
Mário Monjardim Filho – dublador do Salsicha, que apresentou Mauro à dublagem
Bussunda – humorista que dublou Shrek nos dois primeiros filmes
Mel Blanc – dublador americano que fez as vozes de Perna Longa, Patolino, Frajola etc.
Irmãos Casarré – dubladores brasileiros referência em Hanna-Barbera
Garcia Júnior – adaptador de 'A Nova Onda do Imperador'
Pit – cantora que dublou em Mortal Kombat e foi mal dirigida
One Piece – anime em que Mauro dubla Jimbe
Shine (1996) – filme com Geoffrey Rush, o trabalho mais difícil de Mauro
O Destino de uma Nação (2017) – filme com Gary Oldman como Churchill
Planeta do Tesouro (2002) – animação em que Mauro dublou o pirata Android
Quem Pensa Enriquece – livro narrado por Mauro na Audible
ACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) – instituição apoiada pelo Flow