O BANCO CENTRAL ESTÁ FICANDO FLEXÍVEL DEMAIS PARA CORTAR JUROS? | Risco Brasil #44
No episódio 44 do Risco Brasil, os ex-diretores do Banco Central Fábio Cantu e Tony Volpon analisam a controversa decisão do COPOM de cortar a Selic para 14,25% enquanto a inflação projetada sobe, discutem o cenário fiscal e eleitoral brasileiro, e comparam com a política monetária dos EUA sob o novo presidente do Fed, Kevin Warsh.
Henrique Stetter (host, apresentador do Risco Brasil)Thiago Salomão (host, apresentador do Risco Brasil)Fábio Cantu (ex-diretor do Banco Central, economista)Tony Volpon (ex-diretor do Banco Central, economista)
O COPOM cortou a Selic para 14,25% mesmo com a inflação projetada subindo, alongando o horizonte de análise para 2028, o que foi criticado como 'a decisão mais estranha da história'.
A falta de comunicação clara do BC sobre os motivos do corte – possivelmente medo de quebradeira ou efeitos não lineares – gerou perda de credibilidade, mas a ata pode recuperá-la.
A taxa neutra de juros no Brasil está muito mais alta (estimada em 8% real) do que o BC supõe, devido ao fiscal expansionista e à tributação sobre poupadores, exigindo Selic de 16-17% para conter a inflação.
O cenário fiscal é insustentável: dívida cresce com juros reais elevados, e o modelo de 'tributar e distribuir' do governo Lula 3 reduz a poupança líquida, elevando o juro neutro.
A eleição de 2026 é incerta: Lula lidera no Polymarket (56%), mas tem teto de 48% nas pesquisas; Renan Santos (Partido Missão) surge como alternativa viável por ter baixa rejeição e propostas fiscais claras.
O novo presidente do Fed, Kevin Warsh, sinalizou meta de inflação de 2% e pode subir juros, o que apertaria as condições financeiras globais e dificultaria a política monetária brasileira.
O investimento em IA nos EUA está gerando um boom de gastos em infraestrutura (data centers), mas o retorno pode demorar, criando risco de correção na bolsa e volatilidade.
Apesar das críticas, o presidente do BC, Galípolo, tem conseguido barrar indicações políticas e manter a independência técnica, mas a credibilidade está em jogo após essa decisão.
Decisão do COPOM: corte de juros com inflação subindo
O COPOM cortou a Selic de 14,5% para 14,25% por unanimidade, terceiro corte seguido desde março, mas o mercado já esperava.
A projeção de inflação do BC subiu: 2027 foi revisada de 3,5% para 3,7%, acima da meta de 3%, e o horizonte de análise foi esticado até 2028.
O mercado revisa a inflação para cima há 15 semanas consecutivas (IPCA projetado em 5,33% no Focus).
Fábio Cantu chamou a decisão de 'estranha' e criticou o argumento de que a inflação ficaria abaixo da meta após 2028 – isso é normal para um BC que cumpre a meta na média.
Tony Volpon disse que o BC fez uma 'grande digressão de simulações' para justificar o corte, sem assumir a aposta contra a própria modelagem.
A comunicação foi 'envergonhada' – o BC não explicou se tem medo de um colapso econômico (efeito não linear) que justificasse o corte.
A ata (a ser divulgada) é crucial para recuperar credibilidade; se vier dura, pode reverter parte da perda.
Taxa neutra de juros e o fiscal expansionista
Cantu e Volpon concordam que a taxa neutra de juros real no Brasil é muito maior que os 5% estimados pelo BC – provavelmente 8% ou mais.
Há 4 anos o BC revisa o hiato do produto para cima, indicando que a economia está mais aquecida que o previsto, sinal de juro neutro elevado.
O governo Lula 3 aumentou gastos e tributação, mas tributou principalmente empresas e ricos (que poupam), reduzindo a poupança líquida da economia.
Isso força a taxa de juros a subir para equilibrar oferta e demanda por crédito, elevando o juro neutro.
Com Selic real entre 8-10% desde 2023, a inflação se mantém entre 4-4,5%, mostrando que a política não é contracionista o suficiente.
Para levar a inflação à meta de 3%, a Selic precisaria estar entre 16-17%, mas isso pode gerar uma crise de crédito e quebradeira.
Risco de crise não linear e comparação com 2014-2015
Volpon alerta para semelhanças com 2014: economia aparentemente estável, mas com desequilíbrios fiscais e inflação resistente.
Em 2015, a economia desabou de forma não linear após a reeleição de Dilma, surpreendendo as projeções.
Cantu vê o cenário atual como 'idêntico' ao de Dilma 2, com mesmo padrão de gastos e tributação, e mesmo risco de crise.
A diferença é que hoje o BC não está manipulando o câmbio com swaps, mas o fiscal está igualmente descontrolado.
O 'coiote' (mercado) já passou do penhasco fiscal, mas ainda não olhou para baixo – a crise pode vir a qualquer momento, especialmente após a eleição.
Política monetária nos EUA: Fed sob Kevin Warsh
Kevin Warsh, novo presidente do Fed, fez uma primeira aparição dura, mas sem dar forward guidance – mudou a comunicação para menos transparência.
Ele afirmou que a meta de inflação é 2% e que nenhuma das forças-tarefa vai rever a meta.
O mercado passou a precificar alta de juros nos EUA (0,75 pp nas próximas reuniões, segundo Bank of America).
Cantu acredita que Warsh tentará usar a redução do balanço (quantitative tightening) como alternativa à alta de juros, para adiar o aperto.
Volpon acha que o Fed vai subir juros mesmo, pois a economia está forte (investimento em IA) e a inflação teima em ficar acima de 3%.
O aperto nos EUA dificulta a vida do Brasil: pressiona o câmbio, eleva os juros futuros e reduz o espaço para cortes adicionais.
Impacto da inteligência artificial na economia
Pesquisas com CEOs e CFOs indicam que o impacto da IA no curto prazo é quase zero, mas será grande e está iminente.
O investimento em IA está transformando empresas de tecnologia (Google, Facebook) de asset-light para asset-heavy, com altos gastos em data centers e dívida.
Isso gera um boom de investimento que pode não se traduzir em receita rapidamente, criando risco de correção na bolsa.
Cantu vê potencial aumento de produtividade, mas com realocação de empregos – economistas juniores, por exemplo, podem ser substituídos por IA.
Volpon destaca que os valuations de empresas como SpaceX (60x receita) exigem crescimento exponencial, o que pode não se concretizar no curto prazo.
Cenário eleitoral brasileiro e o Polymarket
No Polymarket, Lula subiu para 56%, Flávio caiu para 24%, Renan Santos tem 14% – Lula atingiu o maior nível desde janeiro.
Cantu acredita que, se a eleição fosse amanhã, Lula venceria, mas eventos imprevisíveis (facada, etc.) podem mudar o cenário.
Volpon (que apoia Renan) vê Lula com teto de 48% nas pesquisas; Renan pode crescer por ser pouco conhecido e ter baixa rejeição, além de propostas fiscais claras.
O mercado financeiro começa a olhar para Renan, especialmente após elogios de Luiz Stulberger (Verde Asset), que destacou seu 'sincericídio' ao falar de ajuste fiscal.
A campanha de Renan começou atrasada (partido aprovado recentemente pelo TSE), mas ele pode surpreender se conseguir se tornar conhecido até outubro.
Independência do Banco Central e riscos de politização
Houve indicações políticas para diretorias do BC, mas Galípolo conseguiu barrar as piores, mantendo a competência técnica.
Cantu confia que Galípolo continuará a segurar o presidente Lula e evitar aparelhamento, pois tem habilidade política e quer construir carreira no mercado.
Volpon lembra que Tombini (ex-presidente do BC) teve que se exilar após ser queimado politicamente – Galípolo não deve repetir o erro.
Os próximos cargos no BC serão cruciais; se Galípolo conseguir manter indicações técnicas, a credibilidade pode ser preservada.
Debate sobre a meta de inflação
Cantu é contra mudar a meta de inflação (atualmente 3%): subir para 4% não resolve o problema fiscal (impacto ínfimo no superávit primário) e só gera mais inflação e juros nominais.
Mudar a meta agora seria 'confessar o fracasso' – o correto é cumprir a meta por um ano antes de qualquer discussão.
Volpon concorda: subir a meta sem credibilidade piora a situação, pois o mercado ajusta as taxas para cima, aumentando o déficit nominal.
O governo pode tentar elevar a meta para afrouxar as condições financeiras, mas o mercado não é bobo e puniria com juros mais altos.
Passos práticos
Dolarizar parte do patrimônio via Nômade (cupom MMAKER50 para cashback) como proteção contra riscos fiscais e cambiais brasileiros.
Acompanhar a ata do COPOM (divulgação amanhã) para avaliar se o BC recupera credibilidade ou sinaliza mais cortes.
Monitorar o Polymarket e pesquisas eleitorais para antecipar movimentos de mercado conforme o cenário político evolui.
Reduzir exposição a ativos de renda fixa brasileira de longo prazo, dado o risco de crise fiscal e juros reais elevados.
Ficar atento às decisões do Fed: se subir juros, pode pressionar o real e exigir Selic ainda mais alta no Brasil.
Considerar investimentos ligados a IA, mas com cautela devido ao risco de bolha e correção nos valuations.
Frases marcantes
"Foi a decisão mais estranha da história do COPOM. Eles cortaram juros mirando uma inflação que eles mesmos enxergam acima da meta."
"O BC fez uma grande digressão de simulações para justificar o corte, mas não teve a coragem de assumir que estava apostando contra a própria modelagem."
"Se a inflação está em 3% e vai para 3%, você não corta juros. É simples assim. O BC está enxergando algo que não contou pra gente."
"O coiote já passou do penhasco fiscal, mas ainda não olhou para baixo. A crise pode vir a qualquer momento, especialmente depois da eleição."
"O Galípolo é uma fera em navegar a política e segurar o presidente. Ele conseguiu barrar indicações políticas e manter a competência técnica no BC."
"Mudar a meta de inflação agora é confessar o fracasso. Primeiro cumpre a meta por um ano, depois a gente discute."
Mencionados no episódio
COPOM (Comitê de Política Monetária) – órgão do BC que decide a Selic
Selic (taxa básica de juros) – atualmente em 14,25%
Boletim Focus – pesquisa semanal do BC com projeções de mercado
Polymarket – plataforma de apostas em eventos políticos
Kevin Warsh – novo presidente do Federal Reserve (Fed)
Galípolo – presidente do Banco Central do Brasil
Fábio Cantu – ex-diretor do BC, convidado
Tony Volpon – ex-diretor do BC, convidado
Renan Santos – candidato à presidência pelo Partido Missão (MBL)
Luiz Stulberger – gestor da Verde Asset Management
Nômade – plataforma de investimentos no exterior, patrocinadora
Bank of America – banco que prevê alta de 0,75 pp nos juros do Fed
Partido Missão – partido de Renan Santos, aprovado recentemente pelo TSE
Tombini – ex-presidente do BC, que teve carreira prejudicada após mandato