Eduardo Del Giglio, CEO e cofundador da Caju, conta sua trajetória empreendedora desde um aplicativo de diaristas até criar uma plataforma de benefícios flexíveis que usa arranjo aberto (Visa) para oferecer VR, VA, vale-cultura e outros, com foco em experiência do usuário e ecossistema de RH. Ele discute desafios de regulação, lobby, uso de IA e dá conselhos para jovens empreendedores.
Igor (Flow Podcast) - host e empreendedorEduardo Del Giglio - CEO e cofundador da Caju
A Caju resolveu o problema de múltiplos cartões de benefícios ao unir VR, VA, cultura, saúde e educação em um único cartão Visa de arranjo aberto, aceito em qualquer lugar.
O mercado de benefícios tradicional era ineficiente porque os players ganhavam muito com taxas altas e arranjos fechados, sem incentivo para inovar.
A flexibilidade é o diferencial: o trabalhador pode escolher como alocar sua verba entre diferentes categorias de benefícios, algo que o RH não conseguia operacionalizar.
Eduardo vendeu sua primeira startup (aplicativo de diaristas) em 2016 e foi para a McKinsey, onde aprendeu sobre marca, pessoas e valores, além de conhecer o mercado de benefícios.
A regulação do setor mudou com decretos em 2021 e 2023, e a Caju precisou fazer lobby em Brasília para explicar seu modelo e garantir um ambiente competitivo.
IA está sendo usada na Caju para produtividade do time de desenvolvimento, atendimento ao cliente e futuramente para tornar processos de RH mais 'mágicos' e eficientes.
O maior desafio interno de Eduardo é a comunicação da estratégia para a equipe, especialmente em um ambiente que exige agilidade.
Para novos empreendedores, o conselho principal é não perder tempo: se perceber que algo não vai dar certo, pivote ou abandone rapidamente, pois tempo é o ativo mais valioso.
Trajetória empreendedora: do app de diaristas à McKinsey
Eduardo sempre quis empreender, influenciado por família de imigrantes e empreendedores liberais.
Formou-se em Economia, mas nunca se viu como executivo corporativo; pensava em trabalhar com produção de material didático.
Primeira ideia: site de diaristas (2013), onde o cliente pagava via PayPal e a plataforma repassava o valor à diarista, ficando com uma comissão.
O negócio cresceu com a PEC das Domésticas (governo Dilma), que encareceu a CLT doméstica e aumentou a demanda por diaristas.
A operação era caótica: Eduardo ligava para diaristas às 6h para confirmar serviços, lidava com desistências e clientes insatisfeitos.
O maior problema era o alto turnover: clientes e diaristas trocavam contatos após o primeiro serviço, eliminando a plataforma.
Em 2016, vendeu sua parte na empresa (que ainda existe, fundida com concorrente) e foi para a McKinsey como consultor estratégico.
Na McKinsey, aprendeu frameworks, lógica e a importância de marca, pessoas e valores – coisas que fazia errado na primeira empresa.
Sentia desconforto como consultor por não ter 'agency' (sensação de dono) e por ver clientes enganando seus chefes.
Descoberta do mercado de benefícios e nascimento da Caju
Na McKinsey, Eduardo conheceu o mercado de benefícios e se encantou com a oportunidade, inspirado pela experiência mobile dos neobanks (ex: Nubank).
Percebeu que os players tradicionais (VR, VA) usavam arranjos fechados, cobravam taxas altíssimas dos restaurantes e ofereciam experiência ruim ao trabalhador.
A lógica estava invertida: o benefício deveria servir o trabalhador, mas as empresas focavam em lucrar com taxas e trazer clientes corporativos.
A Caju nasceu com a proposta de usar arranjo aberto (bandeira Visa), aceito em qualquer restaurante ou supermercado do Brasil, sem restrições.
Isso eliminou a necessidade de vender vale-refeição no mercado paralelo (com deságio de 15-20%), pois o cartão é aceito em todos os lugares.
Além de VR/VA, a Caju oferece flexibilidade: o trabalhador pode alocar parte da verba em vale-cultura (incluindo streaming), saúde, educação etc.
O nome 'Caju' remete a 'dar sabor para a vida profissional' – slogan da empresa.
O modelo B2B vende para RH das empresas, que contrata a Caju e o trabalhador gerencia tudo pelo app, sem envolvimento do RH.
Regulação e lobby: a necessidade de ir a Brasília
Eduardo não fazia ideia do que era ser um negócio regulado quando começou a Caju.
O mercado de benefícios passou por marcos regulatórios importantes: decreto em 2021 e outro no final de 2023.
A Caju precisou criar uma associação e fazer lobby em Brasília para explicar seu modelo e defender a concorrência.
Eduardo destaca que lobby bem feito é um serviço à democracia: políticos não podem saber de todos os temas, e cabe ao setor educá-los.
Apesar de reconhecer que há práticas erradas no lobby, ele defende que a abordagem da Caju foi sempre transparente e dentro da lei.
O vale-cultura, por exemplo, já permitia uso em streaming pela regra, mas nenhuma empresa oferecia; a Caju inovou ao implementar.
Desafios operacionais e diferenças entre B2B e B2C
Vender para empresas (B2B) é muito diferente de vender para pessoas físicas (B2C): exige relacionamento, não escala de milhões de clientes.
A Caju atende ~70 mil empresas e serve 1,1 milhão de pessoas, mas vende apenas para o RH, não para cada trabalhador.
O caos operacional da primeira empresa (diaristas) contrasta com os desafios atuais: segurança com meios de pagamento, compliance e problemas maiores.
O maior desafio interno hoje é a comunicação da estratégia para o time, especialmente em um ambiente que exige agilidade e mudanças rápidas.
Eduardo admite que precisa melhorar a comunicação sobre 'por que estamos fazendo desse jeito' e corre o risco de estar errado muitas vezes.
Impacto da Inteligência Artificial na Caju e no mercado
Eduardo vê a IA como uma revolução positiva e um privilégio de viver, comparável à internet e ao celular.
Na Caju, a IA é usada principalmente para produtividade do time de desenvolvimento (todos os times usam IA no dia a dia).
Futuramente, a IA será aplicada no produto para facilitar input/output de dados no software de RH, tornando a experiência 'mágica' e 'delightful'.
No atendimento ao cliente, a IA pode reduzir filas de espera, resolvendo problemas simples de forma automatizada, com supervisão humana gradual.
Eduardo acredita que IA não substituirá completamente o trabalho humano, mas aumentará a produtividade e permitirá ir mais rápido.
Ele não teme a IA, mas está animado com as possibilidades, inclusive para criar um ecossistema de RH mais integrado.
Ecossistema Caju: visão de futuro e produtos
A Caju quer ser um ecossistema completo para a vida profissional do trabalhador, indo além de benefícios.
Já oferece: onboarding digital, gestão de benefícios flexíveis, cartão físico e virtual, ponto eletrônico, pedido de férias, reembolso, cartão corporativo, adiantamento de viagem e holerite.
Do lado do RH, a plataforma integra folha de pagamento, licenças médicas, atestados e outros processos.
Próximos passos incluem: crédito consignado, investimentos em previdência e até pagamento de salário dentro do app.
O objetivo é que o trabalhador use a Caju para tudo relacionado ao trabalho, eliminando a necessidade de múltiplos sistemas.
A IA será usada para automatizar processos e tornar a experiência mais fluida, mas a segurança é uma preocupação constante.
Conselhos para jovens empreendedores
Tempo é o ativo mais valioso, especialmente para quem é jovem e tem menos compromissos (família, filhos).
Não gaste anos em um negócio que não está dando certo; pivote ou abandone rapidamente.
Aproveite a janela de risco que a juventude oferece – muitos não têm esse privilégio.
Se a ideia não funcionar, mova-se para a próxima; não insista por teimosia.
Eduardo exemplifica com sua própria experiência: vendeu a primeira empresa após 3 anos e foi para a McKinsey, o que o preparou para a Caju.
Passos práticos
Se você é RH, avalie substituir múltiplos cartões de benefícios por uma plataforma única e flexível como a Caju, que reduz custos operacionais e melhora a experiência do funcionário.
Para empreendedores: teste sua ideia rapidamente (ex: MVP em um fim de semana) e, se não houver tração em poucos meses, considere pivotar.
Use IA no seu negócio para aumentar produtividade, especialmente em áreas como desenvolvimento, atendimento ao cliente e automação de processos repetitivos.
Se seu setor é regulado, invista em entender a regulação e faça lobby transparente para educar os formuladores de políticas públicas.
Priorize a comunicação interna da estratégia da empresa para alinhar o time, especialmente em startups de crescimento rápido.
Ofereça flexibilidade nos benefícios aos funcionários, permitindo que eles escolham como alocar a verba entre diferentes categorias (cultura, saúde, educação etc.).
Frases marcantes
"O benefício é pro trabalhador, é o sabor pra vida dele. Essa lógica tá invertida."
"Eu não preciso necessariamente ganhar tanto dinheiro quanto esses caras estão ganhando, mas eu consigo dar uma experiência muito mais legal."
"Lobby bem feito é um serviço pra democracia, porque não tem como eles se educarem de todos os temas."
"A tua coisa mais valiosa é tempo, principalmente se você tá começando, você é jovem."
"Não fica 7 anos da tua vida empreendendo um negócio que não deu certo."
"IA é um privilégio, a gente vai viver essa revolução, a gente vai ver o que que vai acontecer."
Mencionados no episódio
PEC das Domésticas - legislação trabalhista de 2013 que equiparou direitos de empregadas domésticas aos CLT
McKinsey - consultoria estratégica onde Eduardo trabalhou após vender a primeira empresa
Nubank - neobank brasileiro citado como inspiração de experiência mobile
Visa - bandeira de arranjo aberto usada pela Caju para aceitação universal
Flow Podcast - podcast do host Igor, onde a entrevista foi realizada
Gorila Cast - podcast citado como exemplo de conteúdo com IA (personagem gorila)
Aquai - podcast de negócios que usa IA para pesquisa, mencionado por Eduardo