Reimagining Biotech with Jake Becraft of Strand Therapeutics — Tim’s Founder Kitchen
Jake Becraft, CEO da Strand Therapeutics, explica como sua empresa está desenvolvendo 'medicamentos genéticos de próxima geração' baseados em RNA para reprogramar células do corpo, tratando câncer e outras doenças. Ele discute a diferença entre um 'bom fármaco' e um 'bom produto', a necessidade de reforma regulatória nos EUA para acelerar ensaios clínicos iniciais, e como a competição com a China está forçando mudanças. Tim Ferriss ajuda a refinar a mensagem para formuladores de políticas, resultando em um artigo de opinião no Washington Post e avanços legislativos.
Tim Ferriss — host, autor e investidorJake Becraft — CEO da Strand Therapeutics, biotecnólogo
A Strand Therapeutics desenvolve medicamentos de RNA que instruem células doentes a produzir proteínas corretas, tratando câncer e outras doenças na raiz.
Um 'bom fármaco' pode salvar vidas, mas um 'bom produto' precisa ser escalável, acessível e integrável à infraestrutura de saúde existente.
Os EUA estão perdendo a liderança em ensaios clínicos de fase inicial para a China, que construiu uma infraestrutura mais rápida e barata.
A reforma regulatória proposta por Becraft substituiria a aprovação prévia da FDA por um sistema de notificação (CTN), similar ao da Austrália, acelerando testes em humanos.
A plataforma da Strand é análoga à SpaceX: cada 'foguete' (plataforma de entrega) é construído para um tipo de célula ou tecido, e os 'payloads' (proteínas) podem ser trocados rapidamente.
A combinação de IA (como AlphaFold) com plataformas de entrega criará um gargalo: saberemos quais proteínas produzir, mas não como entregá-las aos tecidos certos.
O modelo de negócios tradicional da biotecnologia (vender ativos em estágio inicial) é comparável ao desenvolvimento imobiliário, não à construção de empresas geracionais.
A mensagem para formuladores de políticas deve começar com a solução ('isso pode ser consertado'), não apenas com o problema, para gerar engajamento.
A Strand busca parceiros globais (soberanos, farmacêuticos) com capital paciente para financiar uma visão de longo prazo, não apenas o próximo marco.
O CEO precisa ser um contador de histórias eficaz para atrair capital e influenciar políticas, transformando ciência complexa em narrativas acionáveis.
O que a Strand Therapeutics faz: medicamentos genéticos de RNA
A vida é feita de proteínas; doenças geralmente resultam de proteínas defeituosas ou ausentes.
A Strand cria mensagens de RNA que instruem células específicas a produzir as proteínas corretas, restaurando a homeostase ou eliminando problemas (como câncer).
Diferente das vacinas de mRNA (que são exemplos simples), a Strand programa RNA para tarefas complexas, como ativar o sistema imunológico dentro do tumor.
O tratamento injeta o RNA diretamente no tumor, fazendo com que as células cancerígenas 'gritem' por ajuda imunológica, gerando uma resposta abscopal: o sistema imune aprende a atacar metástases distantes.
Imagens de um paciente com melanoma estágio 4 mostraram desaparecimento completo de lesões cutâneas e viscerais (pulmão, ossos) após o tratamento.
Dois dos três primeiros pacientes do ensaio de fase 1 (iniciado em 2024) continuam no estudo 18 meses depois, o que é raro para um fármaco experimental.
A Strand não quer apenas um 'bom fármaco' (que funciona), mas um 'bom produto' (que pode ser administrado em larga escala, via infusão intravenosa, sem necessidade de injeção intratumoral).
O problema da entrega: três desafios em um sobretudo
Por 30 anos, a medicina genética ficou presa ao fígado, que naturalmente filtra o sangue e captura esses medicamentos.
O verdadeiro desafio não é apenas 'entrega', mas três problemas simultâneos: potência, especificidade e entrega.
A Strand adota uma abordagem de primeiros princípios, similar à SpaceX: em vez de melhorar veículos existentes, repensou todo o sistema.
O objetivo de longo prazo é administrar medicamentos genéticos por via intravenosa (IV) que atinjam qualquer tecido do corpo, não apenas tumores injetáveis.
A plataforma de entrega para tumores é o primeiro 'foguete'; plataformas futuras incluirão células T (para autoimunidade), rim, cérebro, etc.
Cada plataforma é construída separadamente, ao contrário do que a Moderna tentou (uma plataforma única para tudo).
Bom fármaco vs. bom produto: o caso da terapia celular CAR-T
As terapias CAR-T são 'fenomenais' como fármacos, mas péssimos como produtos: custam US$ 750 mil para fabricar e levam 3 meses.
Um 'bom produto' seria uma infusão ambulatorial de 2 horas, sem necessidade de remover células do paciente.
A Strand está desenvolvendo terapia celular in vivo: reprogramar células T dentro do paciente, usando RNA, para atacar o câncer.
A diferença entre fármaco e produto é crucial para escalabilidade e acesso: um fármaco que salva uma vida é ótimo, mas um produto que salva milhões é transformador.
A infraestrutura de saúde atual (clínicas de infusão) dita o design do produto: medicamentos devem se encaixar nos sistemas existentes para ter impacto rápido.
A competição com a China e a necessidade de reforma regulatória
A China construiu uma infraestrutura industrializada para ensaios clínicos de fase inicial, muito mais rápida e barata que a dos EUA.
Inicialmente, empresas americanas iam para a China para gerar dados e depois voltar à FDA; agora, empresas chinesas desenvolvem fármacos e os trazem para os EUA.
O capital de risco segue a eficiência: se a China é mais rápida, o dinheiro vai para lá, criando um 'flywheel' que fortalece ainda mais o ecossistema chinês.
O processo atual da FDA (IND) exige 22.000 páginas, 18 meses e US$ 25 milhões para um primeiro ensaio em humanos.
Na Austrália e China, um sistema de notificação (CTN) permite que os hospitais (IRBs) aprovem o ensaio, sem aprovação prévia do regulador central.
Becraft propõe um CTN nos EUA: as empresas notificam a FDA, mas os IRBs hospitalares decidem sobre a segurança, distribuindo a carga de trabalho e acelerando o processo.
A FDA poderia então focar em aprovações baseadas em eficácia, não em permissões prévias para segurança inicial.
O artigo de opinião de Becraft no Washington Post ('The US can't afford to offshore clinical trials to China') gerou tração e foi citado em prioridades legislativas do presidente.
Estratégia de mensagem para formuladores de políticas
A mensagem eficaz começa com a solução, não apenas com o problema: 'isso é ruim, mas podemos consertar'.
Testes A/B de manchetes (usando Pikfu) mostraram que títulos com tom oportunista ('podemos consertar') geram mais engajamento do que títulos puramente negativos.
Ao testemunhar no Congresso, Becraft usou a estrutura: problema urgente + solução viável + chamada à ação.
Políticos respondem melhor a narrativas que mostram um caminho a seguir, não apenas reclamações.
A analogia com a SpaceX ajuda: assim como a regulamentação espacial foi reformada para permitir inovação, a FDA precisa de reformas semelhantes.
O custo de medicamentos inovadores é apenas 8% dos gastos com saúde nos EUA, mas pode reduzir hospitalizações (26% dos gastos), um argumento econômico poderoso.
Plataformas terapêuticas: o modelo SpaceX para a medicina
Uma plataforma terapêutica é uma infraestrutura tecnológica comum que permite construir múltiplos medicamentos, cada vez mais rápido.
Exemplo: a Moderna levou 12 anos para desenvolver sua plataforma de mRNA; depois, criou a vacina COVID em 62 dias.
A Strand está construindo plataformas de entrega para diferentes tecidos: tumores (já em ensaios), células T (em desenvolvimento), rins, cérebro (futuro).
Cada plataforma é um 'foguete' diferente; o 'payload' (proteína) pode ser trocado rapidamente, assim como satélites em um foguete reutilizável.
A IA (como AlphaFold) está acelerando o design de proteínas, mas a entrega continua sendo o gargalo principal.
O objetivo é criar um 'flywheel' onde cada plataforma bem-sucedida financia e informa a próxima, reduzindo custo e tempo.
O modelo de capital da biotecnologia vs. tecnologia
90%+ das empresas de biotecnologia seguem um modelo de 'desenvolvimento imobiliário': levam um ativo do ponto A ao ponto B e o vendem.
Isso contrasta com a tecnologia, onde se constroem empresas geracionais (Amazon, SpaceX) com capital paciente.
A biotecnologia precisa de investidores dispostos a esperar 10-20 anos por retornos massivos, não apenas marcos de curto prazo.
Becraft busca parceiros globais (soberanos, family offices) que compartilhem essa visão de longo prazo.
A Strand já tem capital paciente no cap table, mas precisa de mais para financiar múltiplas plataformas simultaneamente.
O CEO deve ser um 'contador de histórias' para atrair esse capital, traduzindo ciência complexa em narrativas convincentes.
O futuro da medicina: crônica, não sentença de morte
No curto prazo (5-10 anos), muitos tipos de câncer se tornarão doenças crônicas, não fatais, graças a terapias como as da Strand.
A combinação de diagnóstico molecular, IA e plataformas de entrega permitirá medicamentos cada vez mais personalizados e refinados.
O gargalo futuro não será a descoberta (graças à IA), mas a entrega e a infraestrutura de produção e distribuição.
A Strand planeja construir capacidade de manufatura descentralizada para que medicamentos avançados estejam disponíveis localmente.
A reforma regulatória é essencial para que esses avanços cheguem aos pacientes rapidamente, antes que a China domine o setor.
Passos práticos
Para formuladores de políticas: apoiar a transição para um sistema de notificação (CTN) para ensaios de fase inicial, removendo a exigência de aprovação prévia da FDA.
Para investidores: considerar alocar capital paciente para empresas de biotecnologia com visão de plataforma, não apenas para ativos de curto prazo.
Para CEOs de biotecnologia: estruturar a mensagem começando pela solução, não pelo problema, ao se comunicar com políticos e investidores.
Para cientistas: aprender a contar histórias que façam as pessoas se importarem antes de explicar os detalhes técnicos.
Para empresas: testar diferentes versões de manchetes e mensagens (A/B testing) para otimizar o engajamento do público-alvo.
Para pacientes: buscar ensaios clínicos em países com sistemas de notificação (Austrália, China) se os EUA forem muito lentos.
Para a Strand: continuar desenvolvendo plataformas de entrega para novos tecidos (células T, rim, cérebro) e buscar parcerias globais para escalar.
Frases marcantes
"A vida é feita de proteínas. Sua pele, seu cabelo, seus órgãos são apenas proteínas empilhadas. Intervir na doença é criar as proteínas corretas."
"Um bom fármaco pode salvar uma vida; um bom produto pode salvar milhões. A diferença é escalabilidade e integração com a infraestrutura de saúde."
"Os EUA estão perdendo a liderança em ensaios clínicos para a China. O capital não tem lealdade; ele vai para onde a eficiência está."
"Ninguém vai aprender até que se importe. Seu primeiro objetivo é fazer alguém se importar com o que você está fazendo."
"A biotecnologia é como o desenvolvimento imobiliário: 90% das empresas constroem um ativo e o vendem. Precisamos de construtores de catedrais, não de especuladores."
"Se você pudesse reprogramar células dentro do paciente, em vez de retirá-las, teria um produto fenomenal: uma infusão de 2 horas em vez de um processo de 3 meses e US$ 750 mil."
Mencionados no episódio
Strand Therapeutics — empresa de biotecnologia focada em medicamentos genéticos de RNA
Genentech — empresa de biotecnologia pioneira, tema do livro 'Genentech: The Beginnings of Biotech'
Keytruda (Merck) — imunoterapia blockbuster para melanoma e outros cânceres