A CVM DE UM JEITO QUE VOCÊ NUNCA VIU: SEM DINHEIRO, SEM GENTE E SEM WI-FI | Market Makers #367
João Pedro Nascimento, ex-presidente da CVM, detalha os bastidores da autarquia: falta de Wi-Fi, orçamento enxuto e evasão de servidores. Ele explica as 70 regras editadas em 3 anos (como a Resolução 175 dos fundos e o CVM Fácil), a luta por mais recursos (inclusive a liminar do STF que pode triplicar o orçamento) e defende uma reflexão sobre o modelo regulatório setorial brasileiro. O episódio mostra o contraste entre o crescimento do mercado de capitais e a precariedade do regulador.
Thiago Salomão – CEO e fundador do Market MakersJoão Pedro Nascimento – ex-presidente da CVM, professor e advogado
A CVM não tinha Wi-Fi nos prédios quando João Pedro assumiu; em 3 anos, instalou Wi-Fi, integrou sistemas com a Receita Federal e passou a usar IA com a FINEP.
O orçamento discricionário da CVM nunca passou de R$ 36 milhões, e a parte realmente livre para investimentos era inferior a R$ 10 milhões.
A arrecadação da taxa de fiscalização da CVM saltou de R$ 288 milhões (2015) para R$ 1,1 bilhão (2025), mas a fatia destinada à autarquia caiu de 81% para 23%.
A liminar do ministro Flávio Dino no STF pode triplicar o orçamento da CVM ao garantir a destinação integral da taxa de fiscalização.
Foram editadas 70 regras, incluindo a Resolução 175 (marco dos fundos), a 178/179 (assessores de investimento) e o CVM Fácil (mercado de acesso para PMEs).
A CVM perdeu 40% de seu quadro de servidores entre 2010 e 2022; o concurso público após 14 anos trouxe 90 novos servidores de nível superior.
João Pedro defende o modelo Twin Peaks (regulador prudencial + regulador de conduta) como alternativa ao modelo setorial brasileiro.
A agenda desenvolvimentista focou em quatro verticais: agronegócio, economia verde, economia digital (cripto) e futebol (SAFs).
Agenda Executiva: Tecnologia, Pessoas e Financiamento
Quando João Pedro assumiu em 2022, a CVM não tinha Wi-Fi nos prédios do Rio, São Paulo e Brasília; ele instalou a rede e integrou a autarquia ao SuperGovbr.
A CVM passou a usar o sistema IPED (da Polícia Federal) para processamento de linguagem natural na atividade sancionadora.
Criou-se o sistema Integra CNPJ em cooperação com a Receita Federal: ao registrar um fundo, o CNPJ já sai pronto.
O orçamento discricionário nunca ultrapassou R$ 36 milhões; a parte efetivamente livre para investimentos era inferior a R$ 10 milhões.
A CVM conseguiu expansões orçamentárias em 2022, 2023, 2024 e 2025, mas ainda muito aquém do necessário.
Após 14 anos sem concurso, a CVM realizou um e ganhou 90 servidores de nível superior; também obteve 30 novos cargos comissionados do MGI.
A evasão de servidores foi reduzida com a criação de um 'CEO' e um 'CFO' no regimento interno, separando gestão de áreas finalísticas.
A CVM que João Pedro entregou é melhor em financiamento, pessoas e tecnologia do que a que encontrou.
O Paradoxo do Orçamento e a Decisão do STF
A taxa de fiscalização da CVM arrecadou R$ 1,1 bilhão em 2025, mas apenas 23% (cerca de R$ 253 milhões) ficaram com a autarquia.
Em 2015, a arrecadação foi de R$ 288 milhões, dos quais 81% foram para a CVM – ou seja, em valores absolutos, a CVM recebeu praticamente o mesmo de 10 anos atrás.
O orçamento total da CVM é de aproximadamente R$ 280 milhões, dos quais R$ 250 milhões são gastos com pessoal (ativos e inativos).
A liminar do ministro Flávio Dino no STF (maio de 2025) determinou a destinação integral da taxa de fiscalização à CVM, o que pode triplicar o orçamento discricionário.
João Pedro destaca que o dinheiro extra permitirá investir em tecnologia de supervisão (suptech), como já fazem Suíça e Singapura.
Ele ressalta que as multas e termos de compromisso não devem ir para a CVM para não incentivar punitivismo.
Supervisão Baseada em Risco e Críticas Recorrentes
A CVM atua de duas formas: por denúncias e por supervisão baseada em risco (plano bienal que elege temas prioritários como cripto, COI, comissionamento).
O mercado regulado é muito maior que a capacidade de regulação do regulador; a CVM tem cerca de 400 servidores, dos quais apenas 300 de nível superior.
Um estudo interno indicou que a CVM idealmente precisaria de 1.000 a 1.200 servidores.
João Pedro afirma: 'As pessoas esperam da CVM uma resposta que a CVM, lamentavelmente, não tem condição de dar.'
Ele reconhece que o lapso entre o fato e o julgamento é muito longo e que a atuação deveria ser mais preventiva, mas isso exige mais tecnologia e pessoal.
A supervisão preventiva é típica de um modelo de regulação prudencial, não do modelo setorial brasileiro.
Agenda Regulatória: 70 Regras e os Principais Marcos
Foram editadas 70 regras em 3 anos. As principais: Resolução 175 (fundos), 178/179 (assessores de investimento), 166 (dispensa de publicação para PMEs), 183 (BDRs), 93 (reporte de sustentabilidade), 204 (assembleias digitais), 209/210 (portabilidade de investimentos), 215/216 (OPAs), 225 (cadastro de investidor não residente).
A Resolução 175 consolidou mais de 40 normas em uma única regra, com anexos normativos por categoria de fundo.
Ela implementou a limitação de responsabilidade do investidor, o regime de insolvência dos fundos e a possibilidade de classes de cotas dentro de um mesmo fundo.
A 175 abriu o FIDIC para o varejo, permitiu estratégias no exterior via fundos, incluiu criptoativos como ativo financeiro e créditos de carbono.
A Resolução 178/179 regulamentou os assessores de investimento, fundamentais para a capilaridade do mercado de capitais no Brasil.
O CVM Fácil (regulamentação do marco legal das startups) permite que empresas com faturamento inferior a R$ 500 milhões façam ofertas de até R$ 300 milhões com diversas dispensas regulatórias.
A portabilidade de investimentos (Open Capital Markets) foi apelidada de 'Pix do mercado de capitais' por permitir transferência de custódia com um toque no celular.
Agenda Sancionadora e Julgamentos
A CVM realiza sessões de julgamento às terças-feiras à tarde (pauta sancionadora) e reuniões de colegiado de manhã (pauta não sancionadora).
João Pedro destaca que houve um aumento na quantidade de julgamentos por ano durante sua gestão.
Ele defende que o presidente da CVM não participa da atividade de supervisão e fiscalização – isso é feito pelas áreas técnicas – para evitar nulidades.
O colegiado é composto pelo presidente e mais quatro diretores, todos com mandatos fixos.
Agenda Internacional e Desenvolvimentista
João Pedro sentou no board da IOSCO (Organização Internacional dos Reguladores de Mercados de Capitais), no bureau de governança corporativa da OCDE e no Steering Committee do Financial Stability Board – assentos inéditos para a CVM.
A agenda desenvolvimentista focou em quatro verticais: agronegócio, economia verde, economia digital (cripto) e futebol (SAFs).
No agro, a CVM criou uma gerência específica, um boletim econômico e o programa Agrocapitais; os números cresceram exponencialmente (embora partissem de uma base baixa).
Na economia verde, o Brasil pode ser potência em green bonds e sustainability-linked bonds, aproveitando energia renovável e biomas preservados.
Na criptoeconomia, o Parecer de Orientação 40 definiu quais criptoativos são valores mobiliários; ofícios circulares 4 e 6 detalharam a interpretação.
No futebol, o Parecer de Orientação 41 abriu caminho para as SAFs acessarem o mercado de capitais, não apenas como companhias abertas, mas via produtos securitizados e fundos.
O Caso Master e as Zonas Cinzentas
João Pedro cita o caso Master (sem nomeá-lo diretamente) como exemplo de zonas cinzentas entre reguladores (CVM, Banco Central, Receita Federal).
Ele defende maior integração entre os órgãos e uma possível mudança para o modelo Twin Peaks (regulador prudencial + regulador de conduta).
No modelo atual, a CVM não supervisiona produtos do Banco Central (como CDBs), o que dificulta a prevenção de fraudes que envolvem múltiplos instrumentos.
Ele ressalta que fraudes sempre existirão, mas o objetivo é reduzir sua magnitude com melhor coordenação e tecnologia de supervisão.
Reflexões sobre o Modelo Regulatório Brasileiro
O modelo setorial brasileiro foi criado nas décadas de 1960 e 1970, com reguladores específicos para cada setor (BC, CVM, SUSEP, Previc).
Com o crescimento e a complexidade do mercado, surgiram zonas cinzentas e sobreposições (ex.: cripto, crédito corporativo).
João Pedro vê com simpatia o modelo Twin Peaks, adotado por países como África do Sul e Austrália, com um regulador prudencial e outro de conduta.
Ele sugere que o Banco Central poderia permanecer como está, mas sua atividade sancionadora migraria para o regulador de conduta.
Alternativamente, o modelo setorial pode ser mantido desde que haja fortalecimento real da CVM, SUSEP e Previc – sendo que estas duas últimas estão em situação ainda mais delicada que a CVM.
Lições Pessoais e o Futuro de João Pedro
João Pedro destaca três aprendizados: equilíbrio, diálogo e escuta ativa – especialmente em um mundo polarizado.
Ele se sente mais completo após a passagem pela CVM, com uma visão de negócios que vai além da de um advogado tradicional.
Continua sendo professor da FGV Direito Rio (há 17 anos) e não pretende largar a sala de aula.
Seu escritório, JPN Advogados, foca em direito societário, mercado de capitais e 'direito dos negócios' (traduzir negócios em contratos).
Ele não descarta voltar ao setor público no futuro, mas está feliz com as funções atuais.
Passos práticos
Acompanhe as decisões do STF sobre a destinação da taxa de fiscalização da CVM – a liminar de Flávio Dino pode triplicar o orçamento da autarquia.
Invista em tecnologia de supervisão (suptech) se você atua em regulação ou compliance – é o caminho para prevenção de fraudes.
Empresas com faturamento inferior a R$ 500 milhões: avalie o CVM Fácil para acessar o mercado de capitais com custos reduzidos.
Investidores: entenda as novas classes de cotas e a limitação de responsabilidade trazidas pela Resolução 175 – elas ampliam as possibilidades de alocação.
Use a portabilidade de investimentos (Open Capital Markets) para transferir custódia com facilidade e aumentar a competição entre corretoras.
Se você é assessor de investimento, estude as Resoluções 178 e 179 – elas regulamentam sua atividade e trazem segurança jurídica.
Para clubes de futebol: explore as oportunidades das SAFs no mercado de capitais, além da abertura de capital (produtos securitizados, fundos).
Frases marcantes
"A CVM não tinha sequer Wi-Fi nos seus prédios. Quando eu cheguei, instalamos Wi-Fi no Rio, em São Paulo e em Brasília."
"As pessoas esperam da CVM uma resposta que a CVM, lamentavelmente, não tem condição de dar."
"A CVM joga uma final de Copa do Mundo todos os dias e ela joga com os mesmos jogadores."
"O Brasil tem que ser plural, diverso e inclusivo também no mercado de capitais."
"Tão importante quanto ter recursos é executar o orçamento que é destinado para a autarquia na sua integralidade."
"Se você só conviver com as pessoas da sua bolha, você cresce menos, desenvolve menos, constrói menos e se legitima menos."
Mencionados no episódio
Resolução 175 – Marco regulatório dos fundos de investimento (CVM)
CVM Fácil – Programa de acesso ao mercado de capitais para PMEs
Flávio Dino – Ministro do STF que concedeu liminar sobre a taxa de fiscalização da CVM
Gustavo Pires – Sócio e diretor da XP, autor do artigo 'O paradoxo da CVM e o mercado de capitais'
FINEP – Agência de inovação, parceira da CVM em projetos de IA
IPED – Sistema de processamento de linguagem natural da Polícia Federal usado pela CVM
Integra CNPJ – Cooperação CVM-Receita Federal para registro de fundos
IOSCO – Organização Internacional dos Reguladores de Mercados de Capitais
OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (bureau de governança corporativa)
Financial Stability Board – Steering Committee
Twin Peaks – Modelo regulatório com regulador prudencial e de conduta
Bulhões Pedreira – Autor de 'O Direito das Companhias'
Yuval Noah Harari – Autor de 'Sapiens' e 'Nexus'
Laurentino Gomes – Autor brasileiro de livros históricos
Zé Roberto Castro Neves – Imortal da ABL, advogado e escritor
Erasmo Valadão Novis e França – Societarista, orientador de João Pedro
Paulo Guedes – Ex-ministro da Economia
Chico Musnique – Professor que introduziu João Pedro na academia
Falamansa – Banda de forró citada por João Pedro
Kanye West – Música 'God Is' citada por João Pedro