CLÓVIS DE BARROS: A AULA QUE TODO INVESTIDOR PRECISA OUVIR | Market Makers #377
Clóvis de Barros Filho discute sorte, acaso, espontaneidade, medo do julgamento alheio, humildade intelectual e paternidade. Uma aula de filosofia aplicada à vida, aos investimentos e ao sucesso, com histórias pessoais e referências a Sócrates, Espinosa e Aristóteles.
Thiago Salomão – host, CEO do Market MakersLepo – host, apresentadorMateus Soares – co-host, convidado na mesaClóvis de Barros Filho – filósofo, professor, escritor
A sorte é o nome que damos ao acaso que escapa ao nosso controle; ela é decisiva para o sucesso, como mostrado na virada profissional de Clóvis após atender um telefonema em Peruíbe.
A espontaneidade genuína é mais potente e apreciada que a performance calculada, mas o medo do olhar do outro e do cancelamento digital nos artificializa.
A consciência da própria ignorância (xícara vazia) é condição para o aprendizado; Sócrates era o mais sábio porque sabia que não sabia.
O medo e a esperança são inseparáveis diante da incerteza; a ansiedade é o desejo de que a realidade se revele para acabar com a oscilação entre esses dois afetos.
A paternidade é a maior oportunidade de amor e de superação do egoísmo; Clóvis a considera a melhor coisa que lhe aconteceu.
Para ganhos extraordinários em investimentos, é preciso apostar no que ninguém vê, suportando a incerteza e a solidão da convicção contrária ao consenso.
Sorte e acaso como componentes do sucesso
Clóvis define sorte como tudo que afeta nossa vida e escapa às nossas decisões e vontade – o acaso.
Aristóteles já afirmava que a felicidade dificilmente ocorre sem um pouco de sorte.
Exemplo pessoal: em 2004, estava de férias em Peruíbe quando recebeu ligação para dar uma aula em São Paulo; aceitou pelo valor inusitado, o que o levou à Casa do Saber, à palestra 'A vida que vale a pena ser vivida' e à carreira de palestrante.
Clóvis reconhece que, sem esse acaso, sua vida profissional seria completamente diferente – 'o acaso teve participação de 100%'.
A sorte não elimina o mérito, mas o mérito sozinho não basta; é preciso que o acaso favoreça.
O valor oferecido foi 'disruptivo' para um professor universitário, mostrando que incentivos concretos podem vencer a inércia.
Clóvis se considera 'meia-boca quase sempre', mas o acaso o impulsionou em momentos-chave.
Espontaneidade versus medo do julgamento
A sociedade nos artificializa: agimos com medo da sanção do outro, o que reduz nossa potência genuína.
Exemplo do vídeo da bronca na ECA: Clóvis agiu sem pensar em ser filmado, e aquela autenticidade foi mais aplaudida que qualquer performance calculada.
Os cínicos antigos preparavam os alunos suportando o ridículo para que perdessem o medo do olhar alheio – lição para a era digital.
O medo hoje é amplificado pela velocidade e volume das críticas online; antes, uma crítica levava semanas para se espalhar, hoje ocorre em segundos.
A dificuldade de se defender: quem se defende é suspeito por ter interesse; a defesa por terceiros é rara, pois é mais 'saboroso' atacar do que contextualizar.
A saída é torcer para que a 'máquina da difamação' encontre novas vítimas – uma visão cínica e realista.
Humildade intelectual e a xícara vazia
Clóvis afirma: 'Não sei nada sobre quase tudo' – e lista áreas como astrofísica, odontologia, filosofia oriental.
Sócrates era o mais sábio porque tinha consciência da própria ignorância; os outros achavam que sabiam, mas não sabiam.
Para aprender, é preciso chegar com a 'xícara vazia' – metáfora do monge budista que derrama chá na xícara cheia do professor arrogante.
A sociedade exige que finjamos saber, mas a verdadeira sabedoria está em reconhecer o que não se sabe.
A diversidade de experiências é a maior fonte de enriquecimento; paradoxalmente, damos ouvidos a quem é parecido conosco e desprezamos quem é diferente.
Exemplo: entrevistar José Dirceu no Market Makers gerou reação negativa, mas Clóvis defende que ouvir quem pensa diferente valida ou desafia nossas crenças.
Incerteza, medo e esperança no mercado e na vida
O que nos aflige não é o real, mas o mundo imaginado: a esperança (antecipação positiva) e o temor (antecipação negativa) são inseparáveis.
A ansiedade é a busca pela realidade que nos tire do binômio esperança/temor – queremos que o pênalti seja batido logo.
No mercado financeiro, a incerteza é o preço a pagar por retornos extraordinários; certezas não geram grandes ganhos.
Investir no que está em alta é confortável, mas arriscado; investir no que está em baixa exige 'fígado forte' e convicção contrária ao consenso.
Clóvis ecoa Warren Buffett: 'Seja ganancioso quando os outros estão com medo, tenha medo quando os outros estão gananciosos'.
A oscilação entre esperança e temor é inerente a qualquer jogo – inclusive o jogo da vida e dos investimentos.
Paternidade como experiência de amor e transformação
Clóvis foi pai aos 22 anos e é pai há quase 40 anos; a paternidade o fez reavaliar a relação com seu próprio pai.
A paternidade é a oportunidade de se desgarrar do egoísmo e estender a preocupação a uma vida que não é a nossa.
O amor pelos filhos é insuperável e a melhor coisa que a vida pode oferecer – 'uma vida de amor'.
Três filhos, três relações diferentes, três amores distintos; Clóvis 'só dobraria a aposta'.
Muitas de suas escolhas profissionais foram moldadas pela paternidade, e ele vê isso como positivo, não como perda de oportunidades.
Recomendações e gentilezas (Ping Pong)
Livro recomendado: 'O Primo Basílio' de Eça de Queirós.
Livro para não ler: qualquer um dos seus próprios (autodepreciação).
Música: 'Coração de Estudante' de Milton Nascimento – marcou sua aprovação no vestibular ao lado do pai.
Convidado sugerido: Mário Sérgio Cortella, autor de 'A sorte segue a coragem'.
Gentileza marcante: Clóvis levou uma comissária de bordo ao banheiro do avião para tirar uma selfie, já que ela não podia fotografar no corredor – um ato de 'gentileza subversiva'.
Passos práticos
Cultive a consciência da própria ignorância: ao entrar em qualquer conversa, adote a postura da 'xícara vazia' – esteja genuinamente aberto a aprender, mesmo com quem você considera inferior.
Busque ativamente pessoas que pensam diferente de você, especialmente as de origens e experiências diversas; elas têm mais a ensinar do que seus pares da mesma bolha.
Ao investir, aceite a incerteza como parte do jogo; não busque certezas, mas sim oportunidades onde o consenso é negativo e você tem convicção contrária.
Para ser mais autêntico, pratique suportar o ridículo e a crítica – exponha-se gradualmente a situações onde sua opinião pode ser contestada, sem se deixar paralisar pelo medo.
Na paternidade ou em relações de cuidado, priorize o amor e a doação ao outro como fonte de realização, acima de ganhos materiais ou status.
Registre seus momentos de sorte e acaso favorável; reflita sobre como pequenas decisões (como atender um telefonema) podem mudar o rumo da vida.
Frases marcantes
"Eu sou meia boca quase sempre. Agora tem horas que o acaso ajuda."
"O que faz oscilar a tua potência é o mundo que você imagina. É quando você supõe que possa dar ruim."
"Você dará ouvidos a quem menos tem chance de te enriquecer e desprezará justamente aquelas que pela sua diversidade absoluta poderiam ser as mais contributivas."
"Ter sido pai foi a melhor coisa que me aconteceu. Me deu a chance de viver o que de melhor uma vida humana pode pretender, que é uma vida de amor."
"O que você quer é certeza, mas em cima de certezas não haverá chance de muito enriquecimento."
"A única chance que você teria seria ser defendido por outros que também não têm interesse em te defender. E essa construção é dificílima."
Mencionados no episódio
Aristóteles – filósofo grego, citado sobre a necessidade de sorte para a felicidade
Sócrates – filósofo grego, modelo de consciência da ignorância
Espinosa – filósofo, conceitos de alegria/tristeza e potência
Warren Buffett – investidor, frase sobre ganância e medo
Fábio Barbosa – ex-presidente do Banco Real, convidou Clóvis para palestra
Mário Sérgio Cortella – filósofo e escritor, sugerido como convidado
José Dirceu – político, entrevistado no Market Makers
Milton Nascimento – cantor, música 'Coração de Estudante'
Eça de Queirós – escritor, livro 'O Primo Basílio'
Casa do Saber – instituição onde Clóvis começou a dar aulas para público não acadêmico
Banco Real – banco onde Fábio Barbosa era presidente
USP – Universidade de São Paulo, onde Clóvis foi professor
ECA – Escola de Comunicações e Artes da USP
Casper Líbero – faculdade onde Clóvis trabalhou
Peruíbe – cidade litorânea onde Clóvis estava de férias no episódio do telefonema
Ford K – carro que Clóvis dirigia na época
Los Hermanos – banda, referência à música 'Ana Júlia' como exemplo de sucesso atípico
Morgan Housel – autor de 'Psicologia Financeira', citado sobre o conceito de 'suficiente'
Bernie Madoff – fraudador financeiro, citado como exemplo de rico que ainda queria mais