A ARGENTINA VIROU O JOGO E O BRASIL FICOU PARA TRÁS? | Risco Brasil #43
Episódio 43 do Risco Brasil discute o cenário eleitoral brasileiro (Lula x Flávio), a crise fiscal e a política monetária, além de comparar com o ajuste econômico da Argentina sob Milei. Participam o gestor Paolo de Sora (RPS Capital) e o cientista político Luciano Dias, que oferecem visões contrapostas sobre a viabilidade de ajuste fiscal e o risco de dominância fiscal no Brasil.
Henrique Stetter (host, analista de mercado)Thiago Salomão (host, gestor de investimentos)Paolo de Sora (sócio-fundador e gestor da RPS Capital)Luciano Dias (cientista político, analista eleitoral)
A eleição brasileira não está decidida em junho; ciclos de ativação eleitoral e fatores estruturais (voto evangélico, regional) impedem diagnósticos definitivos.
O caso Vorcaro afetou o eleitorado do Sudeste, mas não a base evangélica ou nordestina; a reversão dessa vantagem no Sudeste é o indicador-chave para a viabilidade de Flávio.
O Brasil precisa de um ajuste fiscal de pelo menos R$ 500 bilhões, mas a sociedade não tem senso de urgência e o Congresso prioriza emendas e gastos populistas.
A dominância fiscal (dívida/PIB crescendo 5 pontos ao ano) e o juro real americano elevado tornam o ajuste mais difícil; o câmbio é a variável que pode forçar a mudança.
Paolo de Sora é pessimista: vê risco de controle de capital e imposto inflacionário; recomenda dolarização parcial e ativos reais (bolsa de empresas com poder de repasse).
Luciano Dias vê uma janela política positiva no Congresso (maioria centro-direita estável), mas o cenário se deteriora se o mercado consolidar a vitória de Lula.
A Argentina de Milei fez um ajuste fiscal de 6 pontos do PIB, cortou 1/3 dos funcionários públicos federais e acumula US$ 10,5 bi em reservas; a população apoia o ajuste.
A Argentina pode se tornar investment grade até 2030, com exportações de energia crescendo US$ 30-50 bi anuais, dívida bruta de 40% do PIB e superávit primário.
Cenário eleitoral brasileiro: Lula x Flávio
Luciano Dias argumenta que é impossível declarar uma eleição decidida em junho; em 2010 Dilma estava 6-7 pontos atrás de Serra, em 2014 Marina não era candidata, em 2018 Bolsonaro tinha 15%.
O voto evangélico (27% do eleitorado) dá a Flávio uma margem de 70-30, similar ao voto nordestino para Lula; essa base é estrutural e pouco variável.
O caso Vorcaro afetou principalmente o eleitorado do Sudeste, não o evangélico ou nordestino; a reversão dessa vantagem no Sudeste é o indicador-chave para a viabilidade de Flávio.
Flávio precisa vencer por 11 pontos em São Paulo para ter caminho viável à vitória; a esquerda não vence no Sudeste desde 2010.
Pesquisas Futura mostram que a vantagem de Flávio no Sudeste se inverteu em maio; se não se recuperar, o mercado estará correto em precificar vitória de Lula.
Paolo de Sora vê Lula como favorito devido à máquina pública (R$ 213 bi em benefícios) e à fragilidade de Flávio (inexperiência, envolvimento com centrão).
Polymarket mostra Lula com 52%, Flávio 25%, Renan 13%; o mercado de predições já movimenta US$ 100 milhões.
Luciano destaca que a rejeição de ambos os candidatos é de ~50%, situação anômala que abre espaço para terceira via, mas as barreiras estruturais (religião, financiamento) são enormes.
Risco fiscal e dominância fiscal no Brasil
Paolo de Sora afirma que o Brasil precisa de um ajuste fiscal de R$ 500 bi a R$ 1 trilhão; as contas principais são Previdência, funcionalismo público, saúde/educação e benefícios fiscais.
A dívida bruta brasileira está em 80% do PIB e cresce 5 pontos ao ano; com juros reais altos, pode chegar a 100% do PIB rapidamente, gerando dominância fiscal.
Dominância fiscal significa perda de poder da moeda: a política monetária deixa de funcionar e o país fica 'pobre em dólar', sem calote da dívida doméstica.
O mercado já reverteu o fluxo: após comprar R$ 5 bi em ações, o estrangeiro já retirou R$ 40-50 bi; o trade de 'Brasil antifrágil' acabou.
Paolo recomenda dolarizar o patrimônio e reduzir exposição à renda fixa, pois o ajuste virá via imposto inflacionário (juro real mais baixo) e não via corte de gastos.
Luciano Dias vê uma janela política positiva: o Congresso eleito em 2022 tem maioria centro-direita estável (300-310 deputados), com financiamento de campanha seguro (fundo partidário + emendas).
A 'emenda Pedro Paulo' (desvinculação de salário mínimo e gastos sociais) e a reforma administrativa (já aprovada na CCJ) são os caminhos de saída, mas dependem de vitória de Flávio.
Se o mercado consolidar a vitória de Lula, o cenário se autorrealiza: o câmbio dispara, a inflação acelera e o Congresso reage aumentando gastos, piorando o quadro fiscal.
Política monetária e decisão do Copom
Paolo acredita que há espaço para corte de 0,25 p.p. na Selic na superquarta, desde que o Copom 'fale grosso' e sinalize cautela.
O petróleo é a variável-chave: se cair para US$ 70, a inflação descomprime e permite cortes adicionais; o acordo EUA-Irã pode ajudar, mas Paolo vê o acordo como frágil e temporário.
As expectativas de inflação (Focus) estão no teto da meta (~5,3% para 2025); as implícitas na curva estão perto de 6%, o que limita a flexibilização.
O juro real americano em 2% (curva a termo) impede que o juro real brasileiro caia para 4% ao ano, como o mercado esperava no início do ano.
A alta de juros saiu do radar após o acordo EUA-Irã; o mercado agora precifica cortes graduais, mas o cenário eleitoral pode reverter essa expectativa.
Análise da candidatura de Renan Santos (terceira via)
Paolo elogia o conteúdo de Renan (ajuste fiscal, governança, agenda liberal), mas aponta falta de estrutura partidária, horário na TV e capilaridade.
Renan é mais articulado que Flávio e Lula, mas sua rejeição a pautas religiosas o torna inviável para o eleitorado evangélico (27% do total).
Luciano reforça que candidaturas de direita no Brasil exigem componente religioso; Fernando Henrique Cardoso não seria eleito hoje.
A rejeição de 50% de Lula e Flávio cria uma oportunidade teórica, mas as bolhas estão cristalizadas e a terceira via não tem canais para rompê-las.
Pablo Marçal é citado como exemplo de fenômeno que surge e desaparece; sua base religiosa foi crucial, mas não sustentável.
Argentina de Milei: ajuste, resultados e perspectivas
Milei cortou 1/3 dos funcionários públicos federais e eliminou o déficit fiscal (de -4% para superávit de ~2% do PIB em 3 anos).
O PIB argentino está deprimido (crescimento zero no mercado interno), mas as exportações puxam a economia; a inflação começou a cair no último mês.
A Argentina acumulou US$ 10,5 bilhões em reservas cambiais, com câmbio estável – algo inédito em décadas.
O país está prestes a se tornar exportador líquido de energia: antes importava US$ 10 bi/ano, agora exporta US$ 10 bi/ano; projeção de aumento de US$ 30-50 bi anuais em exportações até 2030.
Já há US$ 100 bilhões em projetos de investimento aprovados (petróleo, LNG, mineração, infraestrutura, data centers).
A dívida bruta argentina é de 40% do PIB (metade da brasileira), com carga tributária de 27% (vs. 33% no Brasil).
Paolo acredita que a Argentina pode se tornar investment grade até 2030, com risco de 'excesso de dólar' e moeda valorizada.
A população apoia o ajuste: em outubro de 2024, Milei venceu as eleições legislativas mesmo após perder em setembro; o medo de voltar ao caos anterior (inflação descontrolada, câmbio paralelo) mantém a coesão social.
Dolarização na Argentina
Milei inicialmente defendia a dolarização total, mas foi convencido pela equipe econômica (considerada por Paolo superior à do Plano Real) a não adotá-la.
A dolarização eliminaria a política monetária própria e sujeitaria o país à inflação americana; com o acúmulo de reservas e controle cambial, tornou-se desnecessária.
O argentino comum já é 'dolarizado' de fato: não usa o peso para poupança ou transações de valor.
Paolo vê a dolarização como 'ruim' e acha que o país pode passar pela transição sem ela, desde que o ajuste fiscal se mantenha.
Comparação Brasil vs. Argentina
Paolo critica a declaração de Fernando Haddad ('Argentina está comendo carne de burro') e afirma que a população de baixa renda apoia o ajuste de Milei.
Enquanto o Brasil tem dívida de 80% do PIB e déficit primário, a Argentina tem dívida de 40% e superávit primário de 1,5%.
A carga tributária brasileira (33% do PIB) é muito superior à argentina (27%), o que dá à Argentina mais espaço para cortar impostos e atrair investimentos.
Paolo prevê que, se Lula vencer, o Brasil pode impor controle de capital; ele próprio considera se mudar para a Argentina nesse cenário.
Luciano vê o cenário brasileiro como 'desafiador' e o argentino como 'promissor', mas ressalta que a Argentina ainda enfrenta riscos eleitorais em 2025.
Passos práticos
Dolarizar parte do patrimônio (abrir conta na Nomad, comprar ativos no exterior) para se proteger de desvalorização cambial e dominância fiscal.
Reduzir exposição à renda fixa brasileira (NTN-B, Tesouro Selic) e migrar para ativos reais (ações de empresas com poder de repasse de preços, baixo endividamento e ativos reais).
Acompanhar as pesquisas eleitorais com foco na distribuição regional do voto (Sudeste) e no comportamento do eleitorado evangélico.
Monitorar o câmbio (dólar) como termômetro da credibilidade fiscal; se disparar, pode forçar o governo a ajustar.
Para quem tem exposição à Argentina, considerar que o ajuste de Milei ainda está em fase de dor, mas o fluxo de investimentos e a melhora fiscal são estruturais.
Usar o Polymarket e outras plataformas de predição para calibrar expectativas eleitorais, mas sem tomar decisões definitivas antes das convenções partidárias.
Frases marcantes
"O mercado global voltou a disparar com as indicações de um acordo iminente entre Estados Unidos e Irã. (Henrique Stetter)"
"É impossível você dizer que uma eleição brasileira fica resolvida em junho do ano eleitoral. (Luciano Dias)"
"O Brasil não vai fazer a lição de casa sem que as variáveis de mercado forcem. (Paolo de Sora)"
"A inflação aleija, mas o dólar mata. (Luciano Dias, parafraseando Mário Henrique Simonsen)"
"A Argentina vai virar investment grade até 2030. (Paolo de Sora)"
"Se o Lula for eleito, acho que vai ter controle de capital no Brasil. (Paolo de Sora)"
Mencionados no episódio
Polymarket (plataforma de mercados de predição)
Nexus BTG (instituto de pesquisa)
Futura (instituto de pesquisa)
Datafolha (instituto de pesquisa)
RPS Capital (gestora de recursos, fundada por Paolo de Sora)
Monte Bravo (evento onde Luciano Dias palestrou)
Safra (banco onde ocorreu o evento)
Intercept (site que divulgou áudios de Vorcaro)
Caso Vorcaro (escândalo de corrupção envolvendo Flávio Bolsonaro)
Emenda Pedro Paulo (proposta de desvinculação de gastos sociais)
Reforma administrativa (PEC 32/2020, aprovada na CCJ)
Plano Real (plano de estabilização econômica brasileiro de 1994)
Milei (presidente da Argentina, Javier Milei)
Alberto Fernández (ex-presidente da Argentina)
Mauricio Macri (ex-presidente da Argentina)
Kicillof (governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof)