50 ANOS DE BASTIDORES: DORA KRAMER EXPLICA A ETERNA CRISE POLÍTICA DO BRASIL | Market Makers #375
Dora Kramer, jornalista com mais de 50 anos de carreira, analisa a evolução da política brasileira desde a Constituinte de 1988 até o atual cenário de impasses, polarização e crise de liderança. Ela discute a perda da arte da negociação política, o papel das redes sociais, a fragilidade dos partidos e as perspectivas para as eleições de 2026 e 2030.
Thiago Salomão – host, CEO do Market MakersLeopoldo – host, jornalista e colunistaDora Kramer – jornalista política, colunista da Folha de S.Paulo
A política brasileira perdeu a capacidade de negociação e construção de consensos, substituída por impasses entre poderes e judicialização.
O 'baixo clero' do Congresso tornou-se dominante, com foco em emendas e financiamento público, em detrimento de projetos de país.
A polarização atual é amplificada pelas redes sociais, mas a maioria do eleitorado não está nos extremos.
Lula construiu uma base social sólida ao longo de décadas, enquanto Bolsonaro é um fenômeno recente e sem sustentação partidária duradoura.
O centro político (PSDB) se desfez por erros estratégicos, como a negação do legado de FHC e a falta de oposição efetiva ao PT.
A judicialização da política (STF como árbitro de questões não resolvidas no Legislativo) distorce a separação dos poderes.
As pesquisas eleitorais tornaram-se o principal instrumento de cobertura política, substituindo a reportagem de campo.
A sucessão de Lula e o fim do ciclo bolsonarista são as grandes incógnitas para 2030, com nomes como João Campos, Eduardo Leite e Tarcísio de Freitas no horizonte.
A perda da arte da negociação política
Dora Kramer define seu marco zero na Constituinte de 1987-88, onde aprendeu que cada parágrafo da Constituição foi fruto de negociação entre direita e esquerda.
Na Constituinte, existia um núcleo suprapartidário (ex.: Luís Eduardo Magalhães, Nelson Jobim, Miro Teixeira) que resolvia impasses; o 'baixo clero' era secundário.
A partir dos anos 2000, o baixo clero tornou-se dominante, e a negociação deu lugar a impasses constantes entre os poderes.
Exemplo: a transição da ditadura para a democracia foi inteiramente negociada (anistia, fim do AI-5, volta dos exilados), mesmo com a ditadura ainda no poder.
Atualmente, falta a construção de consensos; o governo não tem maioria e recorre ao STF quando perde no Congresso, criando uma distorção republicana.
A frase de Luís Eduardo Magalhães ('o próximo Congresso será sempre pior') parece confirmar-se, mas Dora ressalva que o eleitor é responsável pela escolha.
O papel das redes sociais e a polarização
As redes sociais deram voz a todos, mas também amplificaram ânimos exaltados e discursos extremos; antes, a imprensa era o filtro.
A polarização atual não é inédita: PSDB vs. PT já existia, mas a direita tinha vergonha de se identificar como tal (associação com a ditadura).
Hoje, os polos são mais visíveis porque as redes sociais permitem que qualquer um se manifeste sem mediação.
Pesquisas mostram que a maioria da população não está nos polos; os extremos são super-representados no debate público.
A 'micagem' (teatro político) no Congresso é calculada para render cortes virais, não para debater ideias – isso empobrece o debate.
Exemplo: discursos no pequeno expediente antes eram feitos para a Voz do Brasil; hoje são para o streaming.
A crise de liderança e a ausência de projetos de país
Dora identifica vários nomes com potencial (João Campos, Eduardo Leite, Simone Tebet, Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior, ACM Neto), mas nenhum se apresentou como liderança consolidada.
A falta de um projeto de país unificador é evidente: as campanhas são baseadas em factoides e rejeição, não em propostas de fundo.
O Plano Real foi um exemplo de projeto de país que uniu forças e deu vitória a FHC; hoje não há nada similar.
A segurança pública é o tema mais urgente, mas está em disputa eleitoral e não avança – cada lado usa o tema para ganhar votos, sem solução real.
O Congresso tornou-se mais poderoso que o Executivo: o presidente precisa do Congresso, não o contrário, e a negociação é baseada em emendas e cargos.
A transformação do Congresso e o poder do centrão
O Congresso atual é dominado pelo 'baixo clero' que virou 'cardinalato' – a negociação é exclusivamente por emendas e dinheiro do orçamento.
O fundo eleitoral e partidário somam R$ 6 bilhões, com uso cada vez mais permissivo (anistias frequentes, flexibilização da Lei da Ficha Limpa).
A mini reforma política recente limitou multas a R$ 30 mil, incentivando o uso irrestrito dos fundos.
Dora critica a judicialização: o STF é chamado a decidir questões que deveriam ser resolvidas no Congresso, o que desgasta a imagem do Supremo.
Exemplo: a PEC da Segurança Pública e a redução da maioridade penal são usadas como armas eleitorais, sem debate substantivo.
O fenômeno Lula vs. Bolsonaro: construção de base vs. fenômeno midiático
Lula construiu uma base social sólida desde 1979 (greves do ABC, prisão, fundação do PT) – são mais de 40 anos de militância e capilaridade.
Bolsonaro surgiu em 2018 como um deputado de baixo clero, sem base partidária; seu partido (PL) cresceu artificialmente por sua figura.
A direita atual teme que Flávio Bolsonaro perpetue o ciclo; muitos preferem Lula em 2026 para 'enterrar' o bolsonarismo e abrir espaço para novas lideranças.
Dora compara: Lula nunca teve contestação interna na esquerda; Bolsonaro já enfrenta racha na direita (Tarcísio, Caiado, Zema).
O PT sem Lula pode não sobreviver; já o bolsonarismo sem Bolsonaro é 'farelo' – não tem consistência programática.
O declínio do PSDB e o vazio do centro
O PSDB foi criado em 1988 e chegou à presidência em 1994 artificialmente inflado pelo Plano Real; não sustentou a base.
Erros estratégicos: Serra fez campanha negando o legado de FHC em 2002; o partido não fez oposição efetiva ao PT (punhos de renda).
A morte de Sérgio Motta e Luís Eduardo Magalhães em 1997 removeu os pilares do partido.
João Dória foi o golpe final, mas Dora ressalva que ele só encontrou terreno fértil porque o partido já estava em frangalhos.
O centro hoje não tem candidatura própria; todos os nomes (Caiado, Zema, Ratinho Jr.) são de direita, não de centro.
O papel das pesquisas e a cobertura política moderna
As pesquisas eleitorais tornaram-se o principal insumo da cobertura política, substituindo a reportagem de campo e a apuração local.
Dora critica o tratamento das pesquisas como oráculo: quando erram, a culpa é de quem as interpretou como resultado certo.
Exemplo pessoal: em 1990, em Alagoas, o Ibope dava vitória a Renan Calheiros, mas Dora apostou em Geraldo Bulhões baseada em conversas com coronéis – e acertou.
Hoje, os políticos usam pesquisas para decidir onde gastar tempo e recursos (trackings), e a mídia as usa como manchete.
A proliferação de institutos (Quest, Atlas Intel, Futura, Locomotiva, etc.) reflete a demanda por métricas, mas a qualidade varia.
A trajetória pessoal de Dora Kramer: lições de jornalismo político
Dora começou no Jornal do Brasil cobrindo meio ambiente, mas foi para a política por oportunidade – e se apaixonou.
Foi para Brasília cobrir a Constituinte, mesmo com conselhos contrários; aprendeu com 'as feras' e construiu fontes na direita (vazio deixado pelos colegas).
Nunca sofreu censura ou interferência direta, mesmo em momentos delicados (ex.: governo Collor, ACM).
Regra: não ofender, não panfletar, nunca esconder a opinião, mas não colocar a opinião a serviço do trabalho.
O leitor (ou ouvinte) é o destinatário final – não o político. Isso garante independência.
Sorte e oportunidades foram importantes, mas o diferencial foi 'amar o que faz' e ter confiança (não arrogância).
Perspectivas para 2026 e 2030
A eleição de 2026 é vista como 'fim de ciclo' do PT (sem Lula) e possível enterro do bolsonarismo.
Dora não descarta que Flávio Bolsonaro seja trocado até agosto, devido ao telhado de vidro (caso Vorcaro) e à falta de experiência administrativa.
A direita não bolsonarista (Tarcísio, Caiado, Zema) pode preferir Lula em 2026 para 'deixar arder' e depois ocupar o espaço em 2030.
O cenário é de conformismo: a rejeição alta de ambos os candidatos principais indica falta de união em torno de um projeto.
Dora acredita que a política é dinâmica e que novas lideranças surgirão – como FHC surgiu do nada em 1993.
A solução para a crise fiscal e de governança virá, mas não se sabe se será boa; o importante é que 'do chão não passa'.
Passos práticos
Ao votar, preste atenção ao histórico de negociação e construção de consensos dos candidatos, não apenas ao discurso polarizado.
Exija que os candidatos apresentem projetos de país concretos, especialmente em segurança pública e ajuste fiscal.
Acompanhe o trabalho do Congresso e cobre transparência no uso do fundo eleitoral e partidário.
Não se deixe levar apenas por pesquisas eleitorais; busque fontes de informação que façam reportagem de campo e análise aprofundada.
Valorize lideranças que demonstrem capacidade de diálogo com diferentes espectros políticos, sem abrir mão de princípios.
Participe ativamente do processo eleitoral, inclusive votando para senador – muitos eleitores desconhecem o poder dessa cadeira.
Frases marcantes
"O contrário de política é autoritarismo."
"A política é a arte de pegar o dissenso e construir um consenso."
"O Congresso não foi eleito em Marte – foi eleito pelas pessoas."
"Lula nunca teve contestação na esquerda; Bolsonaro é farelo, não tem consistência."
"O centro se intimidou e se colocou nas asas de um lado ou de outro – e morreu."
"Não adianta reclamar do Congresso: o próximo será sempre pior, mas o eleitor pode mudar isso."
Mencionados no episódio
Constituinte de 1988 – processo de elaboração da Constituição brasileira
Centrão – bloco político suprapartidário de centro-direita
Plano Real – plano econômico que estabilizou a inflação em 1994
Mensalão – escândalo de compra de votos no governo Lula (2005)
Lei da Ficha Limpa – lei de inelegibilidade por condenações
PEC da Segurança Pública – proposta de emenda constitucional sobre segurança
Fundo Eleitoral e Fundo Partidário – recursos públicos para campanhas e partidos
João Campos – deputado federal (PSB-PE), filho de Eduardo Campos
Eduardo Leite – governador do Rio Grande do Sul (PSDB)
Simone Tebet – senadora (MDB-MS), candidata à presidência em 2022
Tarcísio de Freitas – governador de São Paulo (Republicanos)
Ratinho Júnior – governador do Paraná (PSD)
ACM Neto – ex-prefeito de Salvador (União Brasil)
Ciro Gomes – ex-ministro e candidato à presidência (PDT)
Fernando Henrique Cardoso – ex-presidente (PSDB)
Lula – ex-presidente (PT)
Jair Bolsonaro – ex-presidente (PL)
Flávio Bolsonaro – senador (PL), filho de Jair Bolsonaro
Eduardo Bolsonaro – deputado federal (PL), filho de Jair Bolsonaro
Felipe Nunes – cientista político, CEO da Quaest
André Roman – cientista político, diretor da Atlas Intel
Aldo Rebelo – ex-ministro e deputado (PCdoB)
Nelson Jobim – ex-ministro do STF e da Defesa
Jorge Bornhausen – ex-senador e presidente do PFL
André Matarazzo – empresário e ex-deputado (PSDB)
Pedro Dória – jornalista e apresentador de podcast
Mamba Water – empresa de água que doa 1 litro por lata vendida