A CHINA E O FUTURO DO BRASIL: ELIAS JABBOUR E KOBORI - Inteligência Ltda. Podcast #1872
Elias Jabbour e José Kobori discutem a China como modelo de desenvolvimento socialista com planejamento estatal eficiente, e o que o Brasil pode aprender para reindustrializar e superar a armadilha neoliberal. O episódio aborda desde a expropriação simbólica do podcast até análises geopolíticas, econômicas e culturais, com críticas ao capitalismo financeirizado e à dependência de commodities.
Elias Jabbour - professor de economia e pré-candidato a deputadoJosé Kobori - analista de mercado e comentarista político
A China não é capitalista: seu sucesso decorre do socialismo com planejamento estatal, estatização da terra, bancos públicos e controle do Partido Comunista sobre empresas estratégicas.
O Brasil precisa de reindustrialização ou morte: sem indústria, o país não gera empregos de qualidade e fica vulnerável à perda do mercado chinês de commodities.
A financeirização é a essência do capitalismo atual, e a China se diferencia por não ser financeirizada, direcionando crédito para produção e inovação.
O mito da eficiência privada cai por terra: o Estado chinês constrói infraestrutura a custos muito menores que os EUA, como mostrado na série do Fantástico.
A burguesia nacional brasileira não existe mais; o papel de agente modernizador deve ser assumido por uma esquerda nacionalista e desenvolvimentista.
A China usa IA e big data para fundir planejamento e mercado, superando o debate clássico entre Mises e Hayek.
O Brasil precisa romper com o tripé macroeconômico (metas de inflação, câmbio flutuante, austeridade fiscal) para retomar o desenvolvimento.
A guerra tarifária e o acordo EUA-Irã confirmam a nova ordem multipolar, com a China como potência central, e o Brasil deve se preparar para negociar de igual para igual.
Expropriação simbólica e introdução ao debate
Elias Jabbour e José Kobori iniciam o podcast anunciando, em tom de brincadeira, a expropriação do Inteligência Ltda., simulando a implantação do socialismo no Brasil.
A brincadeira serve para testar a eficiência da gestão socialista: o programa começou atrasado, mostrando que "não deu certo em princípio".
Vilela está nos EUA e participa por chamada de vídeo; a expropriação é desmentida, mas fica o aviso: "um dia a gente vai tomar esse negócio pra gente".
O episódio foca na relação Brasil-China, com Jabbour como host e Kobori como entrevistado principal.
Jabbour critica a série do Fantástico sobre a China: embora desmistifique a eficiência estatal, a Globo a usa para defender uma tecnocracia, não o socialismo.
Kobori elogia a série por mostrar que o Estado chinês é mais eficiente que o americano, derrubando o mito da superioridade da iniciativa privada.
Os quatro pilares do socialismo chinês que explicam seu sucesso
Jabbour lista quatro elementos que a Globo não mostra: 1) estatização da terra; 2) setores estratégicos (geradores de ciclos de acumulação) são públicos; 3) sistema financeiro 95% estatal, que cria moeda para empresas públicas; 4) células do Partido Comunista dentro de empresas privadas com mais de 500 funcionários decidem os investimentos.
Esses pilares permitem velocidade nas transformações urbanas e industriais, como smart cities e expansão metroviária.
Kobori complementa com o livro de Michael Hudson, 'O Destino da Civilização', que mostra que a China evitou uma classe rentista pós-feudal, mantendo o sistema financeiro a serviço da produção.
A China não permite que o rentismo extraia renda do setor produtivo, ao contrário do capitalismo financeirizado ocidental.
Jabbour enfatiza que a financeirização não é uma anomalia, mas a essência do capitalismo atual; a China é uma economia não financeirizada.
Exemplo: nos EUA, grande parte do lucro da Tesla vai para o centro financeiro; na China, o crédito é direcionado à produção.
China: máquina de previsão e fusão entre plano e mercado
A China construiu uma gigantesca máquina de previsão usando IA, big data, 5G/6G e computação quântica para planificar a economia em tempo real.
Um planejador chinês tem acesso ao estado da arte da economia no minuto seguinte, permitindo investimentos maciços (ex.: US$ 100 bilhões de uma vez).
Isso representa uma relação de outro nível entre ser humano e natureza, com capacidade de intervenção territorial sem precedentes.
A propriedade pública avança sobre o setor privado, diminuindo a margem da lei do valor; modelos de IA substituem a formação de preços de mercado.
Jabbour afirma que Mises e Hayek são atropelados pela realidade chinesa: o planejamento e o mercado se fundiram.
O crescimento médio da China de 1952 a 2024 é de 6,2% ao ano, mostrando que o 'milagre' começou em 1952, não em 1978.
Geopolítica: nova ordem multipolar e o papel do Brasil
Kobori analisa o acordo de paz EUA-Irã como humilhante para os EUA e uma confirmação da nova ordem multipolar, com a bênção da China.
Trump tentou coerção econômica (tarifas) e depois força militar (Venezuela, Irã), mas não teve sucesso; o acordo mostra que a China é a potência central.
Os EUA devem se concentrar nas Américas, tornando a pressão sobre o Brasil maior; Cuba, Venezuela e Colômbia são alvos imediatos.
O Brasil precisa se tornar uma potência econômica para negociar de igual para igual com EUA e China; isso exige reindustrialização, não exportação de commodities.
A China pode buscar autonomia alimentar, reduzindo a dependência do Brasil; o país precisa aproveitar o momento favorável dos termos de troca para investir em indústria.
Jabbour alerta: o Brasil tem água, petróleo e 20% das terras aráveis do mundo, tornando-se alvo preferencial dos EUA; o tempo para se encontrar é curto.
Reindustrialização ou morte: o diagnóstico do Brasil
O Brasil se desindustrializou após o Consenso de Washington; a produtividade baixa e os salários baixos são consequência direta.
Jabbour desafia: mostre um país que chegou à fronteira tecnológica com austeridade fiscal, privatizações e reforma trabalhista precarizante.
Exemplos históricos (Coreia do Sul, Japão, EUA) mostram que o Estado foi central na industrialização, via compras governamentais, bancos públicos e protecionismo.
Kobori cita a Gurgel: nos anos 1970, a empresa brasileira já tinha um carro elétrico, mas o Estado não a protegeu; ao contrário, abriu o mercado para montadoras estrangeiras.
A tentativa de reindustrialização no governo Dilma falhou por falta de coordenação: manteve o tripé macroeconômico (metas de inflação, juros altos, câmbio flutuante) e deu isenções fiscais sem contrapartida de investimento.
Jabbour propõe: uma esquerda nacionalista e desenvolvimentista deve cumprir o papel que a burguesia nacional não cumpre mais, como o Partido Comunista fez na China.
A armadilha dos juros altos e do superávit primário
Kobori explica: a taxa Selic a 14,25% com inflação em 4% gera juros reais de 10%, enquanto o PIB cresce 2,5-3%; matematicamente, a relação dívida/PIB aumenta.
O mercado critica o déficit primário, mas ignora o déficit nominal de mais de R$ 1 trilhão, que inclui o pagamento de juros aos rentistas.
A comunicação do governo foca no primário para não questionar os juros; se o nominal fosse o alvo, a população veria que o problema é o custo da dívida.
Jabbour reforça: o Banco Central tem uma 'porta giratória' com o mercado financeiro; enquanto for assim, a política de juros altos não mudará.
O acordo de Bretton Woods no pós-guerra mantinha juros abaixo da inflação e controle de capitais, forçando o investimento produtivo; o neoliberalismo fez o inverso.
Cultura, liberdade e o controle social na China
Vilela relata sua experiência na China: segurança absoluta, ruas limpas, vida noturna vibrante, e sensação de liberdade de ir e vir maior que nos EUA.
Jabbour atribui isso ao socialismo: Estado presente 24 horas, capital sem poder substantivo, sistema financeiro que não suga renda do povo.
Kobori explica a diferença filosófica: o confucionismo prega harmonia e coesão social; a ostentação (ocidental) é coibida porque fere esse princípio.
A China derrubou 60 mil perfis de ostentação e proíbe pornografia; há campanhas para jovens serem mais 'masculinos' e servirem o exército.
Jabbour defende: a China observa o Ocidente e evita suas mazelas morais; a 'liberdade' de ostentar em um país desigual não é liberdade, é dano social.
Kobori cita o livro 'América contra América' de Yang Rungin, que mostra como a China estuda os EUA para copiar o que funciona e evitar o que corrói a sociedade.
Propriedade privada na China: concessão do Estado
Jabbour explica: no Ocidente, a propriedade privada é sacralizada; na China, é uma concessão do Estado, que pode orientar o empresário a seguir o plano quinquenal.
Jack Ma (Alibaba) foi 'convidado' a investir em semicondutores, não em joguinhos; o Partido Comunista tem assento no conselho de grandes empresas.
Kobori vê o episódio Jack Ma como positivo: o poder político não é do capital, mas do Estado; o empresário pode ser bilionário, mas deve servir aos objetivos nacionais.
Vilela pergunta sobre a taxação de empresas chinesas (AliExpress, Shopee, Shein); Jabbour defende taxar e, se houver trabalho escravo, expulsar do país.
A relação Brasil-China deve ser de igual para igual; o superávit comercial esconde a dependência de commodities, que pode quebrar o Brasil no futuro.
O caminho do Brasil: projeto nacional e luta política
Jabbour defende a construção de uma maioria política pós-Lula, nacionalista, desenvolvimentista e antiliberal, que coloque a reindustrialização como centro.
Kobori concorda: a luta política deve conscientizar a população de que o desenvolvimento econômico é melhor para todos, não apenas para 1%.
O Brasil precisa de um plano de longo prazo, como os 15 planos quinquenais da China, mas adaptado à sua realidade.
Jabbour cita a pré-candidatura a deputado federal no Rio como exemplo de levar esse debate para a prática.
Vilela pergunta como vencer o sistema (centrão); Kobori responde que é pela luta política, que deve priorizar o interesse da sociedade sobre o lucro.
Jabbour encerra: o papel de comunicadores como Vilela, ao trazer vozes diversas, já contribui para buscar o caminho do Brasil.
Passos práticos
Leia os livros de Elias Jabbour: 'China: o socialismo do século XXI' e 'Poder e socialismo'.
Assista à série do Fantástico sobre a China, mas busque fontes complementares para entender os pilares socialistas por trás das obras.
Questione o discurso de austeridade fiscal: compare o déficit primário com o nominal e veja para onde vai o dinheiro dos juros.
Apoie candidaturas que coloquem a reindustrialização e o projeto nacional como prioridade, como a pré-candidatura de Jabbour no Rio.
Estude a história da industrialização brasileira (Vargas, ditadura militar, desindustrialização) e compare com casos de sucesso (Coreia, China).
Pressione por taxação de empresas estrangeiras de comércio eletrônico (Shopee, AliExpress, Shein) e por fiscalização de trabalho escravo.
Participe do debate político com argumentos baseados em dados e exemplos históricos, desafiando o mito da eficiência privada.
Frases marcantes
"A China construiu 50.000 km de trem de alta velocidade em 20 anos. Só pode fazer isso porque é uma economia que já não é mais orientada ao lucro, é orientada à eficiência."
"O que diferencia capitalismo e socialismo hoje é a não financeirização. A China é uma economia não financeirizada."
"O Brasil precisa de reindustrialização ou morte. Não é porque eu gosto de indústria, é porque ali gera emprego de qualidade."
"Na China, a propriedade privada é uma concessão do estado. O empresário pode ficar rico, desde que siga as orientações do plano quinquenal."
"O mito da eficiência privada cai por terra: o Estado chinês faz com muito mais eficiência e menor custo que o americano."
"Nós não temos uma burguesia nacional. O papel de agente modernizador tem que ser cumprido por uma esquerda nacionalista e desenvolvimentista."
Mencionados no episódio
Fantástico - programa da Globo que exibiu série sobre a China
Michael Hudson - autor de 'O Destino da Civilização'
Jack Ma - fundador da Alibaba, citado no episódio sobre controle estatal
Gurgel - montadora brasileira que teve projeto de carro elétrico nos anos 1970
Celso Furtado - economista brasileiro, autor de 'Formação Econômica do Brasil'
Hamilton - Alexander Hamilton, autor do 'Relatório sobre as Manufaturas'
Visconde de Cairu - defensor do laissez-faire no Brasil
Yang Rungin - autor de 'América contra América'
Bretton Woods - acordo que manteve juros baixos e controle de capitais no pós-guerra
Consenso de Washington - conjunto de políticas neoliberais que o Brasil adotou
BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
SpaceX - empresa de Elon Musk, citada como exemplo de dependência de compras governamentais
Toyota - montadora japonesa que se beneficiou do estado desenvolvimentista
Hyundai - montadora coreana que se beneficiou da proteção estatal
Partido Comunista Chinês - partido no poder, com células em empresas privadas
AliExpress, Shopee, Shein - empresas chinesas de comércio eletrônico citadas sobre taxação
GWM - montadora chinesa que chegou ao Brasil rapidamente
BYD - montadora chinesa de veículos elétricos
Inteligência Ltda. - podcast de Vilela, onde o episódio foi gravado