A NOVA MINA DE OURO DO BRASIL QUE NINGUÉM ESTÁ VENDO | Market Makers #365
Episódio sobre energia solar no Brasil como ativo financeiro, com foco em geração distribuída (GD) e no fundo imobiliário SNEL11. Thiago Salomão recebe Vitor Duarte (CEO Suno Asset) e Anderson Tonelli (diretor de operações) para explicar por que o Brasil demorou a aproveitar seu potencial solar, como funciona a compensação de créditos na conta de luz, e onde estão as oportunidades e riscos para investidores. O episódio destaca margens elevadas (85% EBITDA), TIR de 14-18% e a vantagem tributária dos FIIs.
Thiago Salomão – host, CEO da Market MakersVitor Duarte – CEO da Suno Asset, 20 anos de mercado financeiroAnderson Tonelli – diretor de operações da Suno, 28 anos no setor elétrico
O pior estado brasileiro em irradiância solar (RS) tem mais sol/m² que o melhor estado alemão, mas o Brasil demorou a explorar isso devido ao alto custo de capital e das placas até 2017.
A geração distribuída (GD) permite que consumidores se tornem autoprodutores, pagando apenas o aluguel da usina e evitando encargos setoriais, com desconto percebido de 10-22% na conta.
A TIR de projetos solares em GD caiu de 35-40% (2021-22) para 14-18% atualmente, ainda atrativa, especialmente em brownfield (usinas prontas).
Fundos imobiliários como SNEL11 oferecem dividend yield de ~14% + inflação energética (IPCA + prêmio), com isenção de IR para pessoas físicas, superando elétricas tradicionais (Eletrobras ~9%).
O risco regulatório é relevante: a Lei 14.300/2022 reduziu incentivos, e há lobby de geradores centralizados contra a GD, mas a GD é juridicamente autoprodução, não venda de energia.
Baterias são a próxima fronteira: armazenar energia solar para o horário de pico (18-21h) pode viabilizar nova expansão, com custos em queda e reuso de baterias de veículos elétricos.
O SNEL11 migrou de greenfield (construção) para brownfield (compra de usinas prontas), priorizando ativos de ≥2,5 MWp (R$ 12-15 milhões), com margem EBITDA de 85%.
A demanda por energia deve crescer com data centers, IA e eletrificação, beneficiando o setor; a GD já é o segundo maior gerador do Brasil, atrás apenas da Eletrobras.
Vantagem natural do Brasil e demora para explorá-la
O Brasil tem a matriz elétrica mais limpa do mundo: 88% renovável, com solar já sendo a segunda maior fonte (20% da matriz), atrás da hídrica (44%).
O pior estado em irradiância solar (Rio Grande do Sul) recebe mais sol/m² que o melhor estado da Alemanha, referência mundial em energia solar.
A demora se deveu ao alto custo de capital no Brasil (juros elevados) e ao preço das placas solares, que só caiu significativamente a partir de 2017.
O preço do polissilício (matéria-prima das placas) caiu de US$ 400/tonelada para menos de US$ 10/tonelada, viabilizando economicamente a energia solar.
A instalação de usinas solares é de baixa complexidade técnica – comparada a montar um Lego –, mas requer manutenção constante (roçagem, limpeza, monitoramento).
O boom ocorreu entre 2017 e 2022, impulsionado pela queda de custos e pelos incentivos regulatórios; a Lei 14.300/2022 fechou a janela de vantagens excessivas.
Como funciona a geração distribuída (GD)
Na GD, o consumidor se torna autoprodutor: ele aluga uma fração de uma usina solar e recebe créditos de energia que abatem sua conta de luz.
O mecanismo não é venda de energia, mas compensação de créditos: a energia gerada é injetada na rede da distribuidora e abatida do consumo do consórcio.
O consumidor paga apenas a taxa mínima de conexão à distribuidora e o aluguel da usina, evitando encargos setoriais (fundos, impostos) que compõem ~70% da conta.
O desconto percebido pelo consumidor varia de 10% a 22% sobre a conta total, dependendo da região e da oferta de usinas.
Para aderir, o consumidor informa seu código de instalação (UC) a um consorciado líder, que organiza a alocação dos créditos junto à distribuidora.
A GD é benéfica para o sistema por reduzir perdas na transmissão (geração próxima ao consumo) e aliviar a rede em horários de pico.
Margens e rentabilidade da GD vs. geração centralizada
A margem EBITDA de operadores de GD chega a 85%, enquanto a de geradoras tradicionais (Eletrobras, Axia) fica em torno de 39% (EBIT) e 26% (líquida).
Isso ocorre porque a GD recebe o valor cheio da energia (excluindo encargos), enquanto a geração centralizada recebe apenas o preço da energia (cerca de R$ 200 de R$ 1.000 na conta).
A TIR de projetos GD em brownfield (usinas prontas) está entre 14% e 18% ao ano, contra 35-40% em 2021-22 (greenfield, com premissas otimistas).
O dividend yield do SNEL11 é de ~14% + inflação energética (IPCA + prêmio), líquido de IR para PF, superior ao de elétricas como Eletrobras (9%) e Enel (4,2% em 2024).
A inflação energética nos últimos 10 anos foi de 75%, contra 55% do IPCA, o que protege a receita real dos ativos solares.
Fundos imobiliários têm vantagem tributária: pessoas físicas são isentas de IR sobre dividendos, enquanto empresas pagam ~22% (14,65% PIS/Cofins + 10% IR sobre dividendos).
O SNEL11: estratégia, tamanho e perfil de cotistas
O SNEL11 é um fundo imobiliário da Suno que investe em usinas solares de geração distribuída, com foco em brownfield (compra de usinas prontas) desde 2024.
O fundo captou R$ 622 milhões em sua quarta oferta (final de 2025) e tem market cap de ~R$ 1 bilhão, com 100 mil cotistas.
O tamanho mínimo de usina para aquisição é de 2,5 MWp (cerca de R$ 12-15 milhões); usinas menores (ex.: 1,2 MWp) só são viáveis se adjacentes a outras.
A migração de greenfield para brownfield ocorreu porque construir novas usinas não é mais atrativo sem baterias para resolver a intermitência.
O fundo tem concentração de investidores qualificados (players do setor elétrico) e também pequenos investidores (cotas a ~R$ 85,50, com renda mensal de ~R$ 100 para R$ 10 mil investidos).
A liquidez diária do SNEL11 é de R$ 3-5 milhões, e o fundo busca atrair investidores estrangeiros (ETFs) quando atingir maior market cap.
Riscos do investimento em GD e SNEL11
Riscos operacionais (medidor para dentro): quebra de equipamentos, roubo de cabos, necessidade de manutenção (roçagem, limpeza), que podem reduzir a disponibilidade da usina.
Riscos regulatórios: possibilidade de novas tributações (ex.: fim da isenção de IR para FIIs) ou mudanças nas regras de compensação de créditos, apesar da Lei 14.300/2022 dar segurança jurídica.
Risco de lobby de geradores centralizados: podem tentar atribuir custos de curtailment (corte de geração por excesso de oferta) à GD, embora a GD seja autoprodução e não venda.
Risco de mercado: aumento da taxa de juros real (hoje em 7-8%) pode tornar o dividend yield de 14% menos atrativo, mas é um risco sistêmico que afeta todos os ativos.
Risco de vacância: usinas podem ter dificuldade em atrair consumidores para o consórcio, gerando frustração de receita no curto prazo (curva J), mas o fundo é full equity e não alavancado.
Risco de ramp-up: o período de ocupação das usinas pode se estender além do previsto, adiando a distribuição de dividendos.
Oportunidades futuras: baterias, demanda e data centers
Baterias estão ficando mais baratas e podem armazenar energia solar para o horário de pico (18-21h), resolvendo a intermitência e permitindo nova expansão da GD.
Já há testes com baterias de carros elétricos usados (que não servem mais para tração, mas servem para armazenamento estacionário).
A demanda por energia deve crescer com data centers para IA, veículos elétricos e eletrificação de processos; os EUA já investiram US$ 450 bi em capex de tech em 2024, com previsão de US$ 800 bi em 2025.
A GD se beneficia desse aumento de demanda sem precisar apostar em qual empresa de IA vencerá – é como vender pás e picaretas na corrida do ouro.
Com a adesão de mais consumidores, o desconto percebido tende a diminuir, aumentando a receita das usinas e os dividendos (potencial de 15-18% de yield).
O SNEL11 possui certificação IS (investimento sustentável) da B3, atendendo critérios ESG, o que atrai investidores estrangeiros – falta apenas maior market cap.
Comparação com outros setores e governança do SNEL11
Diferente do setor de telecom (milhares de provedores clandestinos), a GD é controlada pela Aneel, que georreferencia todas as usinas e monitora os créditos via relógios de medição.
O SNEL11 doa parte da taxa de administração ao Instituto Água Viva (apoio a mulheres e crianças no Nordeste), reforçando o pilar social do ESG.
O fundo tem auditoria independente, relatórios trimestrais e segue regras de companhia aberta, com sufixo IS da B3 que exige critérios rigorosos de sustentabilidade.
A governança é um diferencial para investidores estrangeiros, que ainda não entraram no fundo por falta de tamanho (market cap ideal > R$ 2-3 bilhões).
Passos práticos
Verifique sua conta de luz: se você paga mais de R$ 1.000/mês, a adesão a um consórcio de GD pode gerar economia de 10-22% (R$ 100-220/mês).
Pesquise plataformas de GD na sua região (Google: 'geração compartilhada energia solar [seu estado]') e compare o desconto oferecido.
Para investir em SNEL11, compre cotas na B3 (código SNEL11) por cerca de R$ 85,50 cada; o dividend yield histórico é de ~14% a.a. + inflação energética.
Avalie o risco regulatório: a Lei 14.300/2022 já reduziu incentivos, mas a GD continua protegida; fique atento a novas propostas tributárias.
Considere a diversificação: em vez de construir sua própria usina (greenfield), prefira fundos como SNEL11 para ter liquidez, diversificação e benefício fiscal.
Monitore o desenvolvimento de baterias: quando o custo cair o suficiente, a GD poderá se expandir novamente, criando novas oportunidades de investimento.
Frases marcantes
"O pior estado do Brasil em irradiância solar tem mais sol por metro quadrado do que o melhor estado da Alemanha."
"A energia solar deixou de ser um tema só para engenheiro ambientalista e virou um ativo financeiro com contrato, aluguel, fluxo de caixa e renda mensal."
"Quando o custo baixou significativamente em 2017-18, começou a corrida do ouro. Todo mundo começou a querer instalar."
"A margem EBITDA da GD é de 85%. A cada R$ 100 que entram, a gente gasta R$ 15 e fica com R$ 85."
"O SNEL11 é um fundo ambientalmente correto, com sufixo IS da B3, e doa parte da taxa de administração para o Instituto Água Viva."
"A demanda por energia vai crescer com data centers e IA. A gente tá olhando como vender pá e picareta nessa corrida do ouro."
Mencionados no episódio
Suno Asset – gestora de fundos, responsável pelo SNEL11
SNEL11 – fundo imobiliário de energia solar da Suno, listado na B3
Lei 14.300/2022 – marco legal da geração distribuída no Brasil
Aneel – Agência Nacional de Energia Elétrica, reguladora do setor
Eletrobras – maior geradora de energia do Brasil, referência em geração centralizada
Axia – empresa de energia (comparação de margens)
Instituto Água Viva – ONG apoiada pelo SNEL11, atua com mulheres e crianças no Nordeste
Vavá de Santana – músico brasileiro, citado por Vitor Duarte
MGMT – banda, música 'Kids', citada por Anderson Tonelli